Sobre o que não passa

Por HOMERO SANTIAGO*

Prefácio ao livro récem-lançado “Escritos cruspianos ou memórias da casa verde”, organizado por Gustavo Salmazo

Pelo campus do Butantã, o maior da Universidade de São Paulo, passa todo dia uma infinidade de gente. Dezenas de milhares de alunos de graduação e pós-graduação que vão seguir seus cursos; de professores e funcionários que movimentam a enorme estrutura de saber e pesquisa corporificada em salas de aula, laboratórios, escritórios; de pessoas que procuram atendimento nos hospitais e clínicas da universidade, visitam os seus museus e bibliotecas, ou que apenas usam as largas avenidas para cortar caminho e fugir aos engarrafamentos das adjacências. É um mundo, ou melhor, uma verdadeira cidade; daí o campus ser costumeira e oficialmente designado “cidade universitária”.

Ao lado dessa multidão que, segundo suas funções e conforme suas necessidades, passa todos os dias pela cidade universitária de maneira pendular, está um outro grupo de uspianos que, embora estude e pesquise no campus, utilize o hospital universitário, os circulares, os restaurantes e tudo o mais, por ali não passa, ali mora. São os autores e autoras desta obra. Cruspianos e cruspianas, moradores do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, o Crusp, que engloba sete blocos de seis andares e cerca de 60 apartamentos cada um com pelo menos três moradores oficiais. O não passar ou, positivamente falando, a morada lhes marca profunda e peculiarmente a experiência universitária e a própria vida em sentido literal, pois não se vive num lugar sem viver este lugar e ter a vida por ele marcada.

Talvez daí tenha surgido a ideia que está na origem deste livro e responde por sua originalidade. Consoante explicado na apresentação do organizador, tudo começou com um pedido a moradores do Crusp: textos que, sem compromisso de temas, datas ou formatos pré-definidos, pudessem exprimir essa “identidade à parte” que, “querendo ou não”, constitui a experiência desses estudantes que “vivem, estudam, trabalham e moram na universidade”. O resultado, que os leitores logo apreciarão, é um quadro bastante variegado. Ora se fala do Crusp, ora ele é sequer mencionado; desfilam preocupações diversas, por vezes convergentes, com os estudos, o trabalho, a paisagem, as condições físicas dos prédios; descobrimos amizades, mágoas, insatisfações e alegrias, sonhos impossíveis como o de lavanderias e cozinhas que funcionem regularmente.

Tendo vivido por alguns anos no Crusp, a leitura inevitavelmente me trouxe recordações e logo revelou-se enviesada. Em certos pontos, revivi situações conhecidas, noutros não; certas palavras que lidas alhures não levariam longe, aqui ganharam conotações certeiras segundo a semântica do lugar: “hóspede” é aquele que mora num apartamento sem ser morador titular; “bandeja” remete ao restaurante central, o “bandejão” mais ou menos incrustrado entre os blocos de moradia e que é vital para os cruspianos (daí a graça do verso: “me entrego de bandeja e do avesso”); com o termo “Coseas”, a coordenadoria que outrora administrava o conjunto, vem a sensação de ambivalência daquilo que, conforme a ocasião e às vezes simultaneamente, pode significar solução ou problema.

As lembranças também se avolumaram. A penúria dos meses pré-Crusp vivendo nos alojamentos que ficam sob o estádio do Cepeusp, a prolongada ocupação do bloco D que à época ainda não estava integrado à área residencial do conjunto, as inúmeras mudanças de apartamento; os amigos, as descobertas diárias, a vivência plena do terreno universitário, a ansiedade pelo futuro profissional à medida que se aproximava a conclusão do curso. Saudades – por que não? É verdade que a distância dos anos tem o condão de filtrar a experiência, às vezes maximamente dourá-la. Ainda assim, não precisa ser repelida de pronto pelo senso crítico ou vivenciada sob o signo da envergonhada ingenuidade. Aliás, seria possível rechaçar essa reexperimentação da antiga experiência que passou? Acho que não. E o digo, justamente, porque me parece provável que ela não tenha passado por inteiro, tal como cruspianos e cruspianas não passam, moram.

Um bom número de vezes ouvi o mesmo gracejo da boca de pessoas diversas: “você sai do Crusp, o Crusp não sai de você”. Nunca liguei atenção ao dito e por isso não saberia explicar o que a cada vez se pretendia com tais palavras. Lendo os textos deste livro, porém, peguei-me em certos momentos remetido à frase e, incontrolavelmente, meditando sobre o seu significado. Afinal, o que é que não sai da gente quando a gente sai do Crusp? O que é isso que fica e que não passa? De alguma maneira, aquelas palavras espirituosas de repente pareciam portar um pressuposto profundo, e assim começaram a me sugerir uma pista: trata-se de compreender a passagem do morar no Crusp para um ser que se insinua principalmente depois que o estar se esvaiu. Um modo de ser.

A ideia é tentadora e nem precisamos forçar a barra excogitando uma rígida essência cruspiana. É suficiente entender que a experiência no Crusp, a começar por suas condições materiais, vai entranhando-se no corpo e orientando a mente, até que cada um se sinta, em lúcido reconhecimento, compartilhando um mesmo modo de vida. Como Hegel disse que o pertencimento a um Estado particular era algo que vinha por uma espécie de “leite materno” espiritual que tomamos sem perceber, não iniciaria esse pertencimento ao Crusp desde os primeiros goles do leite que, durante os anos 90, ainda era servido no bandejão?

Não sei se existe um particular modo de vida cruspiano. Limito-me a afirmar que este livro é um bom ponto de partida para uma investigação do assunto, já pelo plano que presidiu a sua preparação. De maneira significativa, não se propõe aqui uma história do conjunto residencial, o qual curiosamente até aparece muito pouco, senão como paisagem ou horizonte de vida; nas páginas a seguir, não se trovejam epicamente as lutas que ao longo do tempo conformaram o Crusp como hoje o conhecemos; os textos diferem, por vezes diametralmente, em estilo, forma, qualidade, conteúdo. O que unifica o material é, em primeiro lugar, aquilo que o organizador chama de “intenção do lugar”, e a mim parece exprimir o que também se pode denominar modo de vida: a ação do lugar, mesmo quando não abertamente tematizada, em cada um; a ação dos moradores que, ao intencionar o lugar (no sentido fenomenológico, ele se torna o conteúdo intencional de certos estados mentais), transmite-lhe as suas próprias tensões. Uma passagem deste livro, em especial, emblema com admirável precisão essa ação recíproca que constitui o fundamento da vida cruspiana: “Uns dizem que é o lugar, outros que são as pessoas. Tem ainda quem diga que a gente faz o local… e vice-versa. Eu não sei… só sei que aqui é assim.”

 

Quadros da vida cruspiana

Por esse ângulo de leitura, descortina-se um complexo e vívido conjunto de quadros da vida cruspiana. Uns são belos, outros surpreendentes; há os que comovem, os que indignam. Como já sugerido, um aspecto notável, porque na contramão do que se esperaria em livro do gênero, é que vem à tona um Crusp despido de mitologia, bem mais ao rés-do-chão do que muitos imaginam ou gostariam que fosse; nem mesmo as suas mazelas deixam de ecoar outras igualmente encontradas país afora e, ainda que confinando com a fina flor da inteligência representada por nossa melhor universidade, o arranjo está em perfeita em consonância com a atávica desigualdade da sociedade brasileira. O Crusp é a “periferia da USP”, sugere uma arguta analogia recordada no livro; e como nos ensinam os Racionais MC’s, “periferia é periferia em qualquer lugar”. (Entre parênteses, permito-me recordar que o fundamental Sobrevivendo no inferno, de 1993; eu o conheci e ouvi à exaustão no Crusp, e tenho certeza de só por lá viver tive essa chance numa época em que a internet não era acessível aos seres humanos comuns e as novidades fora do grande-circuito dependiam do boca a boca; tendo em conta que hoje essa obra ganhou um reconhecimento inédito, incluída até no vestibular da Unicamp, é preciso reconhecer o tino crítico dos ouvidos cruspianos.)

Ora, qualquer periferia, não importa qual, é muito fantasiada, sobretudo por quem a desconhece. Com o Crusp não seria diferente, e também ele se vê enleado num pequeno imaginário que amiúde só serve para maltratá-lo. Uspianos que nunca pisaram os blocos do conjunto, juram que lá as festas são intermináveis e tudo é sexo, drogas e rock’n’roll, quando não a deslavada vagabundagem – imagens que até poderiam dar na veneta de um antigo uspiano, alçado à testa do ministério da Educação, para caracterizar a quintessência do que ele denominou a “baderna” da vida universitária. O preconceito, essa facilidade que dribla o desconhecimento, revela-se e devém particularmente irritante na incapacidade da parte de muitos, até professores (como revelado num dos textos), em compreender o mais básico: os cruspianos moram no Crusp.

Eles não vêm e vão, não fazem dos apartamentos garçonnières do intelecto, pois ali está a sua casa e a permanência nela, inclusive nas férias, sendo-lhe materialmente fundamental, constitui a base de seu modo de vida. Aliás, tenho para mim que esse aspecto é tão importante que a sua incompreensão era a causa principal do sofrimento psíquico de alguns colegas que conheci: tentavam levar uma vida dupla, retornando a cada final de semana ou feriado prolongado para a antiga morada, resistindo ao Crusp – interrogados “onde você mora?”, respondiam: “moro em tal lugar, por enquanto tô no Crusp”. Era como se vivessem em baldeação; não percebiam a necessidade de diluir no ser o estar, e a manutenção da briga entre os verbos aguçava o desconforto.

As lendas em torno do Crusp não poupam nem mesmo os cruspianos que forjam certas imagens de si mesmos pouco condizentes com a realidade. Se uns concebem os cruspianos essencialmente folgados, outros os representam à guisa de sujeitos de um experimento de vida coletiva e libertária que configuraria o pródromo de sabe-se lá qual revolução. Às vezes exageram os problemas do lugar, outras vezes o tornam imunes a eles. Por exemplo, quantas vezes já não se ouviu que, “no Crusp, a polícia não entra”? Ilusão cabalmente desmentida por uma belíssima foto que ilustra este volume: um grupo de policiais militares paramentados penetra o conjunto; os gestos arremedam os de uma incursão em território inimigo: esgueiram-se em formação, um se protege com o escudo, outro arqueia a perna e aponta a arma para o alto quiçá procurando franco-atiradores; não obstante, sobre as cabeças só lhes cai a luz de um banal poste instantaneamente metamorfoseado em spotlight cenográfico.

O fato é que o Crusp não está protegido da violência policial, assim como não o está a população em geral, com as exceções de praxe. A “comunidade cruspiana” (uso expressão aqui constante) tem muito da existência ordinária de todo mundo. Lá encontramos tipos, hábitos, modos de vida que não diferem tanto daqueles verificados noutros condomínios residenciais: os que trabalham, os que estudam, os que fazem as duas coisas e os que não fazem nenhuma; vizinhos amigáveis, indivíduos que não se dignam a um protocolar bom-dia no elevador; festas de arromba e confraternizações discretas; grupos de leitura bíblica, gente assistindo à TV; jovens, velhos, crianças, pais, mães, filhos, casados, solteiros. Essa espessura comezinha da vida cruspiana, desde que liberada da pequena mitologia, prima em versos que não perderiam o sentido tendo por horizonte outro local: “mas aos poucos me ajeitei, arrumei onde ficar, / também fiz alguns amigos, gente boa pra prosear.”

É preciso deixar muito claro que isso não é demérito, pelo contrário. O Crusp é um alento de vida no interior de um espaço que está longe de ser acolhedor: “… a cidade Universitária, que lugar é esse? Tudo inóspito, desconexo, distante, se você tirar as árvores sobra um estacionamento gigante (…) Como Brasília, o grande sonho que nunca se realiza…”. Francamente, nunca me ocorreu aplicar à geografia uspiana essa metáfora bem achada (um enorme estacionamento!), mas com alguma ressalva tendo a anuir à avaliação e igualmente à lembrança da capital do país. Costumam dizer que a universidade se fecha à sociedade. Erroneamente, creio, pois em muitos aspectos ela tem a cara do país. E isso não é nada auspicioso.

Fiquemos com esse exemplo do campus Butantã e pensemos em sua implantação geográfica e estrutural; temos uma pequena amostra do que somos como nação, e nesse sentido a conexão com a capital federal é cirúrgica. Não que a cidade universitária seja necessariamente feia, como tampouco o é Brasília. Até estimo que, em cotejo com outros campi formados à sombra da ditadura, o da capital paulistana não faz feio. A cidade universitária tem prédios feios, sem dúvida, mas de uma feiura que geralmente resulta menos da falta de gosto estético que das improvisações determinadas pelas circunstâncias; em poucos casos isso acontece por projeto deliberado, como no das unidades que em algum momento quiseram emular os shopping centers. Mesmo o prédio da atual reitoria (que à minha época de cruspiano chamávamos de “antiga reitoria”) que costuma ser assim classificado, nem diria que é horrível; é banal, prédio de escritórios ordinário que foi enfeando com o tempo pelos desmandos reitorais e, finalmente, pela mania de cercamento, mas isso é praga que afeta os universitários tanto quanto os brasileiros – sempre me espanta chegar em cidadezinhas de 30.000 habitantes com as casas todas eletrificadas, ou nas metrópoles conhecer pessoas que habitam bairros em que o índice de criminalidade é similar ao de Bruxelas e não obstante desejam com ardência câmeras para todo lado e gaiolas às portarias de seus prédios.

O problema maior talvez esteja realmente na monumentalidade brasiliense da cidade universitária que serve à evitação da vida. Em definitivo, o lugar não tem escala humana. Deve ter sido planeado para afastar entre si todas as unidades de ensino, dificultar a caminhada, coibir a conversação, cercear a convivência; conhecendo a história de sua implantação, isso não soará absurdo. Então, terá sido o campus, efetivamente, concebido desde o início à guisa de imenso jardim asfáltico? Pelo sim, pelo não, o tempo conseguiu isso. Anda-se de carro e no menor espaço vago logo instalam cancelas para erigir um novo estacionamento; deixaram o metrô à distância, a infraestrutura para os ônibus é espúria; há prédios que parecem shoppings, há cercas para todo lado. A universidade é a cara do Brasil. É uma pena.

Em razão disso – e assim retomo o fim – é que o Crusp sempre me pareceu atravessado pelo alento vital. É um dos raros lugares da cidade universitária em que é fácil encontrar pessoas, percorrendo o longo corredor central, frequentando o restaurante. A trivialidade da rotina humana por sorte preservou o Crusp da brutidão simbólica do campus, já que lá as pessoas vivem, moram, e não poderia ser diferente. O conjunto guarda inclusive aspectos pitorescos, como todo lugar feito por gente e não para carros e monumentos.

Quem tiver o cuidado de bisbilhotar o local no Google Earth (coisa que obviamente só vim a descobrir após ter saído de lá) colherá um indício significativo trazido pela ocupação urbana. Se, por um lado, estão corretos os versos que lamentam: “Olho pela janela a marginal / Enxergo pouco ou quase nada”; por outro, o Crusp defronta a via expressa bem no ponto em que o asfalto se aminhoca entre dois canais de água, o rio Pinheiros e a raia olímpica uspiana, que dessarte encurralam os automóveis – não será uma imagem forte o suficiente para contrastar um pouco a do grande estacionamento? Uma vez, do alto de um edifício na Vila Madalena, tive a oportunidade de ver o Crusp. Ele é belíssimo ali onde está. Mais que isso, guarda poesia. Olhando pela janela, o cruspiano dos blocos A e B, com o ângulo de visão livre de obstáculos e sobretudo se estiver nos andares mais altos, terá à direita a colina da Paulista e à esquerda, como observa um outro texto aqui presente, “o Pico do Jaraguá: ponto mais alto da metrópole”.

Durante certo tempo esse detalhe me maravilhou, intrigou, graças à memória duns versos de Mário de Andrade no cativante poema “Quando eu morrer”. Mimetizando o ritual da partilha do boi que ele descobrira em suas andanças pelo país, o poeta dá instruções sobre o destino de cada parte de seu corpo, a fim de que ela desempenhe uma precisa função post-mortem. Os pés enterrem na rua Aurora, os ouvidos nos Correios e Telégrafos, o cérebro esqueçam na Lopes Chaves e …

Os olhos lá no Jaraguá

Assistirão ao que há de vir,

O joelho na Universidade,

Saudade…

Do Crusp, mirando o ponto mais alto da macota cidade nascida à beira do igarapé Tietê, muitas vezes me perguntei o significado desse “joelho” cujo depositário seria a universidade, a qual rima justamente com “saudade”. Uma joelhada daquele jeito que denominamos “paulistinha”, o que faria inteiro jus ao “coração paulistano” de Mário? Quiçá a inteligência poética tivesse já pressentido alguma coisa que não era boa, e por isso combinou numa só quadra a vigilância sobranceira e o enigmático e meio ameaçador joelho.

Infelizmente, no caso do Crusp, os zelosos olhos do poeta instalados naquele pico, não viram só coisas aprazíveis, ao menos não pras bandas do Butantã. Tal como sabem de longa data os moradores do conjunto e, nos dias que correm, está escancarado a todo e qualquer uspiano que não tenha feito isolamento social em Marte desde março do ano passado. O conjunto foi constante alvo do exercício da crueldade política e universitária. Projetado para os jogos pan-americanos de 1963, à véspera do golpe militar, foi logo depois fechado; invadido pelas forças da ordem pouco depois do AI-5; ocupado pelos estudantes; sistematicamente relegado à própria sorte pela autoridade universitária, que salvo engano só o reintegrou à sua alçada na década de 1980. Ainda hoje, cacholas burocráticas afinadas com o modernamente perverso ideário da ótima relação entre meios e fins parecem convencidas que o Crusp não é atividade essencial à universidade, assim como não seriam as creches, o hospital e tudo o mais que não possa ser computado nas famigeradas classificações universitárias. Pudera!

O que fizeram com o Crusp é o que nós brasileiros normalmente fazemos com aqueles que reputamos pouco meritórios, inferiores, intrometidos – para dizer numa palavra, a periferia. A quem não conhece o campus Butantã é bom esclarecer que a condição periférica do Crusp não é geográfica; nesse sentido, periféricas seriam antes a Escola Politécnica e a Veterinária. O Crusp é periférico porque é uma espécie de “primo pobre” da rica instituição; e não obstante esteja localizado no centro pulsante da cidade universitária, o está, em termos simbólicos e materiais, perifericamente. Talvez aí esteja a explicação de seu atual estado, cúmulo das pequenas e grandes maldades acumuladas ao longo de décadas: a violência, o descaso, o desdém preconceituoso; escandaloso descalabro que indigna, ou deveria, a inteira comunidade universitária.

Os textos aqui reunidos praticamente não falam da pandemia, mas pelo menos um traz indicação precisa: “as atrocidades / de pandemia”. Entendamos bem, a doença é atroz, porém não comete atrocidade, termo que convém reservar à designação do resultado de atos atrozes executados por seres humanos. Não joguemos às costas do vírus o que é de nossa responsabilidade. E segundo todos os relatos e documentos a que tive acesso durante os últimos doze meses, a condição da vida cruspiana depauperou-se, definhou a um ponto insuportável: quando dezenas de milhares de pendulares deixaram de passar pela universidade parada e fechada, o pior dos mundos ficou reservado aos que nela moram. O não passar, o que constitui mais intimamente o cruspiano, tornou-se o seu visto de permanência no inferno.

O que fazem atualmente – escrevo no inverno de 2021, um tempo invernal que parece ter começado há uns três ou quatro anos – é um crime contra o Crusp, e por extensão contra a universidade pública naquilo que ela tem de melhor. De novo, conforme dito acima com relação à polícia, como poderia ser diferente? Trata-se do prolongamento de uma contumácia criminosa que todos os brasileiros praticamos contra certas parcelas da população, combinando a nossa mitológica cordialidade às mãos que esganam e trucidam enquanto o coração chora e a razão justifica o ato.

Não dá para acusar a reitoria de ter planejado ou incentivado a destruição do Crusp. Tenho a impressão de que a opção, ao jeito civilizado consentâneo a universitários, seja antes simplesmente deixá-lo morrer à míngua. É uma eficiente estratégia militar: em vez de desgastar tropas, permitir que uma cidade sitiada vivencie lentamente a fome e a sede; abalroá-la no espírito, extenuar seus recursos e forças, torná-la um ser moribundo. Foi assim que fizeram e fazem com o serviço de transporte, fazem com os bandejões e as creches, o hospital universitário.

