A longa caminhada de Werner Herzog

Brice Marden, Série Cold Mountain, Estudo Zen 4, 1991
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Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre o livro “Caminhando no gelo”, de Werner Herzog

1.

Se eu fosse falar sobre a filmografia do cineasta alemão Werner Herzog, acredito que precisaria escrever muito acerca de sua produção, explorar parte da enorme fortuna crítica a seu respeito, além de procurar estabelecer uma série de outras relações com o campo cinematográfico internacional. Ele dirigiu mais de sessenta filmes, atuou em cerca de duas dezenas de séries e películas, escreveu roteiros e ao menos um romance.

Ele já era um cineasta conhecido quando em fins de novembro de 1974, em Munique, recebeu telefonema de um amigo de Paris dizendo que Lotte Eisner “estava muito doente, à beira da morte.” A reação de Werner Herzog foi passional: “Não pode ser (…) Não agora. O cinema alemão não pode ficar sem ela, não devemos deixá-la morrer. Peguei um casaco, uma bússola e uma sacola com o indispensável. Minhas botas estavam tão sólidas e novas, que me inspiraram confiança; Pus-me a caminho de Paris pela rota mais curta, na certeza de que ela viveria se eu fosse encontrá-la a pé, Além disso, tinha vontade de ficar só” (p. 7).

E assim foi feito: os mil quilômetros que separam Munique de Paris foram percorridos entre 23 de novembro e 14 de dezembro de 1974. Werner Herzog foi escrevendo no caminho o que lhe passou pela cabeça em um caderninho de notas que, a princípio, não deveria ser publicado. Quase quatro anos depois, ao reler seus registros, confessou: “fui tomado de uma estranha emoção, e o desejo de mostrá-lo venceu minha timidez de desnudar-me assim aos olhos dos outros” (p. 7 – transcrição da “Nota Prévia” de 24 de maio de 1978).

2.

Mas antes de continuar, acho que devem ser ditas algumas palavras, ainda que de forma breve, sobre Lotte H. Eisner (1896-1983). Foi escritora, crítica de teatro e de cinema, arquivista e curadora franco-alemã, tendo trabalhado inicialmente como crítica em Berlim e, depois, em Paris. Lá, em 1936, conheceu Henri Langlois (1914-1977), auxiliando-o na criação, nesse mesmo ano, da Cinémathèque Française. Com a ascensão do nazismo acabou presa e enviada para um campo de prisioneiras judias nos Pirineus, administrada por colaboracionistas franceses. Conseguiu fugir e manteve contato com Henri Langlois que, durante a guerra, escondeu latas de filmes por grande parte da França com a finalidade de ocultá-las dos nazistas.

Após a libertação de Paris, Eisner voltou a trabalhar com Langlois, tornando-se curadora-chefe da Cinémathèque Française e, ao longo de quatro décadas, coletou e preservou, além de catalogar e organizar, filmes, figurinos, cenografia, obras de arte, roteiros e equipamentos para a instituição.

Publicou, em 1952, A tela demoníaca: as influências de Max Reinhardt e o Expressionismo, além de livros sobre os cineastas F. W. Murnau (1888-1931), em 1964, e Fritz Lang (1990-1976), em 1976. Na década de 1950, Eisner tornou-se amiga e mentora de Herzog e de outros jovens cineastas alemães – Wim Wenders (1945), Volker Schlöndorff (1939) e Herbert Achternbusch (1938-2022). Bastante arguta e sensível, como informa Lúcia Nagib, tradutora do livro, Eisner detectou o talento de Werner Herzog em Sinais de vida (1967), seu primeiro longa. “Na época escreveu uma carta a Fritz Lang, dizendo que finalmente o cinema alemão renascia.” Mais tarde, ao realizar Fata Morgana (1968-1970), Werner Herzog convidou-a para fazer a narração do filme. “Datam daí uma amizade profunda e uma admiração mútua.”

Seja como for, Eisnering – que era como os amigos de Lotte a chamavam – sobreviveu por quase dez anos após a caminhada no gelo, verdadeiro ato de sacrifício, empreendida por Herzog. A foto da capa, tirada por Lúcia Nagib em pleno inverno, com a rua coberta pela neve, sugere o que o cineasta enfrentou em sua longa caminhada.

Relendo suas anotações e suprimido “apenas algumas passagens muito íntimas”, o cineasta escreveu em 1978, quando as publicou: “Gosto mais deste livro do que de todos os meus filmes.”

3.

Werner Herzog iniciou suas andanças em 23.11.74, sábado, saindo de Berlim com botas novas e resistentes. Bem, alguns quilômetros de marcha e os pisantes começaram a lhe dar problemas. “Coloco nelas um pedaço de esponja e, ao andar, sou cauteloso como um bicho, acho que até estou pensando como um bicho.”

Bicho ou não, não faltam animais em seu relato. Há inúmeras menções a cães são bernardo, galgos, cães pastores, ovelhas, cabrito maltês, vacas, carneiros, veados e cervos, bezerros, raposas, porcos, galinhas, garças, cisnes, patos, gansos, ratos, pardais, perdizes, pica-paus, perus, faisões, corvos, melros, gralhas, pintassilgos, busardos, chucas (pequena gralha europeia), lebres brancas, pombas brancas, peixinhos dourados…Fala de árvores e de plantas, da paisagem em geral e dos homens e das mulheres com quem interage ou simplesmente observa.

Vai caminhando e as bolhas nos pés vão se formando, nos calcanhares, nos joanetes, fazendo-o sonhar com esparadrapo. “Arrasto-me mais do que ando. As pernas doem tanto, que mal posso colocar uma na frente da outra. Quanto rendem um milhão de passos?” (25.11.74). A coxa esquerda dói, desde a virilha, a cada passo, levando-o a comprar álcool canforado para minimizar a situação (27.11.74). Além disso, o tornozelo direito vai de mal a pior, o joelho dói e o tendão de Aquiles incha (28.11.74).

Herzog se perde, mas consegue, em Kirchheim, comprar o mapa da Shell, o que facilita as coisas. “Sinto um grande esgotamento. A cabeça vazia” (26.11.74). “A boca (…) já está farinhenta outra vez. Ao redor, a solidão do bosque em negro profundo, silêncio de morte, só o vento se agita” (2.12.74).

Ainda na Alemanha, suas observações são cortantes: “nessas aldeias desleixadas, só gente cansada, que não espera mais nada da vida” (28.11.74). Pensa no pequeno filho, que no início da noite “já deve estar na cama, segurando a borda da coberta” (29.11.74). Consegue algumas caronas curtas quando o frio e a chuva se tornam massacrantes e se alegra ao poder comprar outra bússola, pois a que levava se perdeu (3.12.74). Nessa mesma data se dá conta de uma necessidade básica: Preciso lavar a camisa e a camiseta hoje: estão com um cheiro de corpo tão forte, que me obrigam a fechar o casaco quando encontro gente.”

Já na França, em Fouday, num restaurante de beira de estrada, sente-se a pessoa mais solitária do mundo e, por ficar vários dias sem falar com ninguém, sua voz “não queria sair direito, eu não encontrava o tom certo e só conseguia piar, morri de vergonha” (4.12.74).

A França rural aparece na porta de um café em Senones, em que “há um Citröen novinho em folha, com uma grande carga de feno amarrada na capota” (5.12.74). Logo em seguida se anima e espera, se a chuva não vier, andar 60 quilômetros no dia seguinte. Mas dia 6 de Dezembro não conseguiu caminhar tanto:”Chuva, chuva, chuva, chuva, chuva, mal consigo me lembrar de outra coisa além da chuva (…) Nos campos não há ninguém e o caminho prossegue interminável por entre os bosques.” Os dedos estão tão congelados, que só consigo escrever com muito esforço” (11.12.74) e “Minhas mãos, de tanto frio, estão vermelhas como um caranguejo. Andando ainda e sempre” (12.12.74).

4.

Deve ser destacado que Herzog, nessa longa caminhada, sempre formulou uma questão básica: onde dormir? Em boa parte das vezes seus pernoites aconteceram em casas de veraneio desertas, que arrombava de forma discreta ao final da tarde e, nas primeiras horas da manhã, prosseguia viagem. Na tardinha do primeiro dia revelou sua maneira de proceder: encontrou uma casa com jardim fechado e laguinho com uma pequena ponte – “A casa está trancada. Faço tudo do jeito simples que Joschi me ensinou. Um, arrombar a porta da janela; dois, espatifar a vidraça; três, entrar” (23.11.74).

Entretanto, em 28.11.74, dormiu num palheiro. “A chuva e a neve espirraram pelo topo do telhado, e eu me enterrei na palha.” Mas três dias antes (25.11) arrombou outra casa, desta vez sem quebrar nada – “Lá fora, a tempestade; aqui, os ratos. Como faz frio!”

Lamenta que “as aldeias se fazem de mortas quando me aproximo” (25.11.74), e “quem caminha, passa por uma porção de coisas jogadas”; “Só acreditaria nisso tudo se fosse um filme” (23.11.74). Dia 27 comprou um jornal no bar da estação em Laupheim: “não faço a menor ideia do que está acontecendo no mundo.”. Já em Vöhringen, Tailfingen, Schramberg, Volkersheim e Münchweier, dormiu em hospedarias, abrigos, albergues, palheiros, estábulos, enquanto em Bösingen foi acolhido numa casa particular e, em Andlau, na França, descansou num poço de pedra.

À medida em que avança em território francês, Herzog encontra por toda parte mel e colméias, além de “casas de veraneio solitariamente fechadas” (4.12.74). Mas, em Fouday ele narra algo inusitado, após o jantar na beira da estrada e quando deixa a cidade: “Arrombei uma casa vazia, mais com o muque do que com o tutano, apesar de haver uma casa habitada perto (…) Parti de manhã cedinho. O despertador que tinha encontrado na casa que eu deixava fazia um tique-taque tão alto e traiçoeiro, que voltei para apanhá-lo e, já fora, atirei-o numa moita um pouco adiante” (4 e 5.12.74).

Depois, em Raon-l’Étape, foi para um hotelzinho, onde descansou e tomou banho, enquanto em Charmes, arrombou e dormiu em um trailer de uma exposição de caravans e camping-trailers (6.12.74). Conseguiu carona em uma caminhonete sacolejante, “em cuja carroceria rolavam bujões de gás soltos”, além de outra, de Mirecourt a Neufchâteau, “que no tempo de Carlos Magno era o centro de toda a região” (7.12.74). Visitou a casa onde nasceu Joana d’Arc, em Domrémy e, em troyes, após tomar um pacote de leite, atirou-o no Sena, acrescentando que “a embalagem que joguei na água vai chegar antes de mim a Paris” (10.12.74).

Em 13 de Dezembro conseguiu chegar ao destino totalmente exausto, “sobre uns pés já tão extenuados, que me roubavam os sentidos.” Dia 14.12.74 encerrou seu périplo, encontrando Eisnerin “ainda cansada e marcada pela doença.” Ela soube que ele viera caminhando e, diante dela, esticou as pernas sobre uma cadeira que ela lhe empurrou.

Em 1978, quando Herzog publicou seu diário, o politicamente correto não dava o tom. Hoje, como os leitores receberiam tal narrativa, em que o andarilho arromba casas, se apropria e joga para longe um despertador que não lhe pertence, bem como atira ao rio embalagem de produto que demora anos para ser biodegradado e que poderia ser reciclado ? Lotte Eisner não sabia nada disso quando eles se encontraram em Paris, mas se soubesse, ela que enfrentou tantos perrengues, ficando não poucas vezes entre a vida e a morte nos anos 1930 e 1940, acho que não daria a mínima.

Herzog, em Paris, sugeriu a ela que, juntos, “vamos cozinhar um fogo e deter os peixes”. Ela lhe dá um sorriso de compreensão. “Por um instante fino e breve, algo suave atravessou meu corpo exausto. Eu disse: abra a janela, há alguns dias aprendi a voar.”

*Afrânio Catani é professor titular sênior aposentado da Faculdade de Educação da USP. Atualmente é professor visitante na Faculdade de Educação da UERJ, campus de Duque de Caxias.

Referência


Werner Herzog. Caminhando no gelo. Tradução: Lúcia Nagib. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, 78 págs. [https://amzn.to/3Q41c5v]


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