A nação imaginada

Imagem: Fabien Barral
image_pdf

Por VINÍCIUS B. D’AMACENO*

A invenção simbólica do Brasil oitocentista revela como o Romantismo e a historiografia oficial atuaram como instrumentos das elites para forjar uma nação harmônica e silenciar os conflitos da escravidão

1.

O século XIX brasileiro, especialmente durante a consolidação do Império sob D. Pedro II, foi menos um período de simples organização política e mais um intenso esforço de invenção simbólica da nação. Não se tratava apenas de governar um território recém-independente, mas de produzir sentidos, narrativas e imagens capazes de legitimar a existência do Estado imperial e de sustentar a autoridade de suas elites.

Nesse contexto, a escrita da história e a produção cultural tornaram-se campos centrais de disputa. Como observa Manoel Luiz Salgado Guimarães, a reflexão histórica no Brasil oitocentista esteve profundamente articulada à questão nacional, funcionando como instrumento de ordenação temporal e política da experiência histórica (GUIMARÃES, 1988).

A construção desse passado comum não foi espontânea. Ela se deu a partir de um projeto consciente das elites letradas, que buscaram transformar a história em ferramenta de coesão, apagando conflitos e organizando a memória coletiva de forma seletiva. Nesse processo, a fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1838, representou um marco decisivo.

Mais do que uma instituição acadêmica dedicada à coleta de documentos, o IHGB funcionou como um aparelho intelectual do Estado imperial, encarregado de oferecer ao Brasil uma genealogia respeitável e uma narrativa histórica coerente. Segundo Guimarães, o Instituto operava a partir de uma tradição ilustrada portuguesa profundamente conservadora, marcada por valores católicos e por uma concepção hierárquica da sociedade (GUIMARÃES, 1988).

A atuação do IHGB deve ser compreendida no interior de uma crise mais ampla de orientação temporal vivida pelas elites do período. Como destaca Valdei Lopes de Araújo, tratava-se de responder à urgência de afirmar a singularidade nacional diante da herança colonial, organizando o passado de modo a torná-lo inteligível e funcional ao presente político (ARAÚJO, 2008). Essa necessidade resultou na produção de uma história nacional que se pretendia harmônica, civilizada e contínua, na qual revoltas populares, tensões regionais e, sobretudo, a violência estrutural da escravidão eram sistematicamente minimizadas ou silenciadas.

Esse esforço institucional encontrou no Romantismo sua expressão estética mais eficaz. Longe de ser apenas um movimento literário, o Romantismo brasileiro funcionou como uma linguagem política da nacionalidade, capaz de traduzir os pressupostos eruditos do IHGB em imagens acessíveis ao grande público. Como argumenta Bernardo Ricupero, o Romantismo foi fundamental para articular a ideia de nação no Brasil, oferecendo símbolos, mitos e afetos que davam concretude à abstração nacional (RICUPERO, 2004). A literatura romântica, nesse sentido, não apenas refletiu o projeto das elites, mas atuou ativamente na sua difusão e naturalização.

2.

No centro desse processo está a obra de José de Alencar, figura emblemática da convergência entre literatura, política e historiografia. José de Alencar desempenhou o papel de mediador entre o discurso histórico institucionalizado e o imaginário popular, traduzindo diretrizes como a tese das “três raças”, formulada por Von Martius, em narrativas literárias de grande apelo simbólico. Em romances como O guarani e Iracema, o indígena é elevado à condição de herói fundador, idealizado como “bom selvagem” e apresentado como portador de uma pureza moral anterior à colonização. Essa operação simbólica permitiu à elite resolver um dilema central: criar um passado nobre e autóctone sem ameaçar a ordem social vigente.

O indianismo romântico, contudo, está longe de ser inocente. Como aponta Alfredo Bosi, trata-se de uma idealização profundamente controlada, na qual o indígena só é aceito enquanto figura mítica, submissa ou destinada ao desaparecimento (BOSI, 1994). Em Iracema, a mestiçagem é romantizada como um encontro amoroso e harmonioso entre a indígena e o colonizador português, apagando a violência de gênero, a dominação política e a expropriação territorial que marcaram a colonização real. O herói indígena, quando não se submete à ordem branca, morre, limpando simbolicamente o caminho para a herança europeia.

Essa lógica de pacificação estética não se limita aos romances indianistas. No drama O Jesuíta (1875), José de Alencar reescreve um dos episódios mais conflituosos do período colonial – a expulsão dos jesuítas – reduzindo uma complexa disputa entre Estado e Igreja a dramas individuais e conflitos familiares. A macro-história dá lugar ao sentimentalismo, desviando o olhar das estruturas de poder e neutralizando o potencial crítico do episódio. Trata-se de uma operação recorrente do Romantismo enquanto projeto cultural: substituir o conflito pela harmonia, a política pela emoção, a violência estrutural pela conciliação simbólica.

Essa dimensão ideológica do Romantismo se revela de forma ainda mais explícita quando confrontada com a atuação política de José de Alencar. Em Ao Imperador: Novas Cartas Políticas de Erasmo (1867), o autor se posiciona abertamente contra a abolição imediata da escravidão, argumentando que a emancipação representaria uma ameaça à ordem econômica e social. Ao evocar o suposto fracasso das colônias francesas após a abolição, Alencar defende a manutenção do trabalho escravo em nome da estabilidade nacional (ALENCAR, 1867).

A contradição é evidente: o mesmo autor que celebrava poeticamente a origem da nação indígena defendia, na arena política, a preservação de uma das instituições mais violentas da sociedade brasileira.

3.

Essa tensão não é acidental, mas estrutural. Como argumenta Marilena Chauí, o mito fundador opera justamente pela produção de uma identidade nacional abstrata e conciliadora, capaz de ocultar relações de dominação e desigualdade profundamente arraigadas (CHAUÍ, 2000). O discurso da harmonia racial, da natureza exuberante e da origem pura funcionou como uma memória forjada, destinada a desviar o debate público das contradições do presente. A nação imaginada era una, pacífica e civilizada; a sociedade real, profundamente hierarquizada e excludente.

Nesse sentido, o projeto historiográfico do IHGB e a estética romântica não podem ser compreendidos separadamente. Ambos integraram um mesmo esforço de construção simbólica da nação, no qual a história e a literatura atuaram como instrumentos de legitimação da ordem imperial. Como sugere Benedict Anderson, as nações são comunidades imaginadas, construídas por meio de narrativas, símbolos e práticas culturais que dão sentido à experiência coletiva (ANDERSON, 2008). No Brasil do século XIX, essa imaginação nacional foi cuidadosamente conduzida pelas elites, garantindo que a civilização celebrada nos trópicos refletisse apenas seus próprios interesses.

Conclui-se, portanto, que a construção do mito fundador do Brasil esteve profundamente vinculada a um projeto político conservador. A elite intelectual, ao institucionalizar a escrita da história e mobilizar o Romantismo como linguagem estética, produziu uma narrativa nacional seletiva, que exaltava a origem indígena e a natureza enquanto mascarava os pilares de opressão do presente, especialmente a escravidão.

A história nacional, nascida como esforço moderno de autoconsciência, foi instrumentalizada para proteger privilégios e assegurar a hegemonia da classe dominante, deixando como herança um imaginário nacional marcado pela conciliação simbólica e pelo silenciamento do conflito.

*Vinícius B. D’Amaceno é graduando em história e em filosofia na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Referências


ALENCAR, José de. Iracema: lenda do Ceará. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1865.

ALENCAR, José de. O Guarani. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1857.

ALENCAR, José de. O Jesuíta: drama em quatro atos. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1875.

ALENCAR, José de (Erasmo). Ao Imperador: novas cartas políticas de Erasmo. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1867.

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

ARAÚJO, Valdei Lopes de. A experiência do tempo: conceitos e narrativas na formação nacional brasileira (1813–1845). São Paulo: Hucitec, 2008.

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

CHAUÍ, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000.

GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. Nação e civilização nos trópicos: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma história nacional. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 1, p. 5–27, 1988.

RICUPERO, Bernardo. O romantismo e a ideia de nação no Brasil (1830–1870). São Paulo: Martins Fontes, 2004.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
A memória que fica
27 Dec 2025 Por MARCIA GOBBI: Envelhecer é também um ato político, marcado pela desigualdade que dita quantos anos se vive e como se lembra de cada um deles
2
Apocalipse – ficção científica latino-americana
27 Dec 2025 Por DANIEL BRAZIL: Comentário sobre a antologia recém-lançada organizada por Camilla Cattarulla e Giorgio de Marchis
3
Além do capitalismo
22 Dec 2025 Por AARON BENANAV: O capitalismo, cujo dinamismo já elevou padrões de vida, esgota-se na estagnação oligopolista e na crise ambiental, demandando uma ordem econômica orientada por múltiplos fins, não apenas pelo lucro
4
História no divã
24 Dec 2025 Por ANTONIO SIMPLICIO DE ALMEIDA NETO: A "História", em crise existencial, relata a um psicanalista seu sentimento de desvalorização e ataque por reformas educacionais e discursos utilitaristas, refletindo alegoricamente o desmonte das humanidades no Brasil
5
Por uma escola com exigência intelectual
19 Dec 2025 Por JEAN-PIERRE TERRAIL: Prefácio do autor
6
Lula e a Venezuela
27 Dec 2025 Por RENATO NUCCI JR.: O silêncio estratégico diante da ameaça imperialista revela um cálculo político que troca a solidariedade continental por uma frágil moeda de barganha
7
O desenho no limite –Flávio de Carvalho
28 Dec 2025 Por MARCELO GUIMARÃES LIMA: A "Série Trágica" de Flávio de Carvalho como um ponto limite do desenho, onde a arte registra a agonia e a morte com uma abordagem simultaneamente próxima e distanciada
8
Lucidez em tempos de ciência capturada
21 Dec 2025 Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR: O mal-estar na ciência capturada não é falha individual, mas índice social: é a experiência da alienação dupla descrita por Lukács, onde o pesquisador perde tanto o produto de seu trabalho quanto o tempo legítimo para pensar
9
A gênese estética do ódio
25 Dec 2025 Por RODRIGO LUCAS PEREIRA: Uma estética forjada nos quartos de classe média — entre cortes secos e xingamentos criativos — ensinou uma geração a odiar primeiro a cultura, depois a política, e, por fim, a democracia
10
O perigo da loucura
27 Dec 2025 Por PAULO GHIRALDELLI: Quando o pensamento se torna dogma pelo aplauso dos seguidores, a maior loucura é acreditar que ainda se está filosofando
11
Lumière – a aventura continua!
26 Dec 2025 Por FRANCISCO FOOT HARDMAN: Comentário sobre o documentário dirigido por Thierry Frémaux, em exibição nos cinemas
12
Malcolm X – legado de um revolucionário
25 Dec 2025 Por LUIZ BERNARDO PERICÁS: Uma trajetória de constante reinvenção, da marginalidade ao internacionalismo, cujo pensamento evoluiu do nacionalismo negro para uma luta global contra a opressão, unindo raça, classe e anticolonialismo
13
Acordo União Europeia-Mercosul: as razões da França
22 Dec 2025 Por LISZT VIEIRA: O temor de importar desmatamento e produtos com agrotóxicos proibidos une os camponeses franceses contra o acordo, visto como economicamente injusto e ambientalmente hipócrita
14
A economia política da estupidez
29 Dec 2025 Por SÉRGIO BOTTON BARCELLOS: Combater a estupidez exige mais que informação; requer uma reorganização política do tempo social, pois um sujeito exausto e hiperconectado não pensa — apenas reage, compartilha e obedece
15
Mudança de regime no Ocidente?
10 Apr 2025 Por PERRY ANDERSON: Qual é a posição do neoliberalismo no meio do atual turbilhão? Em condições de emergência, foi forçado a tomar medidas – intervencionistas, estatistas e protecionistas – que são anátemas para sua doutrina
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES