A profissão de sociólogo

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Por ANDRE LUIZ DE SOUZA*

Comentários sobre o livro de Bourdieu, Chamboredon e Passeron

A obra A profissão de sociólogo (1968), de Bourdieu, Chamboredon e Passeron, preserva o “espírito científico”, propondo uma serie de técnicas e de rupturas epistemológicas para a exequibilidade do pensar sociológico. Com objetivo de estabelecer uma cientificidade à sociologia, os teóricos constroem uma crítica acadêmica em oposição à sociologia espontânea. Essa perspectiva epistemológica tem como introdução um novo olhar para as ciências sociais contemporâneas, forjando novos métodos e técnicas para reordenar o saber sociológico e as práticas de pesquisa no campo da sociologia, eliminado as falácias e técnicas ineficazes no pensar sociológico.

Para codificação do saber sociológico, por meio da construção de uma epistemologia que rompa com os elementos díspares da ciência, os autores elencam a ideia de ilusão da transparência. Para eles, o sociólogo nunca conseguirá acabar com a sociologia espontânea e deve se impor uma polêmica incessante contra as evidências ofuscantes que proporcionam, sem grandes esforços, a ilusão do saber imediato e de sua riqueza insuperável. (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 1999[1968]).

Os autores ressaltam que não basta denunciar a ilusão da transparência e criar meios capazes de romper com os pressupostos da sociologia espontânea. Conforme os teóricos, muitas vezes a dualidade da realidade obscurece as análises, mostrando ao pesquisador os resultados dos fatos somente daquilo que realmente vê, deixando de perceber os elementos complexos das coisas e de como ocorrem. Não é a descrição das atitudes, das opiniões e das aspirações individuais que tem a possibilidade de proporcionar o princípio explicativo do funcionamento de uma organização, mas a apreensão lógica e objetiva da organização é que conduz ao princípio capaz de explicar, por acréscimo, as atitudes, as opiniões e as aspirações (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 1999[1968]).

Nesse aspecto, o pesquisador fugirá da sua própria consciência valorativa, desvinculando-se de pretensões e de valorações. Para os pesquisadores, “o princípio da não-consciência impõe que seja construído o sistema das relações objetivas nas quais os indivíduos se encontram inseridos e que se exprimem mais adequadamente na economia ou na morfologia dos grupos do que nas opiniões e intenções declaradas dos sujeitos” (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 1999[1968], p. 29). Nesse sentido, o sociólogo deve se ater aos conceitos que são inerentes e evitar explicações alheias. Primar pelas análises sociológicas dos fatos, para evitar a ineficácia epistemológica, é condição necessária e objetiva em um sistema de relações objetivas, por isso, a sociologia pressupõe a superação da realidade fictícia.

Para Bourdieu, Chamboredon e Passeron (1999[1968]), a vigilância epistemológica impõe-se, particularmente, no caso das ciências do homem nas quais a separação entre a opinião comum e o discurso científico é mais imprecisa do que alhures […] a familiaridade do universo social constitui, para o sociólogo, o obstáculo epistemológico por excelência […] O sociólogo nunca conseguirá acabar com a sociologia espontânea e deve se impor uma polêmica incessante contra as evidências ofuscantes que proporcionam, sem grandes esforços, a ilusão do saber imediato e de sua riqueza insuperável. (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 1999[1968], p. 23).

Para os sociólogos, o poder da linguagem é de suma importância para serem analisados, pois, em muitos casos, torna-se um entrave para análise dos fatos. Ressalta-se que a linguagem comum é afastada de regras formais e isso pode gerar várias dúvidas e interpretações equivocadas, por meio do jogo das palavras. Para entender os fatos, há necessidade de se interpretar por meio de uma crítica epistemológica. Segundo os autores supracitados, não basta denunciar a ilusão da transparência e adotar princípios capazes de romper com os pressupostos da sociologia espontânea para acabar com as construções ilusórias que ela propõe. Assim sendo, estaria (sociólogo) reinterpretando os fatos e as diversas figuras de linguagem que apareceriam no/em determinado contexto, permitindo-se uma análise clara e coexistente com a realidade estudada dos fatos. Outrossim, o sociólogo deve submeter as palavras e as metáforas a uma crítica metódica, para evitar contaminações semântica.

Nessa perspectiva bourdieusiana, o sociólogo não pode ser um profeta, para atender à demanda de seu público e satisfazer a vontade de setores sociais, pois isso se limitaria à sociologia espontânea. Para questões científicas corretas, deve-se descartar a “política.” A tentação do profetismo, que embasa os anseios de pesquisadores, ilegítima o saber sociológico. A ciência sociológica não pode se apegar ao achismo social. Nas palavras dos autores, no cotidiano de cada indivíduo há “um pouco sociólogo”.

No entanto, eles enfatizam que, “quando o sociólogo se limita a tomar à sua conta os objetos de reflexão do senso comum e a reflexão comum sobre esses objetos, não tem mais nada a opor à certeza comum de que pertence a todos os homens falarem de tudo o que é humano e julgarem qualquer discurso, até mesmo científico, sobre o que é humano” (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 1999[1968], p. 36). Em outras palavras, “quanto menos consciente for a teoria implícita em determinada prática – teoria do conhecimento do objeto e teoria do objeto – maiores serão as possibilidades de que ela seja mal controlada, portanto, mal ajustada ao objeto e suas especificidades”. (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 1999[1968], p. 53).

Muitos sociólogos utilizam da demagogia para representações de sua pseudociência, para reafirmar aquilo que o seu público gostaria de ouvir. Bourdieu, Chamboredon e Passeron (1999[1968] citam Marx, ao argumentarem o seguinte: “Essas belas fórmulas literárias que, por meio de analogias, organizam tudo em tudo podem parecer engenhosas quando as ouvimos pela primeira vez, tanto mais que chegam a identificar coisas contraditórias entre si. Quando são repetidas, com presunção, como se tivessem um alcance científico, revelam-se simplesmente idiotas”. (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 1999[1968], p. 38).

Nesse sentido, todo sociólogo deve combater em si o profeta social que há no seu interior e retirar a máscara para forçar uma ruptura epistemológica. Esse paradigma epistemológico fará uma ruptura científica, para reconstrução do objetivo e do objeto cientifico das Ciências Sociais.

Parafraseando os autores com relação ao objeto da ciência, não é possível dissociar da prática metodológica a noção de objetos reais pré-construídos. O pesquisador na vida deve operar com ideologias e objetos de análise que sejam efetivamente questionáveis. Entretanto, nunca deixa de ser a reelaboração indefinida dos elementos teóricos artificialmente extraídos de um corpo escolhido de autoridades (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 1999[1968], p. 40).

Em muitos casos, o sociólogo desenvolve suas pesquisas conforme a tradição teórica vem abordando, deixando de lado alguns temas relevantes para construção do saber sociológico. A ruptura com essas atitudes romperia com a sociologia espontânea. E o sociólogo nunca pode perder de vista a parcialidade de suas análises: a apreensão total da realidade social é uma epifania, um desejo que se não é mal intencionado é ingênuo.

*Andre Luiz de Souza é doutorando em sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

 

Referência


BOURDIEU, P.; CHAMBOREDON, J. C; PASSERON, J. C. A profissão do sociólogo: preliminares epistemológicas. Petrópolis, Vozes, 1999.

 

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