As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

A festa não pode parar

Escultura José Resende / Mooca, São Paulo/ foto: Christiana Carvalho
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por VLADIMIR SAFATLE*

Mesmo com os mortos na sala

Quem conhece a história da formação do Estado moderno sabe como seus principais teóricos justificavam sua emergência a partir de promessas de proteção das populações. Caberia ao estado a mobilização de força e recursos da sociedade para a proteção contra a morte violenta, contra a despossessão da propriedade e a sujeição a outros povos. Mesmo que tal cláusula de proteção obedecesse a restrições de classe, mesmo que em estados de formação colonial, como o Brasil, ela valesse apenas para a parcela não oriunda dos submetidos ao extermínio e escravidão, o estado criava adesão a partir do desejo em relação a tal promessa.

Valeria a pena começar por este ponto porque estamos, no Brasil, a assistir uma mutação estrutural de paradigma a respeito do binômio estado/proteção. Como se, sem perceber, tivéssemos nos tornado um laboratório, como se fossemos empurrados a ser parte de um experimento de gestão social do qual só há pouco começamos a perceber a extensão. Esse laboratório toca, de forma profunda, a relação, estado, corpo social e morte.

Alguns podem se espantar com esse esforço sistemático de aprendizado da indiferença em relação à morte em massa, que anima o governo brasileiro diante dos efeitos da pandemia. Mas alguém deveria lembrar que a história das tecnologias de governo está associada à história de epidemias, pandemias e guerras. A concepção moderna de intervenção psiquiátrica, de ordenamento urbano, de planejamento econômico, entre outros, nasce, em larga medida, no bojo de esforços contra catástrofes sanitárias. Sem que percebamos, é isto que está mais uma vez acontecendo.

As cenas macabras de um presidente da República nadando, a fim de produzir aglomerações em meio ao pico de uma pandemia que parou o mundo, as falas reiteradas de que não deveríamos nos importar com os 200 mil mortos, pois devemos “tocar a vida”, a recusa a expressões oficiais de luto, a recusa em ter um plano minimamente estruturado de vacinação: tudo isso pode parecer loucura, mas, infelizmente, tem método.

O sociólogo alemão Wolfgang Streck havia identificado, anos atrás, a consolidação de um horizonte de degradação final de macroestruturas de proteção (devido à estabilização do trinômio: baixo crescimento, endividamento crônico e concentração brutal de renda) e de fortalecimento de microestruturas territoriais e comunitárias. Seu diagnóstico visava mostrar o tipo de mundo que o esgotamento das promessas do capitalismo produzira.

Se aceitarmos tal diagnóstico, seremos obrigados a afirmar que uma das saídas possíveis a tal degradação de macroestruturas é a diminuição do horizonte de expectativas em relação à proteção. Infelizmente, o Brasil descobriu como fazer isso preservando a popularidade de seus governantes. Basta alimentar diariamente a indiferença como afeto social central, minar todo esforço de solidariedade genérica e fazer da liberdade como propriedade de si algo acima da mera sobrevivência. Uma versão macabra do “liberdade ou morte” que funda o país como nação “independente”.

Um processo dessa natureza só poderia começar de maneira sistemática em um país como o Brasil, com sua história de maior experimento necropolítico da história moderna. Como lembra Celso Furtado, o Brasil foi uma criação econômica antes de ser uma consolidação social. Ele nasce como o maior experimento de latifúndio escravista primário exportador de que se tem notícia, sendo responsável pela recepção de 35% de toda a população escravizada e enviada às Américas. Essa população e seus descendentes – assim como os povos originários que foram dizimados para que tal empreendimento econômico servisse como o marco zero desse país – conhece apenas a face predadora do estado brasileiro. A face que lembra que tais sujeitos são matáveis sem luto, são objetos de desparecimento, extermínio e máxima espoliação econômica. Que melhor lugar no mundo para começar um experimento de anulação estrutural da limitada dimensão protetora do estado moderno?

A pandemia permitiu que o estado brasileiro generalizasse essa lógica para toda a população, mesmo que tal generalização conheça intensidades diferentes devido ao acesso privilegiado à saúde privada que os setores abastados e rentistas preservam. Mas o saldo final da pandemia, ao menos para nós, será o desrecalque de um estado que diz a toda a população: “Não contem comigo para a proteção. Esse é o preço da liberdade”. Ele expõe o fato de que nunca saímos de um estágio pré-social. Uma sociedade que tem tal grau de indiferença em relação à morte de 200 mil pessoas não pode ser chamada de sociedade.

Nos anos 1970, Paul Virilio cunhou o termo “estado suicidário” para se contrapor à tendência, alimentada por Hannah Arendt, de fazer comparações indevidas entre nazismo e stalinismo. Virilio estava a dizer: “Olhe para a forma como o estado mata e entenderemos a especificidade radical do nazismo”. Pois não se tratava de matar setores da população ou grupos de opositores. Tratava-se de levar a sociedade a se acostumar com um horizonte sacrificial no qual os sujeitos parecem celebrar sua própria morte e seu próprio sacrifício. Até chegar o fim através deste último telegrama de Hitler a seus generais, o famoso Telegrama 71, no qual se lia: “Se a guerra está perdida, que a Alemanha pereça”.

Bem, se alguém duvida da natureza fascista desse governo, que leve em conta a maneira como ele deixa morrer sua própria população em uma celebração festiva de um ritual de autoimolação. Pois é só nos acostumando com tais imolações sacrificiais que o capitalismo continuará.

*Vladimir Safatle, membro da Comissão Arns, é professor titular de filosofia na USP. Autor, entre outros livros, de Maneiras de transformar mundos – Lacan, política e emancipação (Autêntica).

Publicado originalmente no blog da Comissão Arns.

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Eliziário Andrade Luciano Nascimento Lincoln Secco Leda Maria Paulani Alexandre de Lima Castro Tranjan Airton Paschoa Luiz Bernardo Pericás Paulo Fernandes Silveira Gilberto Maringoni Otaviano Helene Leonardo Boff Eugênio Trivinho Berenice Bento Elias Jabbour João Feres Júnior Anselm Jappe André Márcio Neves Soares Ronaldo Tadeu de Souza Fernão Pessoa Ramos Liszt Vieira Paulo Nogueira Batista Jr Luiz Renato Martins Marcos Silva Rodrigo de Faria Leonardo Sacramento Fernando Nogueira da Costa José Luís Fiori Daniel Costa Marcelo Guimarães Lima Tarso Genro Bruno Fabricio Alcebino da Silva Denilson Cordeiro Flávio R. Kothe Carla Teixeira Roberto Bueno Marcelo Módolo Jean Pierre Chauvin João Paulo Ayub Fonseca Eduardo Borges João Carlos Loebens Francisco Fernandes Ladeira Alexandre Aragão de Albuquerque Roberto Noritomi Daniel Brazil Renato Dagnino Ronald Rocha Maria Rita Kehl Paulo Martins Vinício Carrilho Martinez Valerio Arcary Bento Prado Jr. Luiz Marques Rubens Pinto Lyra Andrew Korybko Gabriel Cohn Eleonora Albano Julian Rodrigues Eleutério F. S. Prado Plínio de Arruda Sampaio Jr. Everaldo de Oliveira Andrade Ladislau Dowbor João Adolfo Hansen José Raimundo Trindade Afrânio Catani Mariarosaria Fabris Jorge Branco José Machado Moita Neto Celso Favaretto Luís Fernando Vitagliano Luiz Roberto Alves Ricardo Fabbrini Luiz Eduardo Soares Marilena Chauí Marcos Aurélio da Silva Ricardo Musse José Geraldo Couto Atilio A. Boron Chico Alencar Marilia Pacheco Fiorillo Antônio Sales Rios Neto Bruno Machado Osvaldo Coggiola Priscila Figueiredo Lorenzo Vitral Chico Whitaker Tales Ab'Sáber Paulo Sérgio Pinheiro Fábio Konder Comparato Alexandre de Freitas Barbosa Bernardo Ricupero Celso Frederico Luiz Werneck Vianna Carlos Tautz Vladimir Safatle Francisco de Oliveira Barros Júnior Caio Bugiato Milton Pinheiro Jorge Luiz Souto Maior José Costa Júnior Mário Maestri Ari Marcelo Solon Sandra Bitencourt Ricardo Abramovay Rafael R. Ioris João Sette Whitaker Ferreira Ricardo Antunes Leonardo Avritzer Walnice Nogueira Galvão Juarez Guimarães Michael Löwy Gilberto Lopes Marcus Ianoni Valério Arcary Alysson Leandro Mascaro Jean Marc Von Der Weid Antonio Martins Luis Felipe Miguel Remy José Fontana Heraldo Campos Henry Burnett Benicio Viero Schmidt Henri Acselrad Tadeu Valadares José Micaelson Lacerda Morais Paulo Capel Narvai Yuri Martins-Fontes Flávio Aguiar Boaventura de Sousa Santos Luiz Carlos Bresser-Pereira João Lanari Bo João Carlos Salles Slavoj Žižek Anderson Alves Esteves Sergio Amadeu da Silveira José Dirceu Francisco Pereira de Farias Armando Boito Annateresa Fabris Vanderlei Tenório Marjorie C. Marona Daniel Afonso da Silva Érico Andrade Antonino Infranca Gerson Almeida Salem Nasser Kátia Gerab Baggio Dennis Oliveira Thomas Piketty Samuel Kilsztajn Igor Felippe Santos Lucas Fiaschetti Estevez Luiz Costa Lima Manchetômetro Manuel Domingos Neto Dênis de Moraes André Singer Ronald León Núñez Eugênio Bucci Michael Roberts Claudio Katz

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada