A jangada de pedra

John Hoskin, Figura em pé, 1960
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Por LUAN VIEIRA*

Comentário sobre o livro de José Saramago

1.

O que um historiador brasileiro diria sobre a obra A jangada de pedra, de José Saramago? Bem, muitas coisas. Começaria, sem dúvida, com as dívidas que a jangada (a Ibéria, ou, a Hispania para os antigos) têm com a América do Sul, abordando questões relativas à colonização; por outro lado, agora o de historiador, trataria, como bem lhe cabe, do contexto histórico de sua produção, isto é, a data de publicação que coincide com desenvolvimentos da União Europeia, e o lugar da península nesse jogo geopolítico – ou, ao menos, o lugar que José Saramago lhe atribui.

Apesar de me enquadrar no rótulo – sou um historiador brasileiro –, não proponho essas leituras. Proponho debater a obra somente pelo que está dentro dela, a história da jangada.

Interessante é, antes de mais nada, a premissa da história. Tem algo de José Saramago ali, uma recorrência do autor, que é o enlace (ou a retomada), feito com tanta naturalidade, entre o absurdo e o cotidiano. O extraordinário: a Península Ibérica se desgarra do resto do continente e passa a flutuar no oceano como uma ilha, “(…) toda a cordilheira pirenaica estalavam os granitos, multiplicavam-se as fendas, outras estradas apareceram cortadas, outros rios, regatos e torrentes mergulharam a fundo, para o invisível”.

Entretanto, os habitantes – como se vê nos cinco que protagonizam a história de José Saramago – lidam com sentimentos ordinários, passando do mêdo ao amor, até chegar à busca, igualmente cotidiana (embora, por vezes, essas coisas sejam mecanicamente inibidas), por um propósito. Nada melhor do que um cenário apocalíptico para abrir certas chaves da percepção e encarar, com toda a frieza necessária, aquilo que escolhemos como utopia.

Isso, sim, diz algo sobre a natureza do autor: ele foi capaz de desenvolver, com tamanha maestria, aquela pergunta que todos nós fazemos (um grande “e se?”), mas poucos, somente os verdadeiros literatos, que conseguem efetivamente regar essa semente à altura de densa floresta. Quando somos convidados a acompanhar Joana Carda, Joaquim Sassa, José Anaiço, Pedro Orce e Maria Guavaira, não se trata de um simples exercício de leitura de representações de consciências humanas, uma introspecção, à maneira de Clarice Lispector, em certos cantos da mente de José Saramago.

Quer dizer, não deixa de ser isso, mas defendo que é também algo a mais. Há algo de imaginação, pura e simples, quando José Saramago faz esse convite, posto que ele certamente não viveu as desventuras de uma península flutuante. Viveu, isso sim, o espectro de sentimentos que dá voz e unidade a seus personagens – daí o entrave, o ponto para o qual quero chamar a atenção, entre o extraordinário e o ordinário. Admirável, a meu ver, é assumir essa premissa narrativa capaz de pôr em choque esses universos. Ela permite o flerte com um certo desconhecido, algo que já não é José Saramago em si, mas um além.

2.

Feita a premissa, o que traz a história? Ela narra o encontro de cinco pessoas, diferentemente relacionadas ao movimento de Portugal e Espanha, e suas viagens por esse território viajante. É simples assim. Sim, é evidente que se perguntaria: “O que há de mais, então?”. Em resumo, tudo reside na forma como é contada – na escrita de José Saramago.

Um simples ato – o personagem vai do ponto A ao ponto B – é acompanhado, por exemplo, de indagações sobre os limites da linguagem em relação ao mundo. A meu ver, isso não é mera casualidade. O livro não se propõe a ser um tratado linguístico filosófico, e, ainda assim, ao longo de toda a obra, aparece, de forma recorrente, um debate entre linguagem e realidade, entre as palavras e as coisas. Por que damos um nome a um território? As coisas que não têm nome existem? Qual é o significado e a implicação de uma palavra? O que é, afinal, a “Ibéria”?

Há de se notar que o narrador é também um personagem. É ele que, em grande medida, formula essas perguntas. Portanto, não acompanhamos somente o trânsito, as sensações e percepções dessas cinco personagens, lidamos também com o fluxo de consciência do narrador, quase sempre com uma filosofia irônica, capaz de indagar as relações entre causa e consequência que o leitor ensaia estabelecer.

Isso é feito de forma própria: há um estilo próprio ao autor – em que diálogos não são separados, os parágrafos são longos e possuem outra lógica em relação à pontuação – e, no limite, há uma apropriação da língua portuguesa. Ainda no debate entre mundo e linguagem, poderíamos interpretar sua escrita não somente como um convite a deter-se sobre o texto, concedendo-lhe a reflexão que ele exige, mas também como uma verossimilhança. É evidente que ao menos uma parte do mundo se esconde naquela simbologia e, justamente por isso, a atmosfera criada soa estranhamente familiar.

Ela, essa atmosfera, pode ser lida de diversas formas. O livro recorre, constantemente, às consequências geopolíticas: os interesses dos Estados Unidos da América do Norte (o autor sempre descreve, corretamente, com a diferenciação entre Américas), os protestos de jovens na Europa (“somos todos Ibéricos”), as migrações (de ricos e poderosos, cientistas e jornalistas e nativos e estrangeiros).

3.

A leitura também pode ser centralizada nos personagens: a jornada implica uma revisão da maneira como levavam a vida (voltada sobretudo ao trabalho), novos relacionamentos (tanto amizades como amores) e, somada a isso, a hercúlea tarefa de buscar um novo sentido (o que significa ser “ibérico” depois de tudo isso?). Relacionando ambos, acredito que há uma leitura mais significativa: a geopolítica, em certa medida, condiciona a ressignificação.

Quando os cinco personagens de José Saramago são jogados, assim como nós, em um cenário no qual grandes potências disputam territórios – seja por simples ganância, para incrementar o turismo ou para embasar antigos lemas de progresso –, suas vidas, relacionamentos e ressignificações passam a ser atravessados por esses conflitos.

Ao final da obra, nada lhes resta senão desmontar a fantasia e voltar à casa, à vida comum, ao ordinário. Entretanto, como fazer isso? O que vem depois, no íntimo e no geopolítico? A meu ver, Saramago dá uma pista: a história que se segue só ganhará pleno sentido se for pautada a partir de um significante anterior (novamente, coisas que são mecanicamente inibidas), outro absurdo.

Vale lembrar que, em nossas vidas, entrelaçam-se, mesmo sem nenhum cataclisma, o absurdo e o cotidiano. Antes mesmo de nascermos, somos jogados em uma memória coletiva, zelosamente construída por uma série de vetores, incluindo aqui os verdadeiros literatos, que imputam ao nosso cotidiano uma rede de significantes.

Essas histórias não necessariamente discorrem sobre o real, ao contrário, fabricam-no. Um exemplo é sutilmente sublinhado nas últimas páginas do livro de Saramago, o D. Quixote de la Mancha. A narrativa de um homem comum que, saturado de romances de cavalaria, percorre o mundo confundindo ficção e realidade, não é uma fábula sobre o delírio, e sim uma alegoria sobre a reminiscência.

Dito de outra forma, não se trata de uma ressignificação desordenada (a loucura), mas da inauguração de vir-a-ser que opta por deixar-se atravessar pela ficção, capaz de, sensivelmente, abraçar o que se apresenta apenas como uma remota possibilidade (mas, afinal, “e se?”).

Ser ibérico, ao menos na leitura que faço de José Saramago, não é aderir a uma identidade estável, mas aceitar caminhar nessa zona instável onde o absurdo e o cotidiano se co-produzem, onde o significante antecede a experiência e, ao mesmo tempo, a molda. Trata-se menos de um pertencimento geográfico do que de uma disposição: habitar a fratura entre mundo e linguagem, sabendo que é ali, precisamente ali, que o real se torna narrável, e, por que não, desejável – como um guia para o que vem depois.

*Luan Vieira é mestrando em história na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Referência


José Saramago. A jangada de pedra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, 296 págs. [https://amzn.to/40VAUYd]

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