A aura do nada

Imagem: Paulinho Fluxuz

Por LUIZ ROBERTO ALVES*

O suposto presidente reina absoluto no mar do planejado nada. O conjunto do mal, do medíocre e do nada é o seu delírio

Quando a pessoa ou o grupo social toma consciência do mal a agir no interior de sua vida cotidiana, não tem mais motivos de estupefação, nem de fazer reclamações como se tivesse créditos a receber. Dá-se aí algo novo, que supera as possíveis mesmices do dia a dia. A consciência que deixa de ser egocêntrica e ganha a condição pública pelo conhecimento do real vivido também libera o corpo para se afirmar como aquela flor de Drummond, nascida no asfalto, pequena, porém intrépida, resistente e atrevida, a qual já é flor porque fez o seu furo de vida na camada rígida que a aprisionava.

Uma leitura das obras de Agnes Heller e Paulo Freire justifica e encaminha a práxis sugerida pelo parágrafo anterior. O autor deste texto passou a ver melhor conexão entre o educador e a filósofa no congresso mundial de freireanos em Turim, 2014. Diante de mais de uma centena de estudiosos de Freire, Heller refletiu sobre a obra do patrono da educação brasileira como uma fala-escritura do humanismo, a qual, no entanto, não se larga na direção humanista sem assumir o senso-comum do cotidiano, o discurso da cultura do indivíduo e sua comunidade no real vivido (e não segundo qualquer cartilha); enfim, a mudança e a transformação na pedagogia de Freire movem indivíduos que se tornam sujeitos pela consciência e, em seguida comunidade que educa e se educa como um movimento autônomo e libertador. Um processo revolucionário, como faz ver em Pedagogia do Oprimido, embora somente no manuscrito que estava em poder do chanceler Jaques Chonchol.

Mais do que por obrados fenômenos da economia e das finanças, os futuros confrontos políticos e eleitorais do Brasil passarão pela linguagem do humano tornado consciente e pela poética que ele cria no aprendizado que o transforma. Portanto, a condição humana real é o ponto de partida de toda a educação; a construção humanista inédita, porém viável, é a própria metodologia construída pelo corpo ativo e pela poética alargada de educandos e educadores;

Diante de um arremedo de governo que festeja a morte do humano, da fauna e da flora, este país terá de seposicionar a favor do ser, para não ser.

Os estudiosos de Shakespeare gostam de dizer que o poeta e dramaturgo cresce (também em quantidade de leitura) no tempo da crise e da dor. Um poeta do desvio e da encruzilhada. Entre os textos citados, encontra-se a cena 2 do ato 5 da obra Antônio e Cleópatra. Ali se lê, em tradução aproximada: “O dia claro de nossas vidas se foi e nós já estamos na escuridão”

A escuridão também compõe o símbolo do cotidiano repetitivo, menos pela circunstancial falta do sol do que pelo trabalho que aliena, pela invisibilidade dos afetos e projetos, pela quebra das conexões. Aí deita e rola a velha política, que é só o que preside o Brasil desde 2019.

Independentemente da troca do Brasil justo e digno por uma grana que pague credores e alguns pratos de comida, de que os pobres e miseráveis realmente precisam, o grande mal persiste e vai piorar, inaugurado que foi em primeiro de janeiro de um ano atrás. Nem de longe este é simplesmente um governo reacionário em costumes e ultraliberal em economia. De fato, este governo não é nada, pois não existe como acordo simbólico criador de alguns valores e sim como impostura e exploração do caos.Quais valores ele criou?  O governo que deu 600 (dos nossos impostos) com uma mão, com a outra tirou direitos ao trabalho decente, não evitou desapropriações na pandemia, estimulou contágios pelo seu exemplo diário, receitou remédios inócuos e priorizou desaforadamente armas e munições em vez de livros e escolas.

Não há ministros, não há secretários, não há pessoas neste governoem quem cidadãos e cidadãspossam confiar; há o mal, causador de milhões de malestares e pobreza abundante.

Nas últimas semanas, o enorme engano dos que entraram em frenesi analítico daquele que supõe ser presidente em Brasília (tanto na imprensa quanto na TV e nas redes sociais) se deu por obrado seu momentâneo sucesso. Seria ele autor de planos bem elaborados (embora maléficos), de uma política ajustada e aproveitada para “dar voltas por cima da oposição” e ganhar a simpatia de metade dos brasileiros e brasileiras no rumo de 2022? Acharam até que ele começava a ter a mínima educação no contato social. Debalde! A única coisa que falta a esses analistas é entrar no coro do “Mito”. Não nos espantemos diante da procissão dos bajuladores, marinheiros privilegiados do nada, ou de qualquer coisa.

Ora, quem pode executar tarefa com tanta desenvoltura, simples como distribuir dinheiro a conta-gotas para bocas e bolsos senão o nada jurídico, o organizacional negativo, o nada orgânico e o nada político? Ou nos enganamos sobre o fato de que um governo digno encarna no quadro estatal do dono do poder, o povo! Um povo já não invisível (enquanto se contagiava à porta do banco por horas e dias), pois a alienação e a invisibilidade são o próprio plano da impostura e do “levar vantagem”. Um povo, enfim, que já apreendera o significado do Estado e, como consequência, fez-se cidadão e entendeu, a cada dia mais consciente do planejamento, da solidariedade e da consulta pública. O estado feito cidadania constrói políticas que, ao reconhecer, de início, as diferenças, supera o que a escravizava, isto é, a desigualdade. Nesse movimento de consciência que gera mais consciência, o trabalho do agente público é representação das necessidades e desejos da sociedade e das comunidades.

Isso não se dá aqui, no país invadido pelo baixo calão, parceiro das armas, violências e ameaças, onde perguntas óbvias e necessárias, como os depósitos de 89 mil do Queiroz à primeira-dama, recebem como respostas efetivas ameaças e malvadezas da língua deturpada.

O país nada apresenta que signifique, organicamente, governo, mas muito ao contrário: numa festa privada em espaço público surge uma moralista a fazer blague dos cocares indígenas; o outro, indiciado por questões ecológicas e, por isso mesmo, a passar boiadas de menosprezo e escárnio sobre os povos dos campos, dos rios e das florestas; e aqueloutro a exercer um ofício de alto escalão que não conhece e, deste modo, pronto a sujar-se na história por conta de algum soldo a mais. Sem esquecer ainda do infeliz que não diz bolachadiante da perspectiva de recursos minorados para a educação das crianças e para pesquisas nas grandes áreas das ciências, das artes, das humanidades e estudos aplicados aos projetos sociais. Seguem-se todos e todas, numa unidade raras vezes vista da mediocridade em rota batida para o nada como sentido de governo.

O suposto presidente reina absoluto no mar do planejado nada. O conjunto do mal, do medíocre e do nada é o seu delírio. Quando vê surgir a obviedade de um povo crescentemente pobre, pela peste e pelas relações de trabalho, mexe no tesouro e delira com seus louros, ganhos e números. Ele sabe que a antiga cartilha de anotações amareladas, de há muito ditadas por notórios bandidos travestidos de anti-marxistas ou anti-comunistas, é o guião único que passa boiadas de decretos, portarias, leis e atitudes que negam a essência da ideia mesma de governo. Já não há que falar de democracia, porque seria demais no quadro do nada. Trata-se do mal mesmo, daquela escuridão sentida e narrada pelo autor de Rei Lear e Romeu e Julieta. Uma escuridão jogada sobre uma gente brasileira que inclui muitos sábios, pessoas cultivadas nas ciências e nas artes, gente sensível que crê na força de seus braços e gerações jovens que carecem urgentemente de formação digna e libertadora. A alternativa é que uma linguagem poética humanizada (e não a mesmice surrada da dita oposição) venha a alterar o cotidiano sem luz e todas as inteligências despertem para o bloqueio do poder no circo horrendo do nada.

Mas a consciência de que a linguagem molda a organização social é indispensável como ponto de partida.  O que é que nos apresenta hoje o campo do poder? O palavrão como norma apropriada, a compulsão da morte (dos outros), o escárnio, as falas de semialfabetizados, os atos repetitivos e doentios (denominados “verdades”) diante de fenômenos indefensáveis, a cartilha dos bandidos e mestres da fraudea dirigir a CF-1988. Não nos enganemos. pois esse é o feixe de linguagens que molda o Brasil e pretende chegar a oito anos e talvez mais de horror, de escuridão, de anticultura, do festival ridículo do nada.

Outro dado indispensável é que não há vacinas nem contra o ódio, nem contra a cabeça longamente deformada. Também não há facilidade em reverter moldes de uma linguagem que se impõe associada a uma compra barata de vontades sofredoras. Terá de chegar a hora e a vez do confronto, no qual a inteligência nacional, encarnada no mundo do trabalho, na investigação das coisas novas, no ensino, no cuidado para com os outros e no empreendimento dignificador da vida apreenderá e aprenderá todo o sentido dos modelos dessa linguagem que aprisiona, amordaça, distribui adjutórios, humilha e torna invisíveis os fundamentos da cultura política e da cultura da cidadania. Enquanto isso, o festival dos ridículos baterá cabeça para ver quem se reelege para a direção do Congresso Nacional e entre os palpiteiros do momento vão se dar novas disputas para o candidato a vice na chapa do nada ora catapultado à condição de preferido.Na medida em que os senhores do Congresso não veem razões para impeachment, cabe pensar que alguns esperam sua hora e sua vez de embarcarem com o capitão afastado da farda. Sempre é possível um buraco dentro do buraco. De qualquer modo, todos se juntarão àquele que reina sobre o nada, expectativa simbólicada celebração que, ao dar o nome de vitória sobre a Covid-19, de fato comemorou a vitória da morte. Este país sempre preferiu a Quaresma à Páscoa. Agora se deseja que o gosto se estenda por todo o ano.

Repita-se: não será a economia nosso farol para a saída, mas as novas linguagens poéticas da cultura, as quais, desde o cotidiano educado, espantarão este suposto governo. Naquelas horas poéticas da iluminação das consciências, serão dispensáveis os velhos capitães do mato dos partidarismos (incapazes de criticar a glória momentânea do suposto presidente), os discursos também repetitivos de um republicanismo que jamais existiu, o ensino dos surrados conteúdos, afastados da nova escola, que é a comunidade educativa. Chegará a hora de se perceber que o auxílio governamental da fometorna as pessoas ainda mais pobres a médio prazo. Juntadas as experiências, entre sofridas e prazerosas, uma concepção poética do mundo e do país das gentes desta terra verá com olhos de ver que o Brasil foi jogado muitas décadas atrás, no esgoto e na escuridão, que não é o seu lugar.

Quanto aos apoiadores do mito, de fato ajudadores do caos vantajoso e mítico, demorará mais um pouco para que eles, especialmente se entendidos como cristãos, vejam, estupefatos, que seu mito é mito mesmo, ou seja, age diametralmente como negador pleno de todo o capítulo 8 de João. Lá um jovem sábio a conversar com o povo e com especialistas da lei; aqui, um boca-suja a dizer o nada, a repetir deslealdades, mesmo com seus ministros.  a maltratar pela linguagem asquerosa. Lá, o grande debate entre trevas e luz, notadamente seus valores simbólicos. Aqui, o motoqueiro rufião e garoto-propaganda de remédio inócuo a sinalizar mais mortes de cidadãos, a fazer implodir o melhor sistema de atendimento,  a desnortear protocolos, a trabalhar como um perturbador do trabalho alheio e a anunciar gratuitamente que quase todos vão pegar a gripezinha e…todos têm de morrer mesmo.

Lá, o início do ritual que levará o filho de Deus ao Calvário. Aqui, o dia-a-dia é um calvário de linguagem canhestra e desleal, não somente deselegante como fortemente mal-educada, na qual a viável verdade é sempre posta à margem. Lá, o mestre assume seu destino como humano entre disputas temporais de poder inconciliáveis. Aqui, açula-se o jogo do poder na busca de brechas para ampliar as trevas e tirar vantagens dela a partir dos grupos sociais miserabilizados ainda mais.

Na revelaçãoe na mobilização das consciências não haverá lugar para um único membro do clã impostor e sua linguagem vazia de verdade. Será a hora do aprendizado e da reconstrução, especialmente a favor dos que empobreceram ainda mais após a míngua do adjutório público.  Oxalá   superemos, já sob o sol, o mito de Sísifo e as pedras que teremos de, juntos, carregar, formarão a base de nossas vivendas e de nossas políticas.

*Luiz Roberto Alves é professor sênior da Escola de Comunicações e Artes da USP.