Por YURI PIVOVAROV*
O que Joseph Stalin conseguiu apenas parcialmente, Vladimir Putin decidiu concluir. Ele já demonstrou sua habilidade, causando uma nova “ruína” à Ucrânia. Mais precisamente, uma devastação
1.
No final da década de 1930, Joseph Stalin (ou seus asseclas) chamou o povo russo de “irmão mais velho”. Mais velho em relação aos outros povos da União Soviética. Provavelmente, isso se referia principalmente ao povo ucraniano, o segundo maior em número na URSS.
Isso foi dito na hora certa. Acabava de terminar a fase mais intensa da destruição da população rural do país. Essa guerra civil (no sentido de contra os cidadãos) teve um caráter especialmente genocida nas regiões prósperas da União. Lá, os monstros e canibais, assassinos e violadores colheram os frutos mais ricos (no sentido literal e figurado da palavra). Algumas décadas depois, os ucranianos encontrariam um termo preciso e conciso para definir o seu “caso”, aquela catástrofe provocada pelo homem: “holodomor”. Assassinato por meio da fome.
Quase cem anos após o Holodomor, a morte pela fome, o povo ucraniano enfrentou uma nova iniciativa “fraterna”: o xolodomor.[1] Assassinato por meio do frio.
Sim, é claro que o Holodomor não afetou apenas os ucranianos. Mas foram eles que denunciaram adequadamente a política deliberada de Moscou de exterminar os próprios cidadãos. Foram eles que falaram sem rodeios sobre o que aconteceu com milhões de camponeses naquela região rica em trigo. Não foi a natureza (e seus cataclismos) que lhes trouxe a fome.
Foi o homem que inventou matar seus semelhantes, escondendo-se atrás de uma ideologia falsa e impiedosa. Mas o povo ucraniano de algum modo sobreviveu, de algum modo recuperou-se e decidiu buscar seu futuro fora da “fraternidade” com Moscou.
No entanto, como se tornou claro, Moscou não perdoou o atrevimento ucraniano. “Holodomor”, dizem? Eles não se referem à coletivização da vida rural e do trabalho, condicionada pela necessidade histórica? Qualificar alguns excessos e erros como crime?! E ainda por cima iniciar um romance antinatural com o Ocidente, trair nosso grande passado comum? Não permitiremos!
E o “irmão mais velho” decidiu punir o “mais novo”. A Federação Russa começou (como diziam os próprios ocupantes) a “dar uma surra” nos khokholes”.[2] No final do quarto ano de guerra, eles encontraram uma maneira de resolver definitivamente a questão ucraniana.
Não pela fome, mas pelo frio. O inverno agora é rigoroso, gelado e longo. Isso ajudará a colocar esses rebeldes de joelhos. Em suma, vamos lá. Mais precisamente, vamos voar. É pouco? Podemos repetir!
2.
É como se os “pequenos russos”[3] tivessem perdido a memória. Eles se rebelam. Se tivessem aprendido bem a história, teriam se lembrado. Quantas vezes as tropas fraternas de Rostov e Suzdal[4] vieram a Kiev. Elas os advertiram.
Em 1169 (há apenas 850 anos), as tropas do príncipe André Bogoliubsky, filho de Yuri Dolgorukov, conquistaram Kiev e destruíram a próspera cidade. Em 1240, as hordas tártaras completaram a obra, acabando de vez com a capital da Antiga Rússia.
Não tenho dúvidas de que Stalin, Molotov, Kaganovich e outros führers[5] do Kremlin não se esqueceram da resistência obstinada dos camponeses e da intelectualidade ucranianos durante a Guerra Civil. Daquele despertar nacional que tomou conta do povo ucraniano após a queda da monarquia russa. Da criação da República Popular Ucraniana. Da República Popular Ucraniana não ter aceitado a revolução bolchevique e ter tomado o rumo da independência total dos comissários de Moscou (nas negociações em Brest-Litovsk, em 1918, os representantes da República Popular Ucraniana pediram à Alemanha e à Áustria que os protegessem dos bolcheviques).
É claro que isso também estava relacionado com a total impiedade da coletivização ucraniana. Na região do Volga, no Don, em Stavropol, na região central do tchernoziom/ solo negro[6] e no Cazaquistão, a crueldade bolchevique também não tinha limites. Lá também se faziam contas e reinava o canibalismo (no sentido literal e figurado). Mas os ucranianos reivindicavam a própria soberania e a própria cultura.
E por isso se tornaram um alvo especial do ódio de grande potência do chauvinismo russo (em sua nova versão). Que, observemos, era feito por mãos internacionais: o georgiano Stalin, o grande russo Molotov, o judeu Kaganovich… Internacionalismo! Mas não o proletário – o criminoso. A besta que bebia o sangue do povo soviético multiétnico. E que abria a boca para todas as outras nações e países.
Meio século depois, o Reich[7] comunista entrou em colapso. A “fraternidade dos povos” totalitária chegou ao fim. O fator decisivo para a dissolução da URSS foi a saída da Ucrânia do domínio de Moscou. Mas os novos partidários da “grande potência” não estavam dispostos a aceitar isso:
“Não entregaremos a Crimeia! Não entregaremos Donbass! Não entregaremos Gogol! Não entregaremos Vladimir Krasnoe Solnyshko (assim como Vladimir Svyatogo)! Não entregaremos Dobrynya Nikitich! E Nikolai Shchors! E todas as três frentes ucranianas da Grande Guerra Pátria — não entregaremos!”.[8]
“De qualquer forma, chegou a hora de acabar com esses agitadores. Senão, eles se permitem dizer: “A Ucrânia não é a Rússia”. Estabelecemos uma condição: ou voltam para o nosso “mundo russo” ou os reduzimos a pó. Se agora não dá para fazer um Holodomor (morte pela fome), se os tempos não são mais os mesmos – vamos fazer um Holodomor de gelo”.[9]
3.
Somos testemunhas (e, em sentido moral, devido à nossa passividade e insensibilidade, também cúmplices[10]) de uma tragédia histórica: a tentativa de extermínio do povo ucraniano.
O que Joseph Stalin conseguiu apenas parcialmente, Vladimir Putin decidiu concluir. Ele já demonstrou sua habilidade, causando uma nova “ruína”[11] à Ucrânia. Mais precisamente, uma devastação.
Desde a infância, lembramos: se o inimigo não se rende, escreveu Máximo Gorky,[12] nós o destruímos. Mas como uma lágrima de criança, nas palavras de Dostoievsky[13], pode impedir a construção do paraíso na Terra? Sim, uma lágrima pode.
Mas a política voltada para o extermínio de todo um povo parece não impedir a harmonia mundial (embora o mundo atual seja antes de tudo uma desarmonia).
A ideia de Vladimir Putin (dos putinistas) é soterrar a Ucrânia no gelo para que ela “não apodreça”.[14] Melhor seria não apenas soterrar no gelo, mas congelar de vez. É mais eficaz. Transformar a pátria deles numa casa de gelo. Lá dentro, a harmonia se estabelecerá entre os que sobreviverem. E ela logo ficará coberta de gelo. Saudações a vocês, rebeldes, da outra Ucrânia, a Ucrânia da Floresta (assim os habitantes da Rus’ da Lituânia, ancestrais dos atuais ucranianos e bielorrussos, chamavam a Rus’ da Horda de Moscou).
Conterrâneos! Contemporâneos! Isso não é política ou geopolítica. É um povo sendo caçado.
Aqui está, o fim da história. Não é a utopia liberal benevolente de Fukuyama, nem o comunismo imaginado de K. Marx e de M. Suslov[15], mas o frio do bloqueio. Queimando a vida. Uma geladeira feita à mão, construída pelos artesãos da Terceira Roma.[16].
*Yuri Pivovarov é um cientista político e historiador russo, membro da Academia Russa de Ciências. Professor da Universidade Estatal de Moscou, e da Universidade Estatal Russa de Ciências Humanas.
Tradução: Daniel Aarão Reis.
Publicado originalmente na Новая газета Европа/Nova Gazeta Europa, edição de 6 de fevereiro de 2026, jornal russo online editado no exílio.
Notas
[1] O autor faz aqui um jogo de palavras entre Голодомор/Holodomor, palavra ucraniana que designa a morte pela fome, suscitada pela coletivização forçada dos camponeses (1928/1935), em especial na Ucrânia e a palavra russa холод/xolod, pronuncia-se rolad, que significa frio. Nota do tradutor.
[2] Significa o corte de cabelo tradicional dos cossacos ucranianos (cabeça raspada com uma mecha no topo). Uma descrição física que se tornou um termo altamente pejorativo usado pelos russos para designar os ucranianos. O termo associa os ucranianos a seres inferiores, teimosos e astutos. Nota do tradutor.
[3] Tradicionalmente, na perspectiva de negar a identidade ucraniana, os russos chamavam o país de Pequena Rússia e os ucranianos de pequenos russos. Nota do Tradutor.
[4] Rostov e Suzdal são cidades russas, de onde vieram tropas para dominar territórios ucranianos.
[5] Fuhrer, palavra alemã designando líder que, no âmbito do nazismo, tornou-se incontestável. Hitler tornou-se o fuhrer da Alemanha e o Autor, evidentemente joga aqui com as palavras no sentido de associar as lideranças soviéticas à experiência do nazismo. Nota do Tradutor.
[6] Чёрные земли/чернозем – Tchornie ziemli/tchernoziom (contração das duas palavras anteriores) ou terras negras, abundantes na Ucrânia e sul da Rússia e extremamente férteis. Nota do Tradutor.
[7] Reich, palavra alemã que designa Império. Mais uma associação amargamente irônica entre a União Soviética e a tradição alemã. Os nazistas pretenderam criar o III Reich/o Terceiro Império na Alemanha, sucedendo a duas experiências imperiais anteriores.
[8] A Crimeia, península ucraniana, foi invadida e ocupada pelos russos em 2014. O Donbass é uma região disputada desde o início da guerra. Encontra-se hoje em grande medida, também ocupada pelos russos. Nicolai V. Gogol (1809-1852), escritor; Vladimir Krasnoe Solnysko/Vladimir, do Sol Vermelho, príncipe de Kiev, personagem épico do folclore russo; Vladimir Svyatogo/Vladimir, o santo, príncipe histórico de Kiev; Dobrynia Nikitich, originário de Kiev, outro personagem famoso do folclore russo; Nikolai Alexandrovich (em ucraniano: Mykola Oleksandrovich) Shchors (1895-1919), polêmico comandante do exército vermelho, morreu em condições obscuras em 1919. Todas estas figuras, reais ou fictícias eram compartilhadas de alguma forma por ucranianos e russos no contexto da União Soviética. São hoje reivindicados pelos dois países. A última alusão refere-se às frentes ucranianas no contexto da II Guerra Mundial. Nota do tradutor.
[9] С Голодомором сейчас не выйдет, времена не те — захолодоморим». Jogo de palavras registrado na nota 2. “Se os tempos não são mais os mesmos, se agora não podemos fazer um Holodomor/morte pela fome, vamos захододморим/congelá-los.
[10] De acordo com dados do Levada Center, 76% dos russos entrevistados apoiam a guerra contra a Ucrânia.
[11] Os historiadores chamam de “Ruína” (em ucraniano: Руiна) o período da história da Ucrânia entre a segunda metade do século XVII e o início do século XVIII. Foi uma época de intensa luta pela autodeterminação geopolítica e cultural. Anos em que a Ucrânia procurava um lugar próprio no mundo. Isso foi acompanhado por disputas internas, desordens, embates por liderança. E também por incursões devastadoras de vizinhos próximos e distantes (poloneses, tártaros da Crimeia, suecos, moscovitas), que buscavam subjugar as terras ucranianas em proveito próprio.
[12] Maxim Gorki (1868-1936), pseudônimo de Alexei M. Peshkov, escritor russo. Nota do tradutor.
[13] Fiódor M. Dostoiévski (1821-1881), escritor russo. Nota do tradutor.
[14] Alusão às palavras do fervoroso reacionário K. Leontiev formulada nos anos 1880: “É preciso congelar a Rússia para que ela não apodreça”.
[15] Mikhail A. Suslov (1902-1982). Dirigente e ideólogo do Partido Comunista da União Soviética. Reputado guardião da ortodoxia socialista em tempos soviéticos. Nota do tradutor.
[16] Os russos de fé ortodoxa imaginam o seu cristianismo como o verdadeiro e puro cristianismo. Uma terceira Roma não corrompida como o foram a primeira (a própria Roma) e a segunda, Bizâncio. Nota do Tradutor.






















