O nosso Gênesis apocalíptico

Imagem: Eugene Liashchevskyi
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Por EUGÊNIO BUCCI*

Podemos rumar para Portugal na semana que vem, mas teremos de zarpar deste planeta um dia, pois ele terá zarpado de nós

Gente conhecida comenta em toda parte. Nos restaurantes, por exemplo. Ninguém esconde. “Vou m’embora pra Lisboa”. A Pasárgada de Manuel Bandeira é logo ali, na terrinha mesmo. “E como farei ginástica / Andarei de bicicleta”. Chega de política. Chega de extremismos. Viva o exílio monoglota. Portugal é um condomínio fechado, embora aberto a brasileiros por todos os lados. Portugal tem governo de esquerda, mas isso a gente releva. Portugal é o novo ponto de fuga na nossa nova perspectiva artificialis: todas as linhas da imaginação sem perspectiva convergem para lá e lá se refugiam. Todos os caminhos levam a Cascais. Os olhos endinheirados paulistanos fitam o além-mar – e os olhos para onde olham são olhos de Portugal. Fernando Pessoa que nos perdoe.

Emigrar. Ir embora. Partir. Agora, porém, não mais rumo ao desconhecido, não mais para o futuro. Emigrar virou sinônimo de retornar ao sonho perdido. Emigrar é restabelecer a sensação gozosa de superioridade, é recuperar a fleuma. Emigrar é ter de volta o sossego, a paz, aquela paz, que tinha a calefação abastecida pelo desespero alheio. Emigrar é regressar, mas de um modo paradoxal, impossível, pois emigrar é voltar para o lugar de onde nunca se veio.

Agora, o destino não é mais o Novo Mundo, mas o Velho – o que ainda traz vantagens em fantasias de conforto, luxo, exclusividade. O Velho Mundo, convenhamos, é o Primeiro Mundo. Você sabe, é União Europeia.

Mas não vamos nos perder em ondas migratórias na contramão. Pensemos um pouco mais nas viagens sem volta, aquelas que são só de ida. O ato de cortar amarras, de ir em busca da vida nova, talvez seja a sina do humano. Vivemos em busca da nova parada, vivemos no movimento adiante e ininterrupto. É curioso: mesmo quando embarcamos para tentar reencontrar o idílio perdido e quando a nossa travessia quer apenas retornar a um passado irreal, um passado fictício, temos a convicção de que andamos para a frente. Sem parar, jamais. Somos seres que perambulam, peripatéticos, andantes, errantes. Somos estrangeiros em casa e nunca deixamos de procurar a casa nos lugares onde nunca estivemos.

As pessoas que seguem para Coimbra, as que vão para a Nova Zelândia, as que se mudam em definitivo das metrópoles para as florestas, as que se isolam num Ashram, as que caminham nos acostamentos das estradas, sozinhas, sem desistir, são todas pessoas iguais. A civilização pode ser descrita como o grande esforço da espécie para descobrir onde é que vai morar depois disto aqui. Somos um planeta à procura de substitutos. Há uma nota de poesia nessa condição. A humanidade está o tempo todo fazendo as malas.

Agora mesmo, no dia 12 de janeiro, circulou a notícia de que a Nasa anunciou a descoberta de um planeta parecido com o nosso (tem 95% do tamanho da Terra), que é rochoso, pode ter água em estado líquido e abrigar vida. Na foto, parece simpático. O nome é TOI 700 e. Fica muito longe, a 100 anos-luz de distância. Com as tecnologias que temos disponíveis para motores de naves espaciais, uma excursão para lá é inviável. Mesmo assim, está valendo. Quem sabe, um dia, o homo sapiens não inicie o percurso rumo ao TOI 700 e.

A essa altura, é engraçado pensar que tudo começou no Jardim do Eden. Sim, haveria outras cosmogonias e outras mitologias para nos dar a bússola do nosso turismo trágico, mas vamos ficar com o Jardim do Eden, do Gênesis, que já está de bom tamanho. Lá pelas tantas, Iahweh Deus se enfureceu com Adão e Eva e, bem – você conhece a história, ou não seria deste mundo – decidiu expulsá-los em definitivo do aprazível pomar que habitavam em estado de inocência. É realmente engraçado. Se a gente analisar bem as circunstâncias da reintegração de posse que se deu no Jardim do Eden, com a defenestração dos inquilinos, a gente vai perceber que esse é um enredo que ainda não terminou.

Iahweh Deus pôs Adão e Eva para correr dali, e ainda ralhou com o primeiro: “Pois tu és pó e ao pó tornarás” (Gênesis 3-19). Mas vale perguntar: a humanidade foi embora do Eden pra valer? Em termos. Relativamente. Mais ou menos. Viramos urbanos, mas ainda temos casa no campo, ou uma Quinta na terrinha. Ganhamos bolsas de estudos para morar em Paris, mas um pé sempre fica na praia, na montanha ou numa horta de estimação. Somos hackers, somos gamers, somos meio androides, meio ciborgues, mas ainda temos um bicho de estimação. Abriu-se uma fissura entre o humano e a natureza, isso é fato, mas alguns laços entre nós e a natureza resistem com valentia e teimosia. Algum pedaço do corpo de Adão ainda mora no Paraíso – e o Paraíso ainda mora em algum pedaço do corpo de Eva.

O que está escrito no Gênesis seria então um destino que ainda não se cumpriu, mas só cumprirá de uma vez no Apocalipse – mas aí já é outro livro. Explicando melhor: o Gênesis, visto assim, não seria um livro sobre o que foi, mas sobre o que será. Profecia cruel? Escatologia bíblica?

Podemos rumar para Portugal na semana que vem, mas teremos de zarpar deste planeta um dia, pois ele terá zarpado de nós, em consequência dos nossos atos.

*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de A superindústria do imaginário (Autêntica).

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

 

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