Incrivelmente, chega um momento em que tudo que mais nos orgulha na Universidade de São Paulo (em primeiro lugar, ao invés do que veem os rankings bestas – regra universal: neste mundo, a tudo que é besta se reserva uma palavra inglesa –, o senso crítico na análise da realidade brasileira, a tradição de resistência às maquinações autoritárias), é isso mesmo que nos orgulha na tradição uspiana que nos inspira o desprezo pelas atitudes que a administração universitária toma, ou antes não toma, com relação à sua periferia. Seja por incompetência pura e simples, seja por uma programada inoperância (um jeito esperto de aproveitar a porteira aberta pela pandemia para passar uma boiada de malvadezas), a verdade é que, neste momento, o Crusp agoniza; para ceder ao léxico do tempo, digamos que está na UTI respirando por aparelhos. Como era ele que dava o ar vital e humano da universidade, quem poderá salvá-lo do abandono? Ser-lhe-á fatal a covid-19 combinada ou aproveitada pela maldade humana? Não creio. Só que esta é uma crença débil motivada mais pela esperança que pelos fatos.

 

Haverá um modo de vida cruspiano?

Cruspiano, inequivocamente, é um morador do Crusp. Ainda assim, para terminar, vale repor a interrogação: será somente isso? Haverá um modo de vida cruspiano? Mais ainda, não haverá um ser cruspiano que se revela, de modo ambíguo, quando a cópula insidiosamente converte-se no passado verbal: cruspiano é aquele que é morador e aquele que foi morador do Crusp? Por que o Crusp não sai da gente quando a gente sai do Crusp? O que é isso que não mais nos larga? No caso, o morar, o ter morado, a morada aglutinam-se em perfeita síntese do não passar, distinguindo os cruspianos e as cruspianas do restante da universidade. É como se o lugar em que um dia moramos começasse, sem repente mas aos cados, a morar em nós. Se cruspianos e cruspianas não simplesmente passam, como fazem os outros universitários todo santo dia pelo campus Butantã, é como se o Crusp também não passasse, resistisse a virar um passado inerme; cisma em reaparecer aqui e ali; gestos, referências, termos, um bichinho roedor.

Não dói como a Itabira drummondiana que ficou enquadrada na parede após ser destruída pela atividade mineradora, mas tampouco pode ser relegado à indiferença dos fatos arquivados nos escaninhos recônditos da memória, na ala das coisas definitivamente deslembradas. Ele reluta, debate-se, insiste em atualizar-se; ele vive, apesar de tudo. O Crusp talvez seja só isso mesmo, uma vida. Quem sabe uma vida bailarina, frágil, delicada, saltitante. Por um lado, dá um balé em todo mundo que por ali arrisca pernoitar algumas vezes, por outro é insinuante e desafia a bruteza da cidade universitária e tudo de ruim que dirigem contra ele. “O encanto, a beleza / A bailarina que existe / A bailarina que resiste?”. Não será isso, se não o Crusp, pelo menos o seu modo de ser incrustando-se em vidas cruspianas, a tal ponto que não saibamos muito bem onde uma coisa termina e a outra começa?

Eis o tema deste livro: o Crusp, a vida cruspiana, em vias de tornar-se experiência indelével de cada um dos autores e autoras aqui presentes, já que lhes reserva uma peculiaríssima vivência da universidade, sob as formas mais variadas que a palavra escrita e a imagem possibilitam. Se ouso terminar me associando, em espírito e letra, a eles, é somente porque tiveram o dom de redespertar um sentimento antes acabrunhado em mim – no final das contas, não é uma das justificativas da literatura? –, a tal ponto que, finda a leitura, me desenvergonho de pastichar (melhor que macaquear shoppings, convenhamos!): quando eu morrer, queria que uma parte de mim ficasse no coração da universidade, ou seja, no Crusp, de preferência no bloco D. Saudade.[1]

*Homero Santiago é professor no Departamento de Filosofia da USP.

 

Referência


Gustavo Salmazo (org.). Escritos cruspianos ou memórias da casa verde. São Paulo, Ed. dos Autores, 2022 (livro eletrônico).

Nota


[1] Entre 1993 e 1998 morei no Crusp, alternando quase todos os blocos do conjunto e de vez em quando ajeitando o colchão em vivências e corredores.

Queria dedicar este texto aos cruspianos e cruspianas que conheci, especialmente aos com quem mais tempo dividi o espaço: Ediano Dionísio, Luciano Pereira e Paulo Fattori – em ordem alfabética para não causar ciúme. Sem eles, que pelos anos de convivência e amizade se tornaram uma parte minha que não passa, o Crusp talvez fosse outra coisa, ao menos para mim.