A voz da saga

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Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO*

Prefácio do livro “Melhores contos”, de João Guimarães Rosa

Para aumentar a compreensão e a fruição do leitor, os contos organizam-se neste volume conforme as linhas mestras mais características da obra de Guimarães Rosa. São elas: a metalinguagem, a perquirição do Outro, o humor e a progressão do narrador. Mas todos os contos acham-se interligados pela constância do espaço – o sertão –, bem como pela busca da oralidade: os melhores contos se oferecem como “falas” (escritas, é claro) dirigidas ao leitor.

Sem esquecer a combinação muito particular engendrada entre a fala sertaneja e a erudição do poliglota ao nível vocabular e sintático, recuperando arcaísmos e regionalismos, adaptando estrangeirismos e cunhando neologismos.

Às vezes, tais linhas podem se superpor pelas fímbrias, ou deslizar em parte, quando alguns dos contos que discutem linguagem também estão construindo o narrador, assim como outros de acentuado humor podem enveredar pela investigação do Outro. É sobretudo, como se verá, uma questão de ênfase.

A vocação do autor para a transgressão revela-se em muitas instâncias. Transgride vários códigos, a começar pelo linguístico, em verdadeira campanha contra o lugar-comum e as ideias feitas. Mas também é de seu agrado transgredir as convenções sociais e o conformismo, alvos prediletos de suas elucubrações.

Não pode faltar uma menção à sua capacidade quase infinita de criar enredos que não se repetem. A elaboração mitopoética preside a um vigor de fabulação que surpreende o leitor pela exuberância. Tudo se passa como se o sertão fosse o espaço onde uma infinitude de estórias – a saga – corre solta.

A metalinguagem

Para começar, e por sua posição de alicerce ao longo de toda a obra, chama a atenção o trabalho metalinguístico desse poliglota precoce, interessado em conhecer os mecanismos de funcionamento das línguas.

Inventor e inovador de linguagem, o autor não só inventa e inova: a reflexão sobre ela está disseminada por toda a obra – o que fundamenta seu cunho metalinguístico. Não se restringindo à lexicogênese, estende-se ao ato de narrar e às formas da narrativa. Já de saída, em seu primeiro livro, publica “São Marcos”, “uma ode à energia pulsante das palavras, que tanto exorcizam as potências das trevas quanto ostenta seu próprio canto e plumagem”, conforme afirma.

“Desenredo” é montado como uma detonação de clichês verbais em sequência, em que o entrecho, que já é anticlichê, se expressa por assim dizer no vivo do discurso, desengatilhando chavões e preconceitos mediante provérbios desconstruídos, virados do avesso. Já “Famigerado” vai lidar com a delicada semântica de uma única palavra, da qual depende a honra de um jagunço – num lance, aliás equivocado e derrisório, de vida ou morte.

Fora desta seleção, o trabalho metalinguístico atinge um ponto máximo quando o autor discute exclusivamente linguagem nos quatro prefácios de Tutameia, onde uma de suas obsessões se desvencilha da ficção e diz ao que veio. O ato de narrar suscita reflexões com frequência, como em Grande sertão: veredas, em que é ferramenta para o narrador investir-se como protagonista e construir a narrativa.

E nas sete “novelas” de Corpo de baile observa-se sutil variação nas questões relativas à metalinguagem, processo culminando em “Cara-de-Bronze”. Ali, o vaqueiro Grivo sai a percorrer e inventariar o mundo, regressando para relatar ao patrão “o quem das coisas” – que muitas vezes reside em enumerações de seus nomes.

O Outro

A perquiricão do diferente, em vasta gama, encontra-se em toda a obra de Guimarães Rosa, sempre com aberta empatia, querendo entender, visando desmanchar estereótipos, insinuando a tolerância e a solidariedade. Esse diferente pode ser o estrangeiro, o cigano, o índio, a mendiga, a assassina, o louco e o santo, o mandão e o capanga, a esposa errática, o rufião, a donzela-guerreira, o trapaceiro, mas pode ser também a criança e o bicho.

Neste volume, podem ser apreciados os contos “Orientação”, com um chinês; “Faraó e a água do rio”, com ciganos; “A menina de lá”, com uma criança; “As garças” , com aves; “Meu tio o iauaretê”, com índios e onças. Quanto aos bichos, eis seu veredicto: “Amar os animais é aprendizado de humanidade”.

A frase consta de um dos vários “Zoos” de Ave, palavra, em que este fino observador da fauna procura encontrar equivalentes verbais para todo um bestiário. Pede destaque “Orientação”, que põe em confronto sob o signo de Eros um chinês extraviado no interior e uma sertaneja, destilando seu travo picante do contraste entre eles, examinando a diferença em seu poder transformador, inclusive linguístico. Impregnando até os sinais gráficos: são tão incongruentes ambos quanto “til no i, pingo no a”. Quanto à indisputável obra-prima que é “Meu tio o iauaretê”, será examinada no final, sob o tópico do narrador.

Fora desta seleção, encontram-se muitos outros contos com tais personagens : “Cipango”, com japoneses; “Uns índios, sua fala”, cujo título já diz tudo; “O cavalo que bebia cerveja”, em que a incompreensão e a intolerância para com um estrangeiro serão revertidas; “A benfazeja”, que põe em cena uma mendiga guia de cego, que mal sabe falar, já quase se despojando da humanidade, a quem o vilarejo sem misericórdia atribui atrocidades.

E quando falamos em crianças na obra de Guimarães Rosa, logo lembramos de Miguilim (Corpo de baile), em que ocorre uma completa identificação, devida ao ponto de vista, com a sorte de um menino míope, desnorteado entre as paixões dos adultos, cujas reverberações o atingem sem que ele as compreenda.

Quanto aos animais, célebre entre todos é o “O burrinho pedrês”, no qual o protagonista é o mais humilde dos integrantes de uma condução de boiada, atalhada por uma enchente onde quase todos se afogam. Salvam-se apenas duas pessoas pelas quais o burrinho é pessoalmente responsável, uma que o cavalga e outra que se agarra a sua cauda.

Mas outros estão sempre aparecendo na obra deste escritor que amava os gatos, a exemplo das onças objeto de detalhadas reflexões em “Meu tio o iauaretê”, nesta antologia, ou até mesmo das cobras, uma em “Como ataca a sucuri” e outra em “Bicho mau”. Já nem falamos em bois e cavalos, viventes do sertão, que são amorosamente descritos e louvados ao longo de toda a obra.

Humor

Pouco reconhecida é a veia humorística de Guimarães Rosa, que escreveu algumas das coisas mais cômicas de nossa literatura.

Ao parodiar o vetusto modelo bíblico da parábola do filho pródigo, “A volta do marido pródigo” envereda pelo picaresco. Seu heroi, Lalino Salãthiel, é um trickster, misto de Pedro Malazarte, Macunaíma e Saci, capaz das piores malandragens, sempre visando à sobrevivência. Num lance de exemplar ignomínia, vende a esposa e depois a recupera sem despesa mediante tramóias. Modelo de jogo de cintura, é um pobre-coitado que procura não submergir na miséria e na anomia, servindo de peão nas politicagens dos coroneis do sertão.

“Os irmãos Dagobé” explora a linguagem, enquanto zomba, de modo não cáustico mas até indulgente, dos valentões do interior, mostrando como são vulneráveis. “O porco e seu espírito” mistura com benevolência pecados capitais como a gula, a inveja, a soberba e a ira, que incidem nas relações entre dois vizinhos, um próspero e o outro carente.

“Darandina” narra um dia que se tornaria histórico numa cidadezinha mineira, salvando-se da modorra habitual quando de repente um homem sobe numa palmeira na pracinha e tira a roupa, desencadeando uma série de reações que vão comprometendo a coletividade. A tal ponto que o pacato burgo, quando menos espera, vê-se imerso num clima de insurgência generalizado. É anárquico e jubiloso, regozijando-se na anarquia.

Num mundo subitamente de cabeça para baixo, “-Tarantão, meu patrão…” relata uma extraordinária cavalgada dos insensatos, reunindo os limítrofes, os excêntricos e os desajustados. Predominam a vocação para a farsa, o grotesco, o grão de insânia que eclode em meio à pasmaceira do cotidiano e dá acesso ao universo do poético.

O narrador

Finalmente, o último bloco contempla o trabalho com o foco narrativo, trabalho que desempenhou papel fulcral no desenvolvimento da obra de Guimarães Rosa. Ainda canhestro de início, foi-se requintando extraordinariamente até atingir o auge em textos como Grande sertão: veredas ou “Meu tio o iauaretê”.

A bem da análise, montou-se aqui um continuum para expor a gradação do trabalho do narrador, cancelando a cronologia, para deixar claro o grau de aproximação ou distanciamento do foco narrativo.

Num dos extremos, o narrador aparece identificado com o autor, na primeira pessoa do discurso direto, o que seria a forma mais rudimentar de mostrá-lo. É o que acontece, por exemplo, em “Corpo fechado” e em “Famigerado”, mais em “Darandina” ou menos em “São Marcos”, em que um médico procedente da cidade se relaciona com os nativos, que pedem ajuda ou conselho como a uma autoridade – a ele, homem de ciência, senhor da palavra.

Vemo-lo não ficcionalizado num dos prefácios de Tutameia, falando de seu xará o vaqueiro Zito, que era guieiro, cozinheiro e poeta, companheiro na condução da boiada. É o Autor sem disfarces, prestando atenção e anotando. No outro extremo da gradação, refinadíssimo e obscurecendo cada vez mais esse interlocutor até silenciá-lo, em Grande sertão: veredas ele desaparece e emudece, só sendo mencionado no discurso direto do narrador-protagonista como um doutor de óculos que veio da cidade, escreve numa caderneta e instiga a narração.

Mas entre esses dois extremos – o narrador em primeira pessoa que é fonte da narrativa e o interlocutor que mal disfarça o médico culto do interior –, outros surgem, e é uma grande proeza do autor ter chegado à constituição de um narrador coletivo em terceira pessoa oriundo do sertão, que se autonomeia coloquialmente como “a gente”, ao mesmo tempo em que constroi a verossimilhança com o espaço que elegeu para desenrolar sua obra. Este narrador torna-se cada vez mais fluido e por assim dizer natural.

Guimarães Rosa avança mais um grau ao criar um narrador que não é personagem autônoma, ou melhor, que se perde no plural. O leitor pode, por hipótese, imaginar que se trata de uma adaptação da posição do corifeu da tragédia ática que, sem ser personagem, mas apenas liderando o coro, comenta os eventos que decorrem ali na cena, assumindo o ponto de vista da polis. Assim nosso autor transpõe um elemento do gênero dramático para o gênero épico.

Aqui neste volume um exemplo pleno é “Soroco, sua mãe, sua filha”, em que um narrador-observador-participante está presente e incluído na cena mas não se distingue da coletividade, falando em nome de “a gente”. Já em “A hora e vez de Augusto Matraga” a voz em terceira pessoa não pertence a um narrador presente na cena, mas a uma espécie de voz da saga, que veicula a intriga, como testemunha não dos acontecimentos mas já da história que se constituiu com o passar do tempo e de que ele é mero porta-voz.

Em “A terceira margem do rio”, que fala do desaparecimento do pai, é seu filho quem fala, em seu nome e no nome da família, dizendo “nós” e “nosso pai”, pois é da sucessão das gerações que o conto trata. Em “Meu tio o iauaretê” o narrador dá um salto quase mortal e cria o mais complexo dos focos narrativos, misturando no discurso direto do narrador o português, o tupi e uma espécie de linguajar animal com onomatopeias de ruídos e rugidos de onça.

Tudo isso enquanto faz uma meditação sobre a tragédia que é a destruição de civilizações, com base no genocídio que predominou nesta parte do mundo, sem fim à vista até os dias de hoje.

Finda a leitura desta seleção, o leitor, em estado de graça, pode ficar satisfeito por ter realizado uma jornada pelo que de melhor existe em ficção de língua portuguesa.

*Walnice Nogueira Galvão é professora Emérita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Lendo e relendo (Sesc/Ouro sobre Azul). [amzn.to/3ZboOZj]

Referência


João Guimarães Rosa. Melhores contos. Seleção e Prefácio: Walnice Nogueira Galvão. São Paulo, Global Editora, 2020, 238 págs. [https://amzn.to/48b5u4u]


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