A esfinge brasileira e seu enigma: devora-me ou te decifro!

Imagem: ColeraAlegria

Por SAMUEL JORGE MOYSÉS e CARLOS BOTAZZO*

A nova versão de nossa sempiterna esfinge é uma mariposa da morte, que alimenta as fantasias delirantes de personagens que não são capazes de devorar o seu próprio recalque

A inspiração para o título decorre do desejo de homenagear o espírito insubordinado de Millôr Fernandes (1), nosso humorista polivalente.  Mas, é também referência às inversões do texto que segue, em sua construção rapsódica, bem como alusão ao epílogo, como se verá a seu tempo.

A esfinge é parte integrante da mitologia milenar de várias culturas. Egípcios, gregos ou persas tinham uma esfinge para chamar de sua. No mito grego, ela guardava o acesso a Tebas, inquirindo os passantes: “- Que animal anda pela manhã sobre quatro patas, a tarde sobre duas e a noite sobre três? ” Quem não decifrava o enigma, cuja conhecida resposta em Édipo Rei, de Sófocles (2), é Anthropos – engatinhando na infância, ereto na vida adulta e com bengala na velhice – era devorado.

Nossa esfinge brasileira, com seu “enigma político” contemporâneo, é tão abissal que parece tornar o mito tebano não mais que… banal… Todavia, vamos com calma! Como se sabe, não era questão trivial para Édipo. Tampouco para Freud que derivou o conceito psicanalítico do famoso Complexo.

É preciso lembrar que, por trás do enigma da esfinge, havia outro enigma délfico obsceno, prevendo morte e destruição, pois Édipo mataria seu pai para ter uma relação incestuosa com sua mãe. Há, em sua resposta ao enigma, uma crítica implicação de que Édipo tinha os pés “traumatizados” desde a infância, talvez lhe dando pistas para sua resposta à esfinge (3).  Ele incorpora deformidade física, psicológica e emocional. Ele é o homem dos “pés inchados”, supostamente nascido para governar, mas incapaz de governar a si próprio pagando o preço de sua hybris. E desses complexos sexuais devoradores ainda há muito o que dizer.

E, no entanto, existem mitos vorazes em todas as cosmogonias. Como a “historia del lagarto que tenía la constumbre de cenar a sus mujeres” (4). E mesmo em certa insuspeita literatura se os encontra. Gargântua e Pantagruel (5), com seu personagem Eustenes, “que estando em jejum”, justo sob os dentes do cujo e por debaixo da saliva dele “vinham se alojar seres de viscosidade e podridão” (6); as Górgonas – Medusa, Euríale e Esteno – que transformavam em pedra quem as mirasse nos olhos (e de Medusa se sabe que poderia ter se tornado a padroeira da Cavalaria, posto que Perseu, tendo lhe cortado a cabeça, dela brotou o fogoso e alado Pegasus. Sexo outra vez).

No Brasil, mesmo havendo Cavalaria, não tivemos Pegasus, nem Medusa nem Górgonas. Uma pena. Ainda assim, fazemos uso (abuso?) recursivo, pelas vias tortas de um narcisismo de espelho quebrado, daquela estranha/familiar esfinge (7), tanto em termos metafóricos, quanto na estratégia de enquadramento conjuntural de nossos enigmas político-sociais mais desafiadores. Apesar da ausência dessa figura mítica fundacional em nossa cultura, produzimos ainda fabulações míticas mais bem representadas por Ñavecuruçu, o grande criador, Peri e Jaci. E o moço Caaporã, lindão, que punha a perder quem se atrevesse a entrar em seus domínios sem a devida licença. Todos necessitados de interpretação, todos seres esfíngicos que propunham adivinhas.

E mais uma vez, com Macunaíma, a criação dos paulistas bem-nascidos, surge o mito antropofágico que tudo devora, mastiga e digere, para depois regurgitar o substrato da brasilidade renovada. Porém Macunaíma não imaginou que um dia, na virada que a cultura e a ordem política brasileira sofreram, teria que deglutir Heidegger (o de 1933) e Olavo (o habitual), e dessa metabolização indigesta regurgitar o “mi(n)to” …  Oh Martin, oh Martin você que viu a ligação direta (direkte verbindung) entre o passado clássico grego e a pretensão ariana, Athens und Berlin (8), por que não imaginou que poderia haver também no futuro um farsesco renascimento, uma outra ligação também direta, Berlin und Brazilia?

É muita cifra! Você acha que é muito enigma? Peça auxílio ao Turing, com sua “Bletchley Park Bombe“ desencriptadora, para decifrar o código da atual máquina “Enigma“. Mas, olha só se não estamos certos. Por exemplo, ainda não abdicamos em termos de ideação política, a despeito de sua evidente marca anacrônica, do “sebastianismo” reacionário que teima em retornar a cada nova quadra da história. O eterno retorno da ideia mítica, importada de uma nostalgia ibérica, de um “salvador” messiânico decalcado para cada gosto e ocasião, capaz de acordar o gigante adormecido.

Aproximando a questão para o universo cultural moderno, uma outra referência à esfinge – que simboliza uma forma de expressão literária digna de nota – foi dada pelo ficcionista, poeta e crítico norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), mais conhecido por obras sombrias, marcadas por uma estética do horror. Por contraste e como mais uma prova de seu talento, quando lançou mão do humor (o cômico, o satírico), este se revestiu também de ironia social ambivalente (9). Poe tinha compromisso com seu tempo e com os arranjos que se configuravam em sua época, as “geringonças” que toda sociedade produz.

Horror/humor, mais que efeito estético da contradição, definem a elaboração de “A esfinge” (10), um conto de Poe publicado pela primeira vez em 1846. Há “um personagem desprovido do senso humorístico e, portanto, incapaz de compreender que o real é infinito sendo impossível contemplá-lo e apreendê-lo na íntegra”(10), portanto, sem capacidade de compreender que a percepção de “um real” (aquele somente concebido pelo personagem, em sua mediocridade) não elimina a possibilidade do seu oposto (a existência de infindáveis “outros” reais). O preâmbulo do conto é coetâneo com esses tempos que vivemos:

“Durante o terrível reinado da cólera em Nova Iorque aceitei o convite de um parente para passar uma quinzena com ele no retiro de sua cottage ornée, às margens do Hudson […] Nenhum dia sequer se passava sem que tivéssemos conhecimento da morte de algum conhecido”.

A esfinge, ao final do conto, revela-se não o monstro que o personagem imagina, mas apenas uma grande mariposa (Acherontia átropos, a borboleta-caveira ou esfinge caveira), caracterizada pela forma vaga de caveira que se encontra no seu dorso.

Façamos, agora, o exercício de trazer as referências até aqui utilizadas para nosso cotidiano brasileiro, sabidamente divisionista e odioso nos últimos anos, verificando se é possível resgatá-lo pelo humor – ao menos, para tentar manter a sanidade mental. Uma troca, como uso prático da novilíngua orwelliana, em que o mito fundante ou interpretativo aparece modificado: lá onde era cosmificador agora é pseudocosmos ou a fantasmagoria; onde era sagrado, agora é dogmaticamente a pretensão pastoral à autoridade; quando antes era extratemporal, agora tornou-se “fora de época”; se antes conciliava contradições, agora as disfarça; onde se via unicidade, vê-se desagregação; e quando no passado foi puramente argumento e narração, no presente é o meramente mítico veiculado através de clichês; e se tinha um quê de sabedoria universal, hoje é apenas o obscurantismo de um lugar-comum dominado por fake news.

Assim são as marcas de uma mitologia clássica e, todavia, degradada contemporaneamente em mito ideológico. A esfinge que reaparece, conjurando nas sombras mistificadoras do atual arranjo governamental, é desprovida de humor, é um mito deprimido e incapaz de erigir uma herança cultural construtiva e duradoura. Ela é tão-somente uma esfinge funérea, inábil para mobilizar enigmas que contribuam para a decifração/construção de novas manhãs, dias e noites da nossa civilidade.

Mais que quadrúpedes, bípedes e trípedes invocados em um desafio enigmático, o que surge é a imagem fantasmática de uma reles lepidóptera kafkiana com uma caveira no dorso. A nova versão de nossa sempiterna esfinge é uma mariposa da morte, que alimenta as fantasias delirantes de personagens que não são capazes de devorar o seu próprio recalque (como faria qualquer personagem que encarnasse a “brasilidade”, qualquer Macunaíma antropofágico).

Sobreviveremos ao ressentimento generalizado, impulsionador de personagens perversos, fratricidas, tal como é o mito que não conseguiu decifrar a verdadeira luz popular de uma nação solar. Não vamos devorá-lo, pois já é detrito de uma má memória mítica que restará esquecida.

*Samuel Jorge Moysés é professor titular de epidemiologia e saúde publica na PUC-PR e na UFPR.

*Carlos Botazzo é professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Referências

  1. Fernandes M. Devora-me ou te decifro. Porto Alegre: L & PM; 1977. 107 p.
  2. Sófocles. Édipo Rei: Perspectiva; 2011. 192 p.
  3. Baum R. Oedipus’ Body & the Riddle of the Sphinx. Journal of Dramatic Theory and Criticism [Internet]. 2006; 21(1):[45-56 pp.]. Acesse aqui.
  4. Romero JCG, Ramírez MDA. O perigo das águas: aspectos do feminino terrível em um conto de Galeano. Religare [Internet]. 2017; 14(2):[311-42 pp.]. Acesse aqui.
  5. Rabelais F. Gargântua e Pantagruel. Belo Horizonte: Itatiaia; 2009. 944 p.
  6. Foucault M. As palavras e as coisas. Uma arqueologia das ciências humanas (10ª ed.). São Paulo: Martins Fontes; 2016. 564 p.
  7. Aguiar FW. A esfinge e a folha de papel. Revista Fragmentos [Internet]. 1999 14 de junho de 2020; 17:[35-40 pp.]. Acesse aqui.
  8. Feimann JP. La sombra de Heidegger. Buenos Aires: Planeta; 2015. 206 p.
  9. Silva AMZ. Humor e sátira: a outra face de Edgar Allan Poe. Araraquara: Unesp; 2006. (Tese de Doutorado). Acesse aqui.
  10. Poe EA. The Sphinx. In: Poe EA, editor. Collected works, stories and poems. San Diego: Canterbury Classics; 2011. p. 598-600.