Por JIANG SHIXUE*
Em um cenário de competição global, o Uruguai ilustra como um país pequeno pode ampliar sua margem de manobra através de uma parceria estratégica e não alinhada com terceiros
1.
Apesar dos Estados Unidos mostrarem crescentes preocupações com o aprofundamento das relações entre a China e a América Latina, estas seguem avançando consistentemente. Nos próximos dias, a China estará recebendo o presidente uruguaio Yamandú Orsi, que chegou ao país no dia 1º. de fevereiro para uma visita de Estado de uma semana.
A visita marca um momento significativo em uma relação amplamente reconhecida como um modelo de cooperação Sul-Sul, baseada no respeito mútuo e em ganhos recíprocos entre um país grande e um pequeno. O presidente Yamandú Orsi é o primeiro líder latino-americano a visitar a China em 2026.
Como afirmou o presidente Yamandú Orsi em entrevista a um veículo de comunicação chinês, “a grande mansão da boa relação entre o Uruguai e a China não é construída em um dia… e cada acordo assinado e cada cooperação alcançada adiciona um novo tijolo ao edifício da relação”. De fato, desde o estabelecimento das relações diplomáticas, em 1988, os vínculos entre os dois países vêm sendo cuidadosamente cultivados, com dedicação e contribuições de ambas as partes.
Ao longo dos últimos 38 anos, as relações sino-uruguaias desenvolveram-se de forma constante e acelerada. Os dois países promovem intercâmbios em diversos níveis e apoiam-se e respeitam-se mutuamente nos assuntos internacionais. O governo uruguaio adere firmemente à política de “Uma só China”. Em 2001, foi estabelecida uma parceria definida como “relação de cooperação amigável de longo prazo, estável e mutuamente benéfica”. Em outubro de 2016, essa parceria foi elevada ao nível de “parceria estratégica” e, em novembro de 2023, avançou para o status de “parceria estratégica abrangente”.
As relações econômicas, em particular, avançaram de maneira notável. Quando os dois países estabeleceram relações diplomáticas, em 1988, o comércio bilateral era pouco superior a 100 milhões de dólares. Em 2024, esse volume alcançou 6,6 bilhões de dólares, com saldo favorável ao Uruguai.
A China exporta principalmente produtos manufaturados, uma vez que a indústria uruguaia é relativamente pouco desenvolvida, enquanto o Uruguai exporta produtos primários para o mercado chinês. Esse resultado de ganhos mútuos baseia-se nas vantagens comparativas e na complementaridade econômica entre os dois países. Atualmente, a China é o principal parceiro comercial do Uruguai.
Com base em um acordo cultural assinado em 1988, os intercâmbios culturais também se intensificaram de forma significativa. Companhias chinesas de acrobacia, ópera de Pequim, teatro de marionetes e outras artes performáticas apresentaram-se no Uruguai. Exposições como a “Exposição de pinturas camponesas chinesas” e a “Exposição sobre a história da civilização chinesa” foram realizadas no país. Ao mesmo tempo, artistas uruguaios de renome, incluindo guitarristas, pianistas e cantores líricos, foram convidados a se apresentar na China.
2.
Entre 1º de junho de 2025 e 31 de maio de 2026, titulares de passaportes ordinários do Uruguai – assim como do Brasil, Argentina, Chile e Peru – poderão entrar na China sem visto para fins de negócios, turismo, visita a familiares e amigos, intercâmbio ou trânsito, por um período de até 30 dias. Esse gesto amistoso da China certamente contribuirá para intensificar os intercâmbios entre os povos dos dois países.
Em 2026, o Uruguai exerce a presidência rotativa do Grupo dos 77 (G77) e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). A China mantém relações estreitas tanto com o G77 quanto com a CELAC. Nesse contexto, a presidência uruguaia tende a contribuir ainda mais para a diplomacia multilateral chinesa, especialmente porque o presidente Orsi já sinalizou sua intenção de utilizar essas plataformas para promover a integração regional e o multilateralismo.
É interessante observar que, em 15 de janeiro, forças norte-americanas no Mar do Caribe apreenderam outro petroleiro sancionado que, segundo a administração de Donald Trump, estaria ligado à Venezuela, como parte de um esforço mais amplo dos Estados Unidos para assumir o controle do petróleo do país sul-americano. Poucos dias depois, em 20 de janeiro, um navio-hospital da Marinha chinesa, em missão no âmbito da Harmonia 2025, chegou ao porto de Montevidéu para uma escala técnica de quatro dias, marcando a primeira visita de um navio da marinha chinesa ao Uruguai.
Enquanto os Estados Unidos confiscaram a propriedade de uma nação soberana, a China enviou um navio-hospital para promover intercâmbios amistosos com um país latino-americano. Não se trata de um contraste evidente?
Ainda assim, é importante ressaltar que a viagem do navio-hospital chinês havia sido planejada com vários meses, ou até um ano, de antecedência. Portanto, a visita não constituiu uma reação direta às ações dos Estados Unidos.
Como afirma o terceiro “Documento de política da China para a América Latina e o Caribe”, publicado em dezembro de 2025, “a relação China–ALC não visa nem exclui qualquer terceira parte, nem está subordinada a qualquer terceira parte. Ela atende aos interesses fundamentais de ambos os lados e está alinhada com a tendência do nosso tempo, caracterizada pela paz, pelo desenvolvimento, pela cooperação e pelo ganho mútuo em escala global”.
Espera-se que os Estados Unidos não obstruam o desenvolvimento das relações entre a China e a América Latina. Na realidade, o investimento e o comércio chineses na região também beneficiam os próprios Estados Unidos, uma vez que uma América Latina mais próspera tende a reduzir fluxos de migração ilegal e o tráfico de drogas em direção ao território norte-americano.
*Jiang Shixue é professor titular do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Estudos Internacionais de Sichuan.






















