A Europa espezinhada

image_pdf

Por EUGÊNIO BUCCI*

A humilhação espetacular é a nova arma da política externa trumpista: uma guerra simbólica onde o espetáculo midiático e a chantagem emocional substituíram a geopolítica tradicional

1.

A União Europeia é a nova vítima do método da humilhação espetacular empregado pelo governo de Donald Trump como arma de guerra simbólica. Pobre Europa. De repente, ela se viu submetida a um padecimento moral inédito, impensável. O bullying e o escárnio voltam-se contra ela. A Casa Branca a insulta com tarifas e desaforos. O Reino Unido, aliado histórico do Tio Sam, não escapou. Keir Starmer, polidamente, chama de “erro” a postura agressiva e predatória dos Estados Unidos. Não fez nem cócegas no Pentágono.

Qual o motivo da vez? A Groenlândia. Donald Trump quer a Groenlândia para ele, só para ele. Ato contínuo, avolumam-se agitações em terra, mar e ar – árticos. Tropas aterrizam na imensa ilha até então calma e fria, coberta de gelo manso. Inquietações eclodem no Atlântico Norte. Atribulações fazem trepidar o continente. Emmanuel Macron, que não tem colírio, usa óculos escuros. A desorientação destempera as relações, enquanto as velhas referências – a exemplo do velho continente – vão se desmoralizando em andamentos patéticos.

Estamos imersos num “mundo às avessas”, como tão precisamente sintetizou Celso Lafer. O Direito Internacional, anota o professor, passou a merecer nada menos que a “desconsideração”. De quem? Ora, isso nem é preciso dizer: quem simplesmente desconsidera o Direito Internacional é ele, o presidente dos Estados Unidos.

Os efeitos vêm em avalanche. A paz – ou aquela ordem de assimetrias e sujeições a que costumávamos chamar de “paz” – corre perigo. A democracia, babau. Donald Trump se comporta como criança fazendo birra na frente de uma vitrine de brinquedos. Rola no chão, grita e estapeia a calçada. “Eu quero a Venezuela! Eu quero a Groenlândia! Eu quero o Canadá!”.

A mãe a quem ele pede de presente a terra dos outros é uma entidade robótica, feita de ferros retorcidos e luzes estroboscópicas, um transformer de cinema: a mãe de Donald Trump é o monstro que atende pelo nome de arsenal nuclear.

2.

Mas não coloquemos a mãe no meio, pois o meio está em outro lugar. Não adianta pedir socorro às cartilhas da psicanálise para tentar decifrar o que vem se passando. Do mesmo modo, são de pouco auxílio as convenções da geopolítica ou os manuais de economia. Tudo isso ajuda, por certo, mas não resolve.

Também ajudam as categorias mais habituais da ciência política, mas apenas lateralmente, subsidiariamente. É evidente que Donald Trump joga para a sua plateia doméstica quando faz o papel de Bruce Willis, mas equação inteira só vai se abrir em outro plano, numa vastidão que se estende além da política, da economia e da geopolítica.

“Não se trata de uma transição, mas de uma ruptura”, declarou o primeiro-ministro canadense Mark Carney, cujo país tem sido continuamente jurado de anexação pelo vizinho do sul. Mark Carney acerta nas palavras, mas há mais a ser dito. Quem melhor descortina o enigma é o filósofo Adauto Novaes. “Não se trata de uma crise”, ele vive nos lembrando. “Trata-se de uma mutação”.

Nós só entenderemos as reais implicações da “ruptura” ou da “mutação” se entendermos que o Espetáculo, nos termos exatos em que o descreveu o francês Guy Debord, açambarcou todas as pulsões do, vá lá, imperialismo ianque. A política externa dos Estados Unidos é hoje escrava do Espetáculo: apenas manterá seu espaço se for capaz de gerar solavancos, sobressaltos e choques passionais na opinião pública do planeta.

Ela só consegue se tornar visível e reconhecível à medida que saiba ser temível, e só pode ser temível à medida que assusta, por meio de arroubos cada vez mais carregados, os vivos e os mortos. Sim, os mortos morrem de medo da hecatombe da civilização. Depois da Guerra fria, a guerra dos calafrios, uma guerra que dizima os nossos mortos.

Se não aterrorizar o tempo todo, os Estados Unidos do trumpismo cairão no declínio inelutável. O líder laranja, agônico, faz birra diante da vitrine e produz tensões em doses mais e mais intensas. É sua única maneira de anunciar o apocalipse.

O método de humilhação espetacular (que expus aqui, nesta página, há duas semanas) se materializa como chantagem terrorista ininterrupta. O roteiro não é de todo imprevisível, mas descreve movimentos aleatórios, como roleta russa. Por sinal, Donald Trump tem uma queda histérica por medir-se com Vladimir Putin. A qualquer pretexto, invoca e evoca artefatos atômicos na sua retórica belicista. Quando a retórica vai se traduzir em gesto, mesmo que controlado, medido, pontual, ainda não se sabe, mas é nessa direção que estamos nos desencaminhando.

O método da humilhação espetacular, vale o registro, explicita o caráter fascista do trumpismo. Em 1935, Karl Polanyi advertiu que o fascismo era uma espécie de religião. O alerta permanece atual: o fanatismo de extrema direita se vale do recurso da violência mais extrema para atropelar a democracia para salvaguardar o capital. Se a ogiva nuclear é a mãe de Donald Trump, seu pai é o capital. Nuvens pesadas e radioativas apontam no horizonte.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (Autêntica). [https://amzn.to/3SytDKl]

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
3
O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
18 Jan 2026 Por BERNARDO RICUPERO: A operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da força bruta, característica de uma potência em declínio
4
Augusto Boal – oito peças inéditas
15 Jan 2026 Por STEPHANIE DA SILVA BORGES: No exílio francês, Augusto Boal levou o Teatro do Oprimido a novos patamares, escrevendo peças que traduzem opressões do "primeiro mundo" e transformam o impasse social em potência cênica
5
Guerra à vista?
15 Jan 2026 Por LISZT VIEIRA: A escalada militar trumpista, marcada pela invasão da Venezuela e ameaças unilaterais, transforma a soberania nacional em concessão da potência hegemônica e espalha a gasolina para um incêndio global
6
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
7
Marx e o Estado
16 Jan 2026 Por ARI MARCELO SOLON & ALEXANDRE DE LIMA CASTRO TRANJAN: Comentário sobre o livro, recém-lançado, de Rafael Padial
8
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
9
Mapa da desigualdade informacional
19 Jan 2026 Por MARCIO POCHMANN: A desigualdade informacional nasce quando os dados granulares do século XXI residem em oligopólios privados, enquanto o Estado luta para manter a legitimidade e comparabilidade das estatísticas oficiais
10
Venezuela – epitáfio para uma revolução?
19 Jan 2026 Por LUIS BONILLA-MOLINA & OSVALDO COGGIOLA: A intervenção estadunidense consuma a transformação da Venezuela em protetorado colonial, sepultando o projeto bolivariano sob uma transição que institucionaliza a pilhagem e a submissão
11
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
12
A mídia de massa no capitalismo
16 Jan 2026 Por LEOJORGE PANEGALLI: A indústria cultural gerencia o cansaço do Eu e a fantasia do herói, mas seu sucesso também expõe uma fome subjetiva por narrativas de resistência coletiva e justiça, traindo um impulso revolucionário adormecido
13
A geopolítica em 2026
18 Jan 2026 Por DMITRY TRENIN: O cenário de 2026 aponta para uma confrontação prolongada e fragmentada
14
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
15
Responsabilidade intelectual e responsabilidade política
14 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A responsabilidade intelectual exige lucidez crítica sobre todos os lados do poder, recusando a manipulação seletiva da verdade em nome de supostas causas superiores
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES