O debate sobre o fim da escala 6×1

Imagem: LT Chan
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Por WEBER TAVARES DA SILVA JUNIOR*

O debate sobre a escala 6×1 expõe como interesses econômicos moldam a narrativa pública

1.

Todos os anos, na sessão de abertura dos trabalhos legislativos do Congresso Nacional, o poder executivo apresenta as prioridades do governo federal. Este ano, no dia 02 de fevereiro, no documento enviado aos congressistas, o Presidente Lula destacou como as grandes prioridades para 2026: o fim da escala 6×1 de trabalho, sem redução de salário; a regularização do trabalho por aplicativos; e a segurança pública.

O fim da escala 6×1, considerando a categorização proposta por Lowi, pode ser classificada como um debate sobre política regulatória. Ainda segundo o autor, este tipo de debate é profundamente competitivo, e ocorre em uma “arena regulatória” marcada por intenso conflito, já que alguns setores percebem perdas concretas enquanto outros observam ganhos de direito.

Ao priorizar o debate do fim da escala 6×1 o Poder Executivo disparou o chamado ciclo de construção de políticas públicas obrigando o Poder Legislativo a trabalhar na formação da política, uma vez que o tema foi incluido na agenda pública com forte apelo social. Neste cenário, os diversos grupos de interesse são obrigados a se posicionar, e neste breve ensaio aproveitaremos esta oportunidade para observar o comportamento de parte da chamada ‘grande mídia’ no Brasil.

Apenas dois dias depois do envio das prioridades do Governo Federal ao Poder Legislativo, no dia 04 de fevereiro, ao jornal Folha de S. Paulo publicou matéria que tinha como título: “Fim da jornada 6×1 pode eliminar mais de 600 mil empregos formais diz estudo”. Importa registrar que, segundo a própria matéria, a catastrófica projeção foi feita por uma ONG que tem como principal apoiadora o banco Itaú.

A medida que o tema ganhava repercussão, mais matérias eram publicadas em diversos veículos de imprensa. Durante a última semana, a Folha de São Paulo passou a se manifestar diariamente sobre o tema, vejamos os títulos das matérias publicadas em cinco dias consecutivos: Reduzir jornada é trunfo do populismo sobre boa política pública (20/02 – sexta-feira); Brasileiro trabalha menos que a média mundial; veja rankings (21/02 – sábado); Empresários prepararm contra-ataque ao fim da jornada de trabalho 6×1 (22/02 – domingo); Presidentes do PL e UB querem barrar fim da escala 6×1 na CCJ da Câmara (23/02 – segunda-feira); Fim da escala 6×1 elevaria custo das empresas em até R$ 267.2 bi por ano (24/02 – terça-feira).

2.

Embora não seja o foco deste breve ensaio, é importante salientar que o conteúdo das matérias supracitadas não resiste a uma análise de método. O que não quer dizer, necessariamente, que estejam errados, mas evidencia que os métodos empregados para apresentar suas conclusões são no mínimo questionáveis. Isto sugere que tais estudos não seguiram padrões científicos para testar suas hipóteses, e sim, que partiram de conclusões préestabelecidas, já que estão pressionados pelo tempo do debate público.

Nenhum dos artigos supracitados fazem referência, por exemplo, à importância da mecanização industrial para o aumento da produtividade da mão de obra. Me permitam exemplificar. Vivo nos Estados Unidos onde estou desenvolvendo parte de minha pesquisa de doutoramento. Recentemente uma forte chuva atingiu a cidade, o que gerou a queda de dezenas de árvores na região da Universidade, que é uma das maiores do mundo. Pude observar que todos os caminhões que trabalhavam na coleta das árvores caídas possuiam guindastes, trituradores de madeira e motoserras de diferentes tamanhos.

Desta forma, equipes compostas por apenas três ou quatro trabalhadores conseguiam efetuar o trabalho de liberação de vias com enorme rapidez, e, em menos de 24 horas não havia uma única via interditada. Ainda que não queira ancorar meu argumento na análise emprírica, acredito que é possível afirmar que neste caso a alta produtividade das equipes tenha mais relação com a mecanização do processo e menos relação com a nacionalidade dos trabalhadores, a maioria latino americanos, diga-se de passagem.

A pergunta que fica é: se a mão de obra é um recurso barato, vale a pena investir em mecanização? Se a resposta for negativa, talvez precisemos ajustar o ponto de observação.

Retomando o debate principal, temos que a observação das matérias publicadas em um dos jornais mais lidos do Brasil deixa claro que, assim como já nos alertava Herman & Chomsky, a mída comercial filtra os coflitos regulatórios considerando os interesses das grandes organizações (que são grandes anunciantes), o que cria um viés sistêmico. Neste cenário, cresce a importância da Universidade Pública e dos meios de divulgação que atuam com rigor acadêmico e com uma estrutura de propriedade e financiamento que lhes permite atuar com independência jornalística.

*Weber Tavares da Silva Junior é doutorando em Administração na Universidade Federal de Goiás (UFG), atualmente realizando doutorando-sanduíche na Arizona State Univesity (ASU).

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