Bomarzo

Roger Palmer, Folhas com pilar, 1972
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por FÁBIO FONSECA DE CASTRO*

Comentário sobre o romance de Mujica Lainez

No dia 13 de julho do ano de 1958 o escritor argentino Manuel Mujica Lainez, acompanhado do pintor Miguel Ocampo e do poeta Guillermo Whitelow, visitaram uma atração turística que ficava a uns 100 km de Roma, Itália: um castelo medieval e seus bosques, repletos de estátuas enigmáticas. Era o castelo de Bomarzo e seus bosques são conhecidos como O Bosque dos Monstros.

Tomado por uma inspiração devastadora Mujica Lainez, ou Manucho, como era chamado pelos amigos, começou a elaborar seu novo romance. Levou três anos para escrevê-lo. Três anos de pesquisas intensas sobre o intrigante personagem histórico que foi senhor daquele castelo e o construtor dos seus bosques misteriosos, o príncipe renascentista Pier Francesco Orsini, duque de Bomarzo.

O romance foi iniciado em junho de 1959, concluído em outubro de 1961 e lançado em 1962. O reconhecimento foi imediato e em 1967 o livro foi transformado em ópera, com libreto do próprio Manucho e música de Alberto Ginastera. Ocorre que a ópera foi proibida na a Argentina, que vivia então a ditadura militar e essa proibição fez o livro ser vendido em massa. Recentemente, o jornal espanhol El Mundo inclui o livro entre os 100 melhores romances em língua espanhola do século XX.

De minha parte, posso dizer que sou apaixonado por esse livro e que um dia pretendo ir ao castelo de Bomarzo e conhecer os seus bosques.

A história

A trama de Bomarzo se passa durante o Renascimento italiano e, de certa maneira, é um livro sobre o Renascimento, seja em função das referências históricas aos fatos e aos personagens reais desse período, seja em função da tematização sobre o ethos do homem renascentista.

O ambiente central da história, o castelo de Bomarzo, é, ao mesmo tempo, trágico e sensual. A partir dele incursionamos por Roma, Florença, Veneza, pela batalha de Lepanto e pelas campanhas italianas. Ao mesmo tempo, conhecemos um mundo de duques, príncipes, papas, cardeais, condottieri, artistas e cortesãos. Vamos conhecendo as tramas da família Orsini, com seus quatro papas, dezoito santos e dezenas de príncipes e duques.

Ao lado deles, há um cortejo de personagens do renascimento italiano e da Europa desse tempo: Carlos V, Francisco I da França, os papas Alexandre VI, Clemente VII, Paulo III, Pio V, Miguel de Cervantes. Acompanhamos as guerras entre güelfos e gibelinos e nos perdemos nas disputas entre as famílias senhoriais desse período, em suas alianças ou guerras com os Orsini: os Colona,  Medici, Farnese, Sforza, Strozzi e assim por diante.

O livro conta a vida, como disse, do duque de Bomarzo, Pier Francesco Orsini, também chamado de Vicino Orsini, um duque nascido com uma malformação congênita, uma curvatura da coluna vertebral na região cervical. Corcunda, homem de gibão, como lhe chamavam, provocava estranheza nos círculos de poder italianos.

Viveu num ambiente no qual o crime e a violência eram coisas naturais e mesmo habituais, um lugar cheio de histórias de envenenamentos, estrangulamentos, assassinatos, traições e proezas militares. É o ambiente descrito por Machiavel e por tantos outros autores da época. Porém, ao mesmo tempo, é um ambiente tomado por uma atmosfera artística, na qual o sublime, o belo e a arte têm um lugar de destaque.

Vicino Orsini é um homem do Renascimento. Ele pensa, sente, ama e odeia como um homem do Renascimento. E, por isso, se torna uma excelente chave para entender o que foi esse momento da história.

A sua singularidade, sua corcunda, o distingue de sua época e mesmo interdita, a ele, essa época. Num momento em que as proporções ideias e que o belo são universalmente desejados, a sua deformidade física o incomoda e provoca, nele, uma reflexividade que o torna um espelho de todo o período. Ainda que tenha um rosto e mãos belíssimas, como é dito, a corcunda o incomoda profundamente.

Até que, num dado momento do romance, ele observa que a palavra monstro – e muitas vezes ele é chamado de monstro, por sua família e por sua época – significa também “eu mostro”, ou seja, monstro é a pessoa que mostra o mundo como ele é. Vicino Orsini acaba tornando-se, assim, um arquétipo do homem do Renascimento – uma época ao mesmo tempo bárbara e sublime e que mostrou ao mundo como o mundo realmente é. Como ele próprio coloca: a função dos monstros é mostrar… e parte em construção do seu bosque de monstros…

A vida do duque de Bomarzo é um relato poético de uma época muito especial da humanidade. Um relato feito com uma prosa barroca carregada de ironia e, ao mesmo tempo, de nostalgia. O livro é escrito em primeira pessoa, mas, de uma maneira insólita, é narrado de um ponto de vista intemporal: o duque que narra a sua vida não está mais vivo, está morto e está narrando sua vida 500 anos depois dela ter acontecido, confundindo-se com a temporalidade do próprio autor.

Esse subterfúgio narrativo acaba produzindo uma temporalidade própria, que, embora centrada no Renascimento, percorre os séculos até a contemporaneidade, sugerindo a tese de que o espírito de uma época perdura e pode ser compreendido e narrado por outra época e por outra pessoa. E esse jogo de temporalidades é um dos pontos altos da obra, embora possa passar desapercebido por alguns leitores, posto que é algo tratado com grande sutileza.

O parque dos monstros

Por fim, resta falar sobre o bosque de Bomarzo e suas estátuas. Esse bosque, que também é chamado de Parque dos Monstros (Parco dei Mostri), é considerado como o mais extravagante jardim da Renascença italiana. Tal como o duque corcunda, com sua reflexividade, mostrava e mostra o mundo ao mundo, as esculturas grotescas do bosque de Bomarzo funcionam como um espelho que mostra o horror da existência.

Conta-se que Vicino Orsini começou a construir o Parque dos Monstros depois da morte de sua esposa, a belíssima Giulia Farnese. Teoricamente, as esculturas mostram sua dor com essa perda, mas também a sua frustração em relação à história e às ideias de alegria e felicidade.

O bosque também possui várias inscrições em pedra. Numa delas pode-se ler: “Tu, que percorres o mundo em busca de grandes maravilhas, vem aqui, onde encontrarás rostos horríveis, elefantes, ossos e dragões”.

O interessante é que esses bosques foram esquecidos, cobertos de relva e viraram uma floresta, assim permanecendo durante mais de 300 anos, até que, por volta de 1950, foram redescobertos, pela família proprietária do castelo de Bomarzo, descendentes de Vicino Orsini, recuperados e abertos para a visitação pública.

O escritor

Resta falar de Mujica Lainez, o autor do romance. Manucho nasceu em Buenos Aires em 1910 e morreu em Córdoba, também na Argentina, em 1984. Pertencente a uma família rica, foi educado na França e na Inglaterra. Aos 22 anos, de volta a Buenos Aires, tornou-se jornalista, ingressando no jornal La Nación, onde atuou durante toda a sua vida. Também atuou como tradutor e como crítico de arte, tornando-se uma figura central da vida cultural portenha.

Escreveu mais de vinte livros, dentre romances, coletâneas de contos e de poemas, ensaios e crônicas. Nessa obra, o romance histórico tem um lugar especial.

Um primeiro momento da sua obra é formado pelos livros de contos Aqui viveram, de 1949, e Misteriosa Buenos Aires, de 1950. Depois veio a “saga portenha”, romances históricos passados em Buenos Aires, composta por quatro livros: Os ídolos, de 1953; A casa, de 1954; Os viajantes, de 1955 e Convidados ao paraíso, de 1957. Segue-se o sue ciclo de novelas históricas fantásticas, que começa com Bomarzo e continua com O unicórnio, de 1965, e O labirinto, de 1974.

Depois que a ópera Bomarzo foi proibida, Mujica Laines tornou-se uma figura extremamente popular na Argentina e seus livros tiveram sua venda multiplicada.

Concluindo, posso dizer que Mujica Lainez é um grande autor, quase desconhecido no Brasil, e que Bomarzo é um romance sublime, encantador. Um dos melhores livros que já li e que, na verdade releio de vez em quando há mais de vinte anos.

*Fábio Fonseca de Castro é professor de sociologia no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, na Universidade Federal do Pará (UFPA). Como Fábio Horácio-Castro publicou romance O réptil melancólico (Editora Record).

Referência


Manuel Mujica Lainez. Bomarzo. Tradução: Pedro Tamen. Rio de Janeiro, Sextante editora, 2010. [https://amzn.to/3VPVOXo]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • Razões para o fim da greve nas Universidade Federaisbancos 16/05/2024 Por TADEU ALENCAR ARRAIS: A nova proposta do Governo Federal anunciada dia 15 de maio merece debate sobre continuar ou não a greve
  • Como mentir com estatísticascadeira 51 18/05/2024 Por AQUILES MELO: Os números apresentados pelo governo federal aos servidores da educação em greve mais confundem do que explicam, demonstrando, assim, desinteresse na resolução do problema
  • A “multipolaridade” e o declínio crônico do OcidenteJosé Luís Fