Nota sobre a “ritmanálise”

Imagem: Miquel Rossy
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Por WILLIAM GÓMEZ*

A transformação de conceitos relacionais em campos autônomos de estudo ameaça desidratar o pensamento dialético, convertendo a crítica da totalidade em meras ciências parcelares

 

1.

Não lembro onde li que ao ouvir que determinadas pessoas se autodenominavam “marxistas”, Karl Marx teria respondido: “Tudo o que sei é que eu não sou marxista”. Essa frase mostra a coerência de Marx com o espírito crítico de sua própria obra e ainda a recusa radical de transformar um pensamento vivo em doutrina, de tornar o método dialético em dogma ou de substituir a descoberta científica pela repetição de fórmulas.

Isso tem ocorrido muito com o pensamento de Karl Marx na América Latina: dogmatizando seu pensamento. Como disse José de Souza Martins há uma negativa de ver Karl Marx como datado, limitado pelo momento histórico em que escreveu sua obra: o século XIX.

É possível que Henri Lefebvre responderia de maneira parecida se lhe perguntassem se era “lefebvriano”. Não significa isto que ele renegasse da sua própria obra, mas porque ele sempre combateu qualquer forma de cristalização do pensamento. Henri Lefebvre, como sabemos, não escreveu um sistema fechado; escreveu, do mesmo modo de Marx, uma obra aberta, marcada pela experimentação, pela crítica e pelo movimento incessante da dialética como método.

Essa observação torna-se particularmente interessante diante do crescente interesse acadêmico por seu pensamento. Nas últimas décadas, conceitos como a produção do espaço, a vida cotidiana, o direito à cidade e, mais recentemente, a “ritmanálise” passaram a constituir verdadeiros campos de pesquisa.

Esse movimento é, sem dúvida, extremamente positivo para a obra de um autor, como disse José de Souza Martins, marginalizado pela esquerda e pela academia. Demonstra a vitalidade de uma obra que continua produzindo novas perguntas e novos caminhos de investigação. Agora, o fato de pesquisadores se dedicarem especificamente à ritmanálise, por exemplo, evidencia que Henri Lefebvre permanece intelectualmente fecundo e é capaz de dialogar com os problemas contemporâneos.

Porém, esse processo também suscita uma dúvida que precisa ser objeto de nossa reflexão. Até que ponto esses recortes, necessários à pesquisa científica, preservam a unidade do pensamento lefebvriano? Em outras palavras, quando transformamos um conceito em um campo autônomo de estudos, não corremos o risco de perder precisamente aquilo que lhe dava sentido dentro da obra?

 

2.

A questão não é simples nem fácil. Toda pesquisa necessita de delimitações. Nenhum pesquisador consegue estudar simultaneamente toda a extensão da produção de um autor. Os recortes são inevitáveis e constituem uma exigência metodológica. O problema surge quando a delimitação metodológica se transforma em fragmentação teórica. Aqui é onde vejo a questão que precisa ser pensada.

Essa preocupação foi central para Henri Lefebvre. Poucos autores criticaram com tanta intensidade aquilo que ele denominava “ciências parcelares”. Para ele, a modernidade produziu uma crescente especialização dos saberes, dividindo artificialmente aquilo que, na realidade social, aparece profundamente unido. Economia, política, urbanismo, filosofia, sociologia, geografia e arquitetura passaram a observar parcelas da realidade como se fossem objetos independentes, perdendo de vista a totalidade das relações sociais.

Essa crítica está diretamente relacionada com o modo de produzir conhecimento. Henri Lefebvre mostrou que a realidade concreta é sempre uma totalidade contraditória, em constante transformação. Nenhum conceito possui existência isolada nem autônoma; cada categoria só adquire sentido em relação às demais.

Talvez aí encontramos uma aparente ironia. Justamente um autor que combateu a fragmentação do conhecimento passou a ser frequentemente estudado de maneira fragmentada. Há especialistas na produção do espaço, especialistas na vida cotidiana, especialistas no urbano, especialistas no direito à cidade e, mais recentemente, especialistas na ritmanálise. Evidentemente, essa especialização permitiu aprofundamentos importantes e contribuiu para ampliar a difusão internacional de sua obra. Não há dúvida disso. Não se trata, portanto, de desqualificar esses estudos, que têm produzido contribuições relevantes.

A questão é outra. Quando a ritmanálise é estudada isoladamente, continua sendo a ritmanálise de Henri Lefebvre? Ou transforma-se em uma metodologia relativamente autônoma, desligada do conjunto filosófico, sociológico e político que lhe dava significado?

Vale lembrar que a ritmanálise ocupa um lugar bastante específico na trajetória intelectual de Henri Lefebvre. Ela não nasce como uma técnica de observação urbana nem como um simples método para registrar ritmos da cidade nem ritmos biológicos ou do corpo. Ela representa o desdobramento de décadas de reflexão sobre o cotidiano, sobre a produção social do espaço, sobre a temporalidade, sobre o corpo, sobre a alienação e sobre a reprodução das relações sociais de produção. Sem essa trajetória, a ritmanálise perde parte de sua densidade teórica.

 

3.

O mesmo podemos dizer da produção do espaço. Frequentemente esse conceito é utilizado para descrever processos urbanos, arquitetônicos ou territoriais. Contudo, em Henri Lefebvre, o espaço nunca aparece como objeto independente. Ele constitui uma dimensão inseparável da reprodução da sociedade capitalista, da vida cotidiana, do Estado, da acumulação, das formas de poder e das práticas sociais. Isolar o conceito pode facilitar sua operacionalização empírica, mas também reduzir a crítica radical.

É possível que essa seja uma tensão quase inevitável na circulação das grandes obras clássicas. Para que a obra de um autor seja profundamente estudada, é necessário que suas ideias sejam apropriadas por diferentes campos disciplinares. Porém, toda apropriação corre o risco de simplificar aquilo que era complexo.

Talvez a melhor forma de enfrentar essa tensão seja compreender os recortes temáticos como pontos de partida, e não como pontos de chegada, como costuma acontecer. A ritmanálise pode ser uma excelente via para conhecer Henri Lefebvre, desde que conduza o pesquisador à totalidade de sua obra. O mesmo vale para o espaço, para a vida cotidiana ou para o direito à cidade. Esses conceitos ganham vida e força quando são inseridos no movimento do pensamento que os produziu.

Nesse sentido, talvez o maior legado de Henri Lefebvre não seja nenhum conceito isolado, mais precisamente seu modo dialético de pensar. Seu esforço consistiu em atualizar criticamente o pensamento de Karl Marx, não por meio da repetição de categorias já estabelecidas, mas pelo desenvolvimento do método dialético diante das transformações do capitalismo do século XX. Sua obra convida continuamente a estabelecer relações, a superar separações artificiais e a compreender a realidade em movimento com sua complexidade contraditória.

Por isso, talvez a pergunta mais fecunda não seja se existem ou não “ritmanalistas”, “espacialistas” ou “estudiosos da vida cotidiana”. A pergunta mais interessante talvez seja outra: até que ponto esses recortes conseguem manter vivo o horizonte dialético que lhes deu origem? Afinal, para um autor que passou toda a vida combatendo as fragmentações do conhecimento, o maior reconhecimento talvez não seja multiplicar especialistas em partes de sua obra, mas preservar a unidade crítica de seu pensamento.

*William Gómez é professor de sociologia na Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

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