Alcançando ou ficando para trás?

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Por ELEUTÉRIO F. S. PRADO*

O desenvolvimento desigual não é acidente, mas estrutura: enquanto o capitalismo promete convergência, sua lógica reproduz hierarquias. A América Latina, entre falsos milagres e armadilhas neoliberais, segue exportando valor e importando dependência

O termo “desenvolvimento” designa um processo que se inicia num passado distante, que tem certas leis tendenciais e que se projeta num futuro com algum grau de indeterminação. Contudo, os economistas não o usam desse modo; diferentemente, eles põem os países do mundo em dois estados distintos: ou eles são desenvolvidos ou estão ainda em desenvolvimento.

Nessa segunda significação, coloca-se o problema de saber se os países ainda em processo de desenvolvimento estão alcançando os países desenvolvidos ou estão ficando ainda mais para trás. Para encontrar respostas para esse problema, três brilhantes economistas brasileiros, Ademir Antônio Martins, Alessandro Miebach e Henrique Morrone escreveram um livro seminal, cujo título traduzido do inglês seria Desenvolvimento desigual e capitalismo: alcançando ou ficando para trás na economia global.[i]

O escrito que se segue baseia-se no conteúdo desse livro, mas, mais especificamente, num artigo recém-publicado desses mesmos autores, cujo título em português seria “Alcançando ou ficando para trás em países latino-americanos selecionados: uma análise clássica e marxiana”.[ii] Neste texto, eles examinam as trajetórias de evolução econômica da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México a partir de 1950 até o fim da década dos anos 2010 para saber eles estão se tornando países desenvolvidos ou se permanecem em sua condição histórica passada.

Essas cinco nações latino-americanas possuem os maiores produtos interno brutos (PIBs) da região como um todo; ademais, elas mantiveram e mantém a pretensão – ainda que vaga – de se tornarem desenvolvidas algum momento do futuro. Apesar disso, apesar de terem evoluído nos últimos 70 anos, elas – como se mostrará – continuam longe de realizar esse objetivo.

Eis como eles resumem o artigo cujos principais resultados vai se mostrar aqui, ainda que em largos traços: “Usando uma abordagem clássica e marxiana, exploramos o desempenho econômico da região. A América Latina foi uma das regiões mais dinâmicas da economia global durante a era de ouro de 1945-1973. No entanto, durante o neoliberalismo, a maioria dos países latino-americanos ficou para trás. Nossa análise revela que essas nações estão presas em uma armadilha de baixa lucratividade, resultando em investimentos reduzidos persistentes e crescimento lento”.

Tendências contraditórias

Duas variáveis chaves marcam o processo de desenvolvimento das economias capitalistas: a produtividade do trabalho que tende a aumentar ao longo do tempo e a produtividade aparente do capital, que tende a cair ao longo do tempo. O capital aqui, de modo restrito, vem a ser o estoque em valor monetário dos meios de produção empregados na geração do PIB.

Note-se que essas duas tendências se afiguram como inerentes ao processo de acumulação de capital, ou seja, provém do investimento em meios de produção e força de trabalho, o qual depende crucialmente do nível da taxa de lucro média, assim como de sua dispersão em torno dessa média. As empresas investem na produção de mercadorias com o propósito de elevar a sua própria lucratividade.

Ao fazê-lo, tendem em geral a substituir o trabalho empregado por novos e melhores meios de produção, melhorando assim a eficiência do processo produtivo. O resultado é a tendência à elevação da produtividade do trabalho de cada empresa e, em consequência, da economia como um todo.

É crucial compreender que o processo do investimento também tende a reduzir a produtividade do capital em cada empresa e na economia como um todo. Ora, dada uma repartição do valor adicionado em remuneração do trabalho (salários, grosso modo) e do capital (lucros, grosso modo), a queda na produtividade do capital produz uma tendência de queda na taxa de lucro. Mas ela pode ser compensada, em parte pelo menos, pela elevação da taxa de exploração, a qual se manifesta por meio do aumento participação do lucro no valor adicionado.

Note-se, agora, que a taxa de lucro, nos estudos empíricos de caráter macroeconômico, costuma ser medida com dados da contabilidade nacional dos países; ela se expressa, assim, por meio da razão entre a massa de lucro gerada num certo período e o estoque de capital usado nesse mesmo período (usualmente um ano).

Ora, essa razão pode ser decomposta num produto de duas outras razões: uma dela entre a massa de lucro e o valor adicionado (medida da parcela de lucro) e uma outra entre o valor adicionado e o estoque de capital (medida precisamente da produtividade do capital).

Assim sendo, a taxa de lucro fica igual ao produto da parcela de lucros (medida pela razão entre o montante de lucros e o montante de valor adicionado num dado período) e a produtividade aparente do capital (medida pela razão entre o montante de valor adicional no período usado e o estoque de capital médio empregado durante esse mesmo período).

Tendo isso em mente, pode-se ver de imediato o que já foi dito, ou seja, que para uma dada parcela de lucro no valor adicionado, se decresce a produtividade aparente do capital, reduz-se necessariamente a taxa de lucro.

Apresentação dos resultados

Para saber se os países acima referidos estão alcançando ou ficando para trás na corrida pelo desenvolvimento, os autores do estudo referido compararam, em primeiro lugar, a evolução da produtividade do trabalho nesses países com aquela observada nos Estados Unidos. Constroem, assim, razões de produtividade do trabalho que variam entre zero e um e que se apresentam como porcentagens.[iii] Os resultados encontram-se na figura em sequência:

A figura mostra alguns padrões de desenvolvimento. Se a Argentina podia ser considerada um país quase desenvolvido logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, declinou daí em diante, tornando-se subdesenvolvida.

O Brasil, diferentemente, conseguiu avançar fortemente entre 1950 e 1980, mas daí em diante voltou a se aproximar da posição anterior. O percurso do México se afigura semelhante ao do Brasil. O Chile conseguiu manter uma posição intermediária durante todo o período considerado de 70 anos. A Colômbia, finalmente, não progrediu entre 1950 e 1980, passando a piorar daí em diante.

Para examinar como se deu a contraditoriedade do processo de acumulação de capital nesses países, Marquetti, Mierbach e Morrone, com base na mesma fonte de dados, calculam as taxas de lucro líquidas, mostrando como evoluíram no período considerado. Os resultados encontram-se na figura em sequência:

Também aqui se observam alguns padrões de trajetória. As taxas de lucro caem persistentemente na Argentina, Colômbia e México em todo o período. O Chile, no entanto, como país exportador de bens primários, conseguiu manter de modo levemente crescente a lucratividade de sua economia.

No Brasil, finalmente, a lucratividade aumentou entre 1960 e 1980, mas passou a cair daí em diante. Como será explicado adiante, esse resultado contribui para fazer com que o esforço para alcançar a condição de país desenvolvido tenha se frustrado nesses países.

Explanações

É preciso observar agora, por um lado, que a produtividade do capital e, assim, a taxa de lucro, é de partida maior nos países ditos não desenvolvidos em relação aos países considerados como desenvolvidos; por outro, a produtividade do trabalho se mostra menor nesses países ditos “retardatários”. Se tais condições prevaleceram no “começo”, elas mudaram com o crescimento econômico desses países?

Veja-se: seria de esperar que o capital fluísse para esses países gerando aí, assim, um crescimento mais acelerado do PIB, um aumento mais robusto da produtividade do trabalho, o que viria reduzir ou mesmo fechar a distância econômica deles em relação aos avançados. Ora, nos cinco casos examinados isso não aconteceu. Ao contrário, com a exceção do Chile, a distância econômica dos países ditos em desenvolvimento em relação aos desenvolvidos aumentou após sete décadas consecutivas.

Note-se de imediato que há uma dificuldade e que ela surge na dinâmica do processo de acumulação de capital: se, ao longo desse processo, eleva-se a produtividade do trabalho, ocorre também queda da produtividade aparente do capital e, assim, da taxa de lucro. Ora, como essa redução da lucratividade abate o ímpeto de novos investimentos, o próprio processo de acumulação possui um freio e ele mina o seu próprio dinamismo.

Contudo, essa explicação parece insuficiente para dar conta do fracasso observado mesmo nos casos de países que pareciam inicialmente mais promissores para alcançar a condição de desenvolvidos.

Por isso, os autores do artigo original adiantam outra que leva em conta a política econômica: “A maioria dos países latino-americanos experimentou uma recuperação durante a era de ouro de 1945-1973, seguindo uma estratégia de industrialização por substituição de importações. A volta do atraso começou na década de 1980, quando o neoliberalismo foi adotado, muitas vezes sob pressão, em meio à crise da dívida. Alguma recuperação ocorreu na década de 2000, impulsionada pelo boom das commodities. No entanto, ele foi de curta duração, pois os preços das commodities caíram após a crise financeira de 2008. A nova posição da América Latina na divisão global do trabalho como produtora de commodities intensificou sua vulnerabilidade às flutuações dos termos de troca”.

Ora, esse adendo explanatório se remete explicitamente à adoção do neoliberalismo como orientação geral de política econômica na América Latina e, implicitamente, ao deslocamento da produção industrial do Ocidente para a Ásia e, em particular, para a China.

E isso já mostra que um processo de desenvolvimento robusto – ainda nos limites do capitalismo – requer uma estratégia ativa e bem planejada de expansão econômica, a qual não prescinde do Estado. A experiência passada mostrou que ele tende a não se realizar com a adoção de laissez-faire ou com preponderância estrita da lógica que move os mercados.

Contudo, o ponto mais saliente parece estar no fato de que os países da Ásia que se mostraram mais dinâmicos ofereceram condições de rentabilidade melhores – ou seja, uma força de trabalho devidamente preparada, disciplinada e disposta a receber baixos salários – para os capitais crescidos principalmente nos Estados Unidos, mas também na Europa. Foram, por isso mais bem-sucedidos do que os países latino-americanos.

Conclusões

De qualquer modo, esse resultado histórico mostra que a distinção usual entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento é mistificadora. A distinção que faz mais sentido parece ser a que apela à dialética e fala em países imperialistas dominantes e países dominados que transferem, por meio da troca desigual, parte do valor gerado internamente para os primeiros.

Então, diante do fracasso da orientação neoliberal, poder-se-ia agora confiar numa nova estratégia de desenvolvimento capitalista para superar o subdesenvolvimento? Eis que, grosso modo, a situação atual dessas economias e de muitas outras nessa região é de quase estagnação.

Por exemplo, seria possível optar por aquela que recebe o nome de novo desenvolvimentismo? Poder-se-ia considerar essa estratégia, que foi criada e tem sido advogada com denodo por Luiz Carlos Bresser-Pereira, como uma alternativa viável? Há razões para duvidar!

Ora, está-se agora diante de enormes crises que foram engendradas precisamente pelo capitalismo: superacumulação, colapso ecológico, má repartição da renda e da riqueza, guerras destrutivas etc. Logo, é preciso perguntar se o desenvolvimento agora não teria de passar a ser regido por outra lógica que não aquela baseada na acumulação de capitais?

Ora, o autor da presenta nota observou em seu pequeno livro, Capitalismo no século XXI, que esse sistema entrou já em seu ocaso e que dele se pode apenas esperar o engendramento de eventos catastróficos e até mesmo, eventualmente, a extinção.[iv]

*Eleutério F. S. Prado é professor titular e sênior do Departamento de Economia da USP. Autor, entre outros livros, de Da lógica da crítica da economia política (Lutas Anticapital).

Notas


[i] Martins, Ademir Antônio; Miebach, Alessandro e Morrone, Henrique – Unequal development and capitalismo: catching up and falling behind in the global economy. Routledge, 2024.

[ii] Martins, Ademir Antônio; Miebach, Alessandro e Morrone, Henrique – Catching up and falling behind in selected Latin American countries a Classical-Marxian analysis. Review of Radica Political Economics, 2025, p. 1-12.

[iii] Para fazê-lo, eles empregam as informações estatísticas desses países que se encontram nas assim chamadas “Extended Penn World Tables”.

[iv] Prado, Eleutério F. S. – Capitalismo no século XXI – Ocaso por meio de eventos catastróficos. CEFA Editorial, 2023.


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