A guerra europeia

Imagem: Darya Sannikova
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LUIS VARESE*

Balanço da guerra face à uma Europa submissa aos interesses norte-americanos

“Estamos tocando el fondo…./ Maldigo la poesía concebida como un lujo cultural por los neutrales” (Paco Ibañez, Poesia necessária).

Tolamente, alguns meses atrás, pensei que a pandemia e os desastres naturais resultantes da destruição do equilíbrio ecológico nos permitiria refletir como um coletivo da humanidade e assim buscar ações solidarias entre humanos e humanas e com o Planeta, nossa casa. Muito ingênuo da minha parte não lembrar de que a cobiça do grande capital não tem limites ou valores, além de um acúmulo irracional.

Ainda tenho a esperança de que o instinto de sobrevivência animal que temos como seres humanos, nos leve a encontrar as respostas necessárias. Espero que a opção democrática pelo socialismo nos leve a uma racionalidade indispensável e a um relacionamento fraterno e de sororidade com a Matria, nossa Pachamama e entre humanos e humanas. Apostamos nisso e devemos ir em frente. Esta guerra provocada e inesperada é outra campainha de alarme.

 

Ucrânia, os grandes derrotados.

Em primeiro lugar e em ordem de prioridades, os grandes perdedores são meninas, crianças, mulheres e homens que deixam suas casas, rumo ao exílio, ao deslocamento, ou ainda pior à morte em uma guerra que nunca quis. Ou seja, a população civil historicamente é arrastada pela voragem do conflito. Ninguém quer um exército de ocupação, seja da cor que for.

Em segundo lugar e seguindo esta mesma ordem de prioridades, a grande perdedora é a diplomacia, a negociação, a busca da paz pelo diálogo. A diplomacia foi derrotada. Neste contexto, nas suas declarações, o Secretário-Geral das Nações Unidas fez uma lamentável chamada ao Presidente Putin, em plena ofensiva e iniciada a guerra, para que retorne o exército para Rússia e que ele deponha a intervenção na Ucrânia, em vez de chamar um cessar fogo e sentar-se à mesa de negociações com a ONU, Ucrânia e os EUA. Isso era o que lhe correspondia ao Secretário-Geral, mediar e não culpar uma das partes do conflito, o que limita a negociação.

Em terceiro lugar, a derrota do Presidente dos Estados Unidos, que com sua política errática internacional, que se abre em várias frentes simultâneas em todo o mundo (China, Oriente Médio, Irã, América Latina, Rússia) é incapaz de dar uma resposta diferente da ameaça militar. Estados Unidos renuncia à diplomacia de maneira absoluta e lida apenas com a ‘cenoura e o garrote, como o tem feito em suas relações desde sempre. A arrogância de seus embaixadores continua com a linha rude e infeliz de Donald Trump, aprofundando o bloqueio a Cuba, desumano, genocida e pérfido. Esta política gera rejeição mesmo entre os governos relacionados aos EUA. A derrota política e diplomática de Biden tem um agravamento para o planeta, pois, provavelmente, coloque nas mãos da Besta Apocalíptica de Donald Trump, o triunfo eleitoral das próximas eleições.

Em quarto lugar, a União Europeia e sua política de submissão aos interesses dos EUA removeu qualquer iniciativa própria, e seu papel como eixo de equilíbrio, na defesa da democracia ocidental, tem-se perdido totalmente. Isso vem ocorrendo a partir do alinhamento em defesa do fantoche Juan Guidó na Venezuela ou à política contra a Nicarágua e Cuba. A UE é representada por líderes medíocres que não estão à altura do momento histórico.

Com a partida de Angela Merkel, não há um único líder com a dimensão de um estadista. O espanhol Pedro Sánchez chamou Putin para retirar as tropas da Ucrânia, em uma saudação para a bandeira irrealizável e absurda, patética. Borell, o Almagro da União Europeia, não faz nada além de tornar o ridículo nesta dimensão global do rearranjo geopolítico. A OTAN formada por vários exércitos da UE, não faz outro papel a não ser o braço armado da política externa dos EUA em um confronto hipotético com a Rússia, no conceito desatualizado como é a “guerra fria”, pertencente à bipolaridade existente em tempos do União Soviética.

A Ucrânia é o campo da batalha, e de qualquer ponto de vista, o sacrificado é o seu povo, exceto nas repúblicas de Donetsk e Lugansk, que já pagaram com treze mil mortes pelo fato de serem falantes russos e pretender exercer uma autonomia que foi acordada em 2014.

 

O provável resultado

“Toda guerra se sabe como começa, mas não se sabe como e quando termina “, frase clichê e repetida, mas, no entanto, já estamos vendo as possibilidades do começo de negociações.

As condições: Ucrânia não vai fazer parte da Otan, vai-se desnuclearizar, as repúblicas de Donetsky e Lugansk em Donbass serão reconhecidas, a Crimeia continuará a fazer parte da Rússia, serão detidos e julgados os responsáveis pelas matanças e pelos bombardeios que produziram 13 mil mortos desde 2014, em Donbass. Por fim, a Rússia deverá se retirar do território da Ucrânia.

É com esta estrutura de negociações que o governo da Ucrânia deverá sentar-se à mesa. Muito provavelmente surgirá o tema de eleições com a proposta de um governo que concilie com a Rússia as históricas relações entre os povos que habitam o espaço de Ucrânia.

Estão, por outra parte, as sanções dos EUA e da UE contra a Rússia. O presidente Vladimir Putin, que se tem demonstrado como estrategista político e militar (independentemente de gostarmos ou não) prevê uma etapa de respostas a essas sanções, abrindo-se a outros mercados e gerando condições que não afetem substancialmente as condições de vida do povo russo.

 

Considerações finais

A grande ausência, até agora, na análise geopolítica, são as contradições intercapitalistas. Não conseguimos nos orientar para onde estamos indo na resolução dessas contradições, além de dizer que a crise dos EUA, como cabeça imperial hegemônica, parece estar chegando ao fim. China e Rússia, momentaneamente aliadas, podem desempenhar um papel moderador no fim do ‘império do dólar’, protegendo seus interesses nacionais e os de seus próprios capitalistas, é claro. A União Europeia parece caminhar sem outro guia a não ser acompanhar a derrota dos EUA, embora os interesses particulares de seus donos os levem, em algum momento, a se distanciar dos perdedores.

A guerra gera lucros e os primeiros beneficiários são, naturalmente, os fabricantes de armas e os grandes proprietários dos recursos naturais. Mas ainda é cedo para ter uma resposta de até onde irá esse rearranjo geopolítico.

Para Nossa América devemos lutar para reconquistar ou conquistar os espaços populares e democráticos no Brasil e na Colômbia, em seus próximos processos eleitorais. Reconstruir os espaços regionais de negociação, como CELAC e UNASUL, e avançar e consolidar a América Latina como espaço de Paz. Aqui há líderes com nível mundial de estadistas e com propostas para o grupo. Somente unidos e no marco do multilateralismo poderemos nos fazer ouvir e preservar nossa voz como opção em defesa do Planeta e da Humanidade.

A guerra, mais uma vez provocada pelas piores ambições e ganâncias imperiais, destrói seres humanos indefesos, gera refugiados e deslocados e enriquece apenas os poderosos, que nunca estão no campo de batalha. Mesmo que a Rússia não tivesse outra escolha, lembremo-nos de que ninguém gosta de ter um exército de ocupação em casa e que os mortos são enterrados pelo povo. Espera-se um pronto cessar-fogo e o fim imediato das hostilidades, embora a vocação dos EUA e da OTAN sempre tenha sido a de gerar e manter esses conflitos, recordemos a Líbia, a antiga Iugoslávia, o Iraque, para citar os mais recentes, e no momento eles não param de entregar armas ao exército ucraniano.

Se há vocação para a paz, é preciso negociar, e isso significa sentar-se à mesa e ceder o que deve ser concedido, evitando levar o conflito para além do permissível, para a sobrevivência da humanidade.

*Luis Varese é jornalista e antropólogo.

 

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Daniel Costa Manchetômetro Eleonora Albano Ricardo Antunes Renato Dagnino Tales Ab'Sáber Leda Maria Paulani Osvaldo Coggiola Rafael R. Ioris Luciano Nascimento Rubens Pinto Lyra Érico Andrade Antonio Martins João Carlos Salles Matheus Silveira de Souza Juarez Guimarães Samuel Kilsztajn Everaldo de Oliveira Andrade Marcelo Módolo Lucas Fiaschetti Estevez Heraldo Campos João Sette Whitaker Ferreira Mário Maestri Luiz Carlos Bresser-Pereira Francisco Pereira de Farias Celso Frederico Benicio Viero Schmidt Paulo Martins Anselm Jappe Sergio Amadeu da Silveira João Adolfo Hansen Valerio Arcary Michael Roberts Kátia Gerab Baggio José Costa Júnior Marilia Pacheco Fiorillo Thomas Piketty Marcos Silva Bento Prado Jr. Bruno Machado Luiz Renato Martins Dennis Oliveira Jean Pierre Chauvin Milton Pinheiro Jorge Luiz Souto Maior Eduardo Borges Slavoj Žižek Valerio Arcary Priscila Figueiredo Sandra Bitencourt Fernando Nogueira da Costa Annateresa Fabris Ricardo Musse Leonardo Sacramento Mariarosaria Fabris Michael Löwy Fábio Konder Comparato Luis Felipe Miguel José Dirceu Henry Burnett Plínio de Arruda Sampaio Jr. José Geraldo Couto Celso Favaretto Paulo Sérgio Pinheiro Daniel Brazil Eleutério F. S. Prado João Paulo Ayub Fonseca Luís Fernando Vitagliano Antonino Infranca Francisco Fernandes Ladeira Eugênio Trivinho Ari Marcelo Solon Alexandre de Lima Castro Tranjan Carlos Tautz José Raimundo Trindade Alexandre de Freitas Barbosa Tadeu Valadares Julian Rodrigues Ronald León Núñez Jorge Branco Salem Nasser Walnice Nogueira Galvão Boaventura de Sousa Santos Caio Bugiato Afrânio Catani Francisco de Oliveira Barros Júnior Yuri Martins-Fontes Paulo Capel Narvai José Luís Fiori Ronald Rocha Vanderlei Tenório Paulo Fernandes Silveira Liszt Vieira Marilena Chauí Atilio A. Boron Flávio R. Kothe Vladimir Safatle Marcelo Guimarães Lima Maria Rita Kehl Andrew Korybko Gilberto Maringoni Vinício Carrilho Martinez Daniel Afonso da Silva Luiz Marques José Micaelson Lacerda Morais Ronaldo Tadeu de Souza Denilson Cordeiro João Lanari Bo Armando Boito Ricardo Abramovay Manuel Domingos Neto André Singer Tarso Genro Marcus Ianoni Flávio Aguiar Marjorie C. Marona Jean Marc Von Der Weid Eugênio Bucci Eliziário Andrade Dênis de Moraes Michel Goulart da Silva Gerson Almeida Leonardo Boff Igor Felippe Santos Elias Jabbour Alysson Leandro Mascaro Luiz Werneck Vianna Remy José Fontana Bernardo Ricupero Henri Acselrad Rodrigo de Faria Otaviano Helene José Machado Moita Neto Claudio Katz Berenice Bento Anderson Alves Esteves Marcos Aurélio da Silva Andrés del Río João Carlos Loebens Gabriel Cohn Airton Paschoa Lincoln Secco Luiz Bernardo Pericás Ladislau Dowbor Ricardo Fabbrini João Feres Júnior Chico Whitaker Gilberto Lopes Leonardo Avritzer Luiz Eduardo Soares Lorenzo Vitral Chico Alencar Alexandre Aragão de Albuquerque Luiz Roberto Alves Carla Teixeira Antônio Sales Rios Neto Fernão Pessoa Ramos André Márcio Neves Soares Bruno Fabricio Alcebino da Silva Paulo Nogueira Batista Jr

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada