Por SERAPHIM PIETROFORTE*
A demonização do brinquedo Labubu revela o mecanismo semiótico que, historicamente, transforma o diverso em ameaça para legitimar a exclusão de minorias
Alguns colecionam selos, outros juntam moedas… muitos se distraem com figurinhas, latas de cerveja… antigamente, havia colecionadores de tampinhas de refrigerante, maços de cigarros… atualmente, coligem-se cards, cartas de RPG, Toy Art etc. Quase tudo se presta a coleções… eu, entre livros, CDs e DVDs, costumo reunir bonecos, próximos da Toy Art, feito funko pop, bobblehead e similares. No caso do Labubu, entretanto, terminei conhecendo o brinquedo mediante o fanatismo de algumas seitas religiosas, caracterizadas por demonizar quase tudo, inclusive bonecos inofensivos; em vista disso, compensa analisar, brevemente, os alcances de paranoias assim, cujas raízes e malefícios se colocam além da simples confusão de religiosos, no mínimo, mal-informados.
Algumas figuras de linguagem
Certamente, a figura de linguagem mais conhecida é a metáfora; quase todos se lembram da costumeira utilização de uma palavra por outra, justificada por relações de semelhança entre seus significados. Dessa maneira, um “porco fascista” não é um suíno, mas, por refestelar na “lama” da humanidade – outra metáfora –, aproxima-se deles; quem parece “burro” por pagar dízimos a pastores salafrários não é um equino, todavia, por carecer de pensamento crítico, comporta-se como tal; “ratos” nazistas não se classificam entre roedores, contudo, chilreiam em palanques; deputados de direita, nos “charcos” do congresso, tornam-se “sapos”, coaxando em declarações insensatas… as figuras de linguagem, porém, não se resumem a metáforas. Há, entre elas, rimas, aliterações, assonâncias, características não do significado, mas da expressão fonológica, própria das línguas naturais; existem, ainda, modos de aproximar significados distintos por meio de expressões fonológicas semelhantes, como faz a paronomásia, por exemplo Labubu, o nome de um boneco de pano simpático e inofensivo, com Pazuzu, um demônio criado num romance sofrível e celebrizado num filme ainda pior.
O termo paronomásia deriva do grego: “para”, que significa “ao lado de” – o mesmo prefixo de paranoia, paralelo, parábola etc. –, anteposto a “onomasía”, isto é, “nomeação”. Trata-se, portanto, de aproximar significados distintos, colocando, lado a lado, significantes semelhantes, por exemplo: (1) luxo / lixo, feito no poema de Augusto de Campos; (2) jeito / Jânio, do slogan político de Jânio Quadros; (3) Labubu / Pazuzu, conforme a relação, algo demencial, entre um bonequinho bem-encarado e um suposto demônio.
A semiótica dos demônios
Quem estuda religiões comparadas percebe, prontamente, que, em regra, os demônios de determinado credo se revelam caricaturas derivadas de outras religiões. Pretende-se, com essa retórica, afirmar, evidentemente, sistemas de valores em detrimentos de outros sistemas; dessarte, não faltam, na história das religiões, exemplos desse procedimento: (1) em Paraíso perdido, de Milton, logo no primeiro canto, depois da edificação do Inferno, quando os anjos caídos ocupam o novo lugar, o poeta afirma, explicitamente, que muitos deles seriam os futuros deuses pagãos, feito os deuses egípcios, gregos e romanos; (2) a figura de Satã, com suas pernas e cascos de bode, inspira-se nos faunos e sátiros da mitologia grega; (3) o famigerado Pazuzu, antes de se tornar o demônio d’O exorcista, pertence do panteão Assírio, reinando sobre os ventos.
Dessa forma, tais permutas constituem, na ressignificação promovida, uma semiótica característica do discurso religioso; cabe indagar, contudo, nas transformações, quais seriam, além da conversão de demônios em deuses e vice-versa, os demais valores envolvidos. Para prosseguir, compensa recorrer a outros demônios, entre eles, Astaroth, Belfegor e Baal; eis a imagem do primeiro (figura 1), colhida no Dictionary of demons, de Fred Gettings, e da deusa fenícia Astarte (figura 2), deusa do amor e da fertilidade, de quem seu nome deriva:


Ora, paralelamente à transformação fonológica do nome da entidade – Astarte > Astaroth –, há transformações semânticas; no caso, notam-se, além da demonização da deusa, pelo menos, duas: (1) do feminino para o masculino – na imagem, Astaroth figura como homem –; (2) introdução de valores homoeróticos – ainda na imagem, o demônio parece sodomizar o dragão, sua montaria –. Consequentemente, demoniza-se não apenas uma divindade de outra religião; estende-se, nesse processo, a depreciação às mulheres e à homoafetividade, reduzida, no caso, apenas ao coito anal.
Para prosseguir, eis os próximos demônios, Belfegor (figura 3) e Baal (figura 4):


Dessa vez, não se percebem apenas transformações semânticas; enfatizam-se, nas duas imagens, as faces dos então demônios, incrivelmente semelhantes às caricaturas de judeus, conforme se verifica neste cartaz do filme O eterno judeu, 1940, do nazista Joseph Goebbels:

Evidentemente, não se busca por derivações etimológicas, como no caso de Astarte > Astaroth; dessa vez, cuida-se da insistência em uma caricatura, recorrentemente associada aos judeus, buscando, então, relacioná-los a práticas demoníacas, heréticas, enfim, práticas anticristãs, conforme se faz com mulheres, homossexuais e demais grupos socialmente minoritários, aliás, até os dias de hoje.
Quem teme os Labubus?
Aparentemente, a demonização de um bonequinho inofensivo e, inclusive, acolhedor, soa bizarra, para não dizer, um tanto idiota. Todavia, ela não ocorre isoladamente; nas seitas cristãs, abundam fanáticos vociferando contra o Homem Aranha, o Ken e a Barbie, a Frozen, como, antigamente, ladravam contra os Smurfs, Pokémon, Yu-Gi-Oh!, Ozzy Osbourne ou Marilyn Manson. Isso, para quem reflete, não passa de estupidez… contudo, quando boa parte da humanidade compactua com ideias afins, associando judeus, mulheres e homossexuais a demônios, surripiando-lhes os bens, desrespeitando seus direitos e condenando-os a torturas indescritíveis, seguidas de mortes medonhas, quaisquer demonizações, seja contra o Labubu seja contra o Cebolinha, tornam-se preocupantes.
Na semiótica dos demônios, mencionada no item anterior, demonizar não significa apenas definir um panteão da maldade, formado por personificações das crueldades humanas; refere-se, ainda, a ressignificar ideologias contrárias, associando seus temas, figuras e expressões àquele conjunto. Dessa maneira, quem se contrapõe deve, não apenas, ser eliminado, mas é mister que se transforme em desordem, vício, rebelião. Nessas circunstâncias – quer dizer, na repressão às mulheres e aos homossexuais ou no antissemitismo –, parece evidente o quanto tal demonização se torna letal; cabe indagar, porém, por que tanta indisposição com um colecionável.
Para prosseguir, compensa saber quem compra Labubus. No universo paralelo em que meninos vestem azul e meninas vestem rosa, apenas quem veste rosa busca pelos Labubus; presumivelmente, as mulheres – no caso, as mulheres jovens – continuam, semelhantemente às bruxas de antanho, relacionando-se com demônios, seja em sabás seja mediante um brinquedo. Em vista disso, buscando por semióticas afins, verifica-se que, no universo pop, tanto no cinema quanto em histórias em quadrinhos, as meninas permanecem vítimas de abusos e perseguições ao entrarem na puberdade, isto é, a idade em que seus poderes se manifestam: (1) no cinema, vale lembrar as versões de Carrie, a estranha, inspiradas no romance de Stephen King; (2) nas HQs, quando Jean Grey, membra dos X-Men, transforma-se na Fênix. Ora, os poderes incríveis das duas moças expressam, hiperbolicamente, o empoderamento de adolescentes ao se transformarem em mulheres adultas; nos dois exemplos, como em diversos casos, inclusive criminais, a solução é letal.
Sabe-se que, em diversas religiões, as mulheres mais jovens se rebelam, frequentemente, contra costumes restritores da liberdade; haja vista: (1) a recusa de jovens judias a cortar os cabelos e substituí-los por perucas; (2) a renúncia das moças muçulmanas em cobrir o rosto e os cabelos; (3) a emancipação sexual das garotas católicas e demais seitas cristãs. Nesse contexto, em que fatos pueris, feito cortar ou cobrir os cabelos, tornam-se tão significativos, gerando repressão e revolta, não causa espanto proibir brincadeiras inocentes com monstrengos, na maioria das vezes, mais agradáveis que padres e pastores.
O Labubu visita a faculdade
Sou professor universitário, por isso meus alunos se encontram, predominantemente, entre 18 e 25 anos… faz alguns meses, uma mocinha me interpela, ao final da aula, buscando por bibliografia para o seguinte trabalho, desenvolvido por ela em outra disciplina: uma comparação entre os discursos das deputadas federais Érica Hilton, do PSOL, e Bia Kicis, do PL – respectivamente, um partido de esquerda e outro de direita –. Para se iniciar em análise do discurso, recomenda-se comparar ideias adversas, independentemente do campo discursivo considerado, afinal, entre concepções avessas e discrepantes, as diferenças linguísticas e semióticas se destacam, facilitando a aprendizagem; sugeri, então, a leitura de Gênese dos discursos, de Dominique Maingueneau, em cujos capítulos se cuidam, precisamente, de comparações assim.
A sugestão se estende aos leitores… entre outras lições da análise do discurso, compensa lembrar da constituição polêmica da linguagem, mediante a qual se consideram quaisquer juízos, não à luz de supostas verdades, mas na encruzilhada de conceitos contrários e contraditórios, em que eles se formam. Pois bem, quando minha aluna se voltou em direção à porta, para sair, notei, pelo menos, dois Labubus, presos na mochila; eles, dialogando entre si, têm, certamente, mais a dizer que o consenso dos inquisidores.
*Seraphim Pietroforte é professor titular de semiótica na Universidade de São Paulo (USP). Autor, entre outros livros, de Semiótica visual: os percursos do olhar (Contexto). [https://amzn.to/4g05uWM]
Bibliografia
MAINGUENEAU, Dominique (2008). Gênese dos discursos. São Paulo: Parábola editorial.
GETTINGS, Fred (1988). Dictionary of demons. Londres: Trafalgar Square.





















