Agências norte-americanas e ascensão do neoliberalismo – parte 7

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Por EMILIANO JOSÉ*

Os think tanks nadam em dinheiro para desenvolver avaliações, subsidiar movimentações destinadas a garantir o domínio dos EUA, para assegurar a hegemonia cultural e política desse império em decadência, mas ainda com inegável força militar

1.

Os centros de pensamento norte-americanos, cuja atividade divide-se entre a formulação teórica em defesa do neoliberalismo, de modo particular, nesse caso, voltado à América Latina, e a ajuda, colaboração direta aos golpes de variada natureza levados a cabo pelos EUA no continente, estão longe de serem organizações acadêmicas, interessadas no conhecimento da realidade. Muito longe.

A última entrevista do documentário dirigido por Bob Fernandes foi com o norte-americano Nick Cleveland-Stout, pesquisador associado do Programa Democratizando a Política Externa do Instituto Quincy para a Governança Responsável, em Washington, e bolsista da Fundação Fulbright na Universidade Federal de Santa Catarina, onde realizou pesquisas sobre as relações Brasil-EUA, com foco particular na influência de think tanks americanos no Brasil.

Nick Cleveland-Stout, na entrevista, tenta dissecar como atuaram as agências norte-americanas, os think tanks, no Brasil, com vistas à chamada “abertura da economia”, e por tal formulação, leia-se a intervenção para a entrada das empresas dos EUA no Brasil, naquele momento, época do governo de Dilma Rousseff, abertura, para manter o termo, especialmente interessada no petróleo. Ele inicia, ao responder às perguntas de Bob Fernandes, destacando a intervenção de dois think tanks: Atlantic Council e Wilson Center.

O primeiro, creio já ter dito, se o fiz, reitero, nasce em 1961. Gerencia dez centros regionais e programas relacionados ao que chama “segurança internacional” e “prosperidade econômica global”, e está sediado em Washington. Diria: segurança internacional quer dizer a segurança do imperialismo norte-americano. E prosperidade econômica deve rimar com livre comércio, e este, de modo a favorecer os EUA, obviamente.

No início, preocupa-se com as relações entre o Estado norte-americano e o continente europeu, mas depois se desdobra para atuação em outros países, e mais recentemente teve importância na intervenção sobre o Brasil, de acordo com Nick Cleveland-Stout. Talvez seja redundante dizer, mas digo: o Atlantic Council mantém relações de absoluta intimidade com o Estado norte-americano.

Em fevereiro de 2009, James Jones, então presidente do Conselho, deixou o cargo e passou a ser conselheiro de segurança nacional do presidente Barack Obama. Outros membros do Atlantic Council deixaram-no para servir ao governo dos EUA. Susan Rice foi embaixadora na ONU, Richard Holbrooke tornou-se Representante Especial para o Afeganistão e Paquistão e Anne-Marie Slaughter será Diretora de Planejamento de Políticas do Departamento de Estado, para lembrar alguns. Tais movimentações falam por si.

2.

Voltemo-nos agora ao Wilson Center. Sediado também em Washington, o Woodrow Wilson International Center for Scholars, pretende-se como todos os think tanks organização apartidária. Nasce de iniciativa do Congresso norte-americano, em 1968, como um memorial a Woodrow Wilson, 28º. presidente dos EUA.

Woodrow Wilson destacou-se por liderar o país durante a Primeira Guerra Mundial. Na Universidade de Princeton, onde foi presidente de Jurisprudência e Economia, e mais tarde, presidente da instituição, trabalhou para manter os negros, afro-americanos, fora da escola. Sulista, impôs a segregação racial generalizada na burocracia federal e se opôs ao voto feminino. Sofreu críticas de conservadores por expandir o Estado e elogiado por estabelecer o chamado liberalismo moderno. Governou o país de 1913 a 1921.

Esses dois centros de pensamento, já com tradição, alguma longevidade, nos anos recentes, cobertos pelo documentário dirigido por Bob Fernandes, trabalharam muito na América Latina. O pesquisador Nick Cleveland-Stout assegura: remuneraram pessoas para produzirem relatórios sobre petróleo no Brasil, estudos sobre a Petrobras, na esteira de um óbvio processo de desestabilização do governo da presidente Dilma Rousseff, cujo desfecho foi o impeachment dela.

O golpe contra Dilma Rousseff teve, participação, aberta ou não, desses think tanks. Como já se viu, tais centros de pensamento subsidiavam os golpes, davam argumentos, sustentação teórica a eles. A essência de tais relatórios era defender uma “economia aberta” em contraposição ao que vinha acontecendo no Brasil, na visão dos EUA e daqueles centros de ideias, uma economia fechada, contra a expansão das multinacionais, ou ao menos expansão do modo como pretendiam o governo norte-americano e outros países capitalistas.

Os relatórios, conforme Nick Cleveland-Stout, acentuavam: a Operação Lava Jato abria uma ampla janela de oportunidades para que a Petrobras viesse a ter uma participação menor no pré-Sal brasileiro e não deixavam de insistir no obstáculo representado pela presidenta Dilma Rousseff. Tais relatórios, de acordo com ele, não defendiam abertamente o impeachment dela.

Não custa insistir, dar ênfase à afirmação do pesquisador: a Operação Lava Jato abriu uma janela de oportunidades para o ataque aos mananciais petrolíferos brasileiros, evidenciados quando da descoberta do pré-Sal. Nunca foi uma iniciativa destinada a combater a corrupção, como se alardeou durante bom tempo, sob a cumplicidade ativa da mídia empresarial brasileira.

Articulada por Sérgio Moro, portas abertas para a participação dos EUA, cujos objetivos de domínio sobre a economia brasileira, de modo especial, sobre o petróleo, foram devidamente atendidos, como se comprovou na sequência. Os relatórios tomavam o cuidado de falar apenas da economia, do modelo econômico necessário para favorecer ao capital internacional, de modo especial aos interesses norte-americanos.

3.

O fato: nessa esteira, e nisso não há inocência, Dilma Rousseff sofre um golpe, denominado impeachment. Os cuidados não conseguiam disfarçar o quanto eles serviam à trama golpista em andamento no Brasil, fruto da atividade de classes dominantes locais submissas e entreguistas, das gigantes do petróleo, do próprio Estado norte-americano.

Insista-se: esses centros de pensamento contavam também com brasileiros, interessados na entrega das riquezas nacionais, de modo especial, entrega do petróleo. Pedro Parente, um deles, na visão do pesquisador. Presidente da Petrobras entre maio de 2016 e junho de 2018, exatamente sob o governo de Michel Temer, um dos articuladores do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, e principal beneficiário dele porque alçado à presidência.

Segundo Nick Cleveland-Stout, Pedro Parente chegou a proferir palestra no Wilson Center e a participar de vários encontros daquele centro. Vendedores da pátria são antigos, embora atualmente tais traidores da nação se apresentem de modo menos recatado, e nem sequer buscam qualquer roupagem teórica, até por impossibilidade, por falta de formação, linhagem familiar.

No trabalho de pesquisa em torno da atuação desses centros de pensamento, Nick Cleveland-Stout procurou entender de onde procedem as contribuições para a existência deles, concentrando-se nos cinquenta maiores. Bob Fernandes, na entrevista, quer saber qual o montante de dinheiro que tais think tanks movem, ao menos o volume movimentado pelos cinquenta pesquisados. O pesquisador não tem à mão o valor. Sabe, isso sabe, ser muito alto. Alguns deles têm em caixa, cada um, mais de 100 milhões de dólares anuais.

Não custa insistir: esses think tanks nadam em dinheiro para desenvolver avaliações, subsidiar movimentações destinadas a garantir o domínio dos EUA, para se possível assegurar a hegemonia cultural e política desse império em decadência, mas ainda com inegável força militar, nesse momento exibida de forma truculenta, como o demonstram sucessão de ações, como o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da mulher dele Cília Flores e o ataque ao Irã, a indicar tanto demonstração de força como, também, a diminuição de poder, em amplo sentido.

4.

Na pesquisa, Nick Cleveland-Stout pretendeu compreender, entre tantos aspectos, como se articulavam esses think tanks e o Estado norte-americano, necessariamente imbricados. Recursos do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa jorram abundantemente para garantir a existência deles, e nada disso ocorre por acaso. E esse movimento, naturalmente, desmonta quaisquer argumentos destinados a suavizar, edulcorar a atuação de tais think tanks, revesti-los de roupagem acadêmica, dar-lhes qualquer natureza de imparcialidade.

Interessante, também, a relação deles com a indústria armamentista, e isso também retira qualquer perspectiva de serem centros de estudos interessados na paz mundial. Muito ao contrário. Nick Cleveland-Stout afirma, sem rodeios: a indústria bélica joga muito dinheiro nas mãos dos think tanks.

Localizou a doação de 35 milhões de dólares nos últimos cinco anos para garantir a atuação deles. O Atlantic Council, por exemplo, nas contas do pesquisador, recebe algo em torno de 3 a 4 milhões de dólares a cada ano da indústria bélica.

Quando Nick Cleveland-Stout fala de indústria bélica, refere-se às maiores empresas de defesa dos EUA. Como a Lockheed Martin Corporation, a maior empresa de defesa e aeroespacial do planeta, surgida em 1995 como resultado da fusão da Lockheed Corporation e a Martin Marietta.

Com mais de 100 mil funcionários, a Lockheed Martin Corporation projeta e fabrica aeronaves, como o F-22 e F-35, mísseis, radares e sistemas de defesa. Em torno de 95% do orçamento dela são provenientes do governo norte-americano e de aliados, uma relação absolutamente privilegiada, e certamente vivendo uma espécie de idade de ouro, decorrente do impulso de Donald Trump de ir à guerra, gastar o que não pode para destroçar soberanias mundo afora, como vem fazendo de modo crescente e assustador, aproximando-nos da possibilidade de uma conflagração planetária, da Terceira Guerra Mundial.

Quer falar, ainda, da Raytheon, ela também uma das maiores empresas de defesa e aeroespacial do mundo, par e passo com a Lockheed Martin Corporation. Especializada em mísseis, sistemas de defesa antimíssil, radares e soluções avançadas de sensores. É também fornecedora privilegiada do Departamento de Defesa dos EUA.

É parte da RTX Corporation, formada pela fusão da Raytheon Company com a United Technologies, ocorrida em 2023. Vamos nos entendendo: um amplo leque de interesses cerca os centros de pensamento, os famosos think tanks. O complexo industrial-militar dos EUA dá suporte à existência deles, e quanto mais se ocorre numa quadra de desenvolvimento de uma conjuntura voltada ao armamentismo, como a atual – o dinheiro flui de maneira mais tranquila e abundante. A paz, ora a paz…

5.

Quer se referir, ainda, à Northrop Grumman, outra gigante multinacional da área, constituída em 1994, também conhecida por desenvolver tecnologias militares sofisticadas, de ponta, incluindo bombardeiros furtivos, como o B-2 Spirit. Agrega coisa de 100 mil funcionários, atua em sistemas espaciais, aeronáutica e defesa, incluindo defesa cibernética. Fornece serviços para mais de 25 nações. A guerra, como se vê, é um dos melhores negócios do mundo, como sempre foi.

As empresas bélicas, com imensa capacidade tecnológica, linha de frente da indústria da guerra, da morte, são parte privilegiada do Deep State norte-americano, talvez a principal. Nas últimas horas, a imprensa mundial, de modo especial a brasileira, comemora a ação do Mossad e da CIA, valendo-se da inteligência artificial, dos mais sofisticados meios tecnológicos, para localizar Ali Kamenei, e assassiná-lo, mais um alvo atingido com precisão, como comemoram os EUA, Israel, e a mídia mundial e nacional.

Independentemente da ultravalorização, superestimação do trabalho dos serviços de inteligência, de muitas fake news embaladas em roteiros cinematográficos, é verdadeiro o desenvolvimento acelerado da indústria armamentista, agora robustecida pela inteligência artificial. Entre os anos de 2025 e 2026, cresceram vertiginosamente, com destaque para os setores de defesa e aeroespacial, não por acaso.

Tais empresas, com o impressionante arsenal tecnológico delas, dão sustentação teórica e prática à política do imperialismo norte-americano, nessa quadra, de realizar operações rápidas, nem por isso menos letais e menos sangrentas, sem a necessidade de realizar movimentações massivas por terra.

Nas guerras pelo chão, historicamente, os EUA têm sido condenados a derrotas humilhantes. Dois exemplos: o do Vietnã, nos anos 1970, vitória histórica dos guerrilheiros vietnamitas, capaz de ensinar como David pode derrotar Golias, ou o do Afeganistão, em 2021, cuja guerra, depois de 20 anos, terminou de forma desastrosa para o império, da qual saiu correndo com o rabo entre as pernas, tropas norte-americanas desmoralizadas, deixando para trás um Afeganistão destruído e dividido, embora vitorioso.

Nesse ataque dos últimos dias ao Irã, desenvolvido em parceria com o genocida Benjamin Netanyahu, Donald Trump tem falado em invadir o país por terra, no estilo arrogante dele. Depois de alguns dias de guerra, ele já não se mostra tão confiante. Sabe que no Irã o buraco é mais embaixo. Não creio em invasão: se entrar pelo chão com tropas, será duro sair, e ao sair, a maior probabilidade será repetir Vietnã e Afeganistão.

Emiliano José é jornalista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia. Autor, entre outros livros, de O cão morde a noite (EDUFBA). [https://amzn.to/46i5Oxb]

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