A execução social de Julian Assange

Por LUÍS GONZALO SEGURA*

O preço pago por Julian Assange foi tão alto que desnudou o Ocidente e sua retórica sobre direitos humanos, liberdade de expressão e democracia

Há alguns dias, a justiça britânica aprovou a extradição de Julian Assange para os Estados Unidos, país que “defende” os Direitos Humanos. Democracia com letras maiúsculas e Guantánamo com letras minúsculas. Uma extradição que passou despercebida pelos meios de comunicação ocidentais em uma nova exibição do funcionamento da desinformação ocidental. Não é que não seja noticiado, é que é marginalizado a ponto de ser ignorado, como se fosse as letras pequenas de um contrato bancário. Como na antiga Atenas. Não é que foram assassinados, é que foram exilados. Ostracismo é que se chama.

Na Espanha, o jornal El país dedicou as habituais notícias sobre o assunto, como se tratasse apenas de mais um evento corriqueiro. Um atropelamento qualquer, um resgate bem-sucedido. Mais um acontecimento no emaranhado habitual de hoje, tão escondido que era impossível encontrar na primeira página. E, no entanto, era uma notícia essencial e crítica. Nada mais e nada menos que a execução social de um dissidente, um ativista, uma garganta profunda que fez muito mais pelo jornalismo, ativismo, democracia e sociedade do que vários Nobel. Sem ir muito longe, como o que foi agraciado ao ex-presidente dos Estados Unidos, enquanto pessoas eram torturadas em Guantánamo, se bombardeava meio mundo e provocava tragédia humanitária após tragédia humanitária. Um ostracismo ainda mais dilacerante em um jornal como o El país que foi, não esqueçamos, um dos que lucraram, e muito, com os vazamentos de Assange.

 

Uma extradição acima de tudo

Em janeiro do ano passado, de 2021, a juíza Vanessa Baraitser, do Tribunal Criminal de Old Bailey na Inglaterra, negou a extradição de Assange para os Estados Unidos, considerando que ficou “provado” que lá ele estaria tão confinado e que isso aumentaria o risco de suicídio. Nem os Estados Unidos de Donald Trump nem os Estados Unidos de Joe Biden parecem que iriam tratá-lo com consideração. Fosse Assange Pinochet ou Videla ou se tivesse se dedicado a eletrocutar, mutilar, torturar ou executar dissidentes de esquerda, preparariam para ele um “passeio” político-festivo.

De fato, comparar o calvário de Assange com a contorção das molas jurídicas britânicas em favor de Pinochet faz qualquer democrata sentir asco. E sobre isso o El país deveria dizer algo, e se não o faz é porque hoje pertence aos fundos de investimento norte-americanos e, ontem, aos franquistas como o antigo dono Juan Luis Cebrián.

Não importava então, e não importa agora, que os Estados Unidos se dediquem sistematicamente à violação dos direitos humanos de forma massiva, porque, finalmente, a extradição parece ser um fato. E o ostracismo também.

 

A grande contribuição de Assange

No entanto, a contribuição de Julian Assange para a democracia, para a humanidade, nunca será recompensada, mesmo que uma praça e uma grande avenida sejam dedicadas a ele em todas as cidades do mundo. Ficaria aquém da colossal contribuição feita. Julian Assange merece livros de história e livros escolares que expliquem que, em 2010, o WikiLeaks publicou material confidencial dos EUA sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão, incluindo assassinatos de civis e até de jornalistas – algo mais do que o habitual; na Espanha o assassinato de José Couso(1) ainda está sem solução. Esses livros também deveriam lembrar os mais de 700.000 documentos diplomáticos norte-americanos que demonstraram o que muitos supunham e denunciavam, enquanto bem mais permaneciam e permanecem calados, ocultando ou minimizando os crimes revelados pelos documentos. Sem Assange, hoje seríamos mais ignorantes.

 

O inferno de Julian Assange

Mas o preço pago por Julian Assange foi tão alto que desnudou completamente o Ocidente e toda a sua retórica sobre direitos humanos, liberdade de expressão e democracia. Retórica vazia quando se trata do que acontece em seu domínio. Porque mesmo que a negação da extradição de Julian Assange fosse obtida, isso não implicaria em nenhuma reparação, nem mesmo uma pequena parte do enorme sofrimento impingido. Pois a negação da extradição de Julian Assange é uma questão de justiça. De razão.

Que ninguém se esqueça, a vida de Assange, desde 2010, tem sido um inferno, especialmente quando teve que ser confinado na Embaixada do Equador em 2012. Você que, em muitos casos, sabe o que é ser confinado por dias ou meses em sua casa devido ao COVID, imagine como é ficar confinado por anos em um espaço tão impessoal quanto uma embaixada. Bem, o que em uma casa seria um tormento, em um escritório atinge limites insuportáveis. E, como se não bastasse, além disso, foi espionado, teve exposto vídeos íntimos e, nos últimos anos, chegou a ser assediado na própria embaixada equatoriana onde cumpria pena. Confinamento assim é uma vergonha em si. Uma pena tão brutal que o estranho não é que Julian Assange sofra de infortúnios mentais, o estranho seria que ele fosse saudável.

Não bastasse isso, a vingança contra Assange não parou por aí. Nesse mesmo ano de 2010, Assange foi acusado de má-conduta sexual e estupro na Suécia. Uma nova punição pública ainda que a denúncia tenha sido legalmente abandonada em 2017 e arquivada em 2019. No entanto, a importância da denúncia não estava em condenar Julian Assange por esses atos que lhe foram imputados, mas sim em estigmatizá-lo e desacreditá-lo, ainda que com acusações apresentadas de forma frouxa e frágil.

 

A democracia também é executada com Assange

Infelizmente, a parte mais grave da selvagem execução social de Assange e do injustificável ostracismo de colarinho branco com que os grandes jornais, como o El país, o feriram, é o terrível dano causado ao jornalismo e à liberdade de expressão. Os limites que se estabelecem em termos de censura e autocensura, em termos dos limites do que é correto e do que é incorreto. Tortura em Guantánamo, é correto; demonstrar assassinatos de civis por americanos em meio mundo, é incorreto. São lições que ficam registradas no subconsciente de jornalistas e ativistas. De todos.

Mas, sobretudo, o maior dano dessa perseguição e maus-tratos é sofrido pela própria democracia. Aquela democracia que se pergunta por que a extrema direita não para de crescer – na França, por exemplo, já está acima de 40% e disputa a presidência com a regularidade de sempre. Até que chega o momento em que é possível entender. A resposta é onde a grande mídia não quer olhar ou mostrar. Em Assange, por exemplo. Na execução social de Julian Assange.

*Luis Gonzalo Segura é ex-tenente das Forças Armadas da Espanha.

Tradução: Ricardo Kobayaski;

Publicado originalmente no RT (Espanha).

 

Nota


(1) José Couso Permuí foi um cinegrafista e repórter espanhol, morto durante a invasão do Iraque, quando um tanque norte-americano disparou contra o hotel “Palestina”, onde se encontrava juntamente com a maioria dos profissionais da imprensa estrangeira em Bagdá, no dia 8 de abril de 2003. (Fonte: WikiPédia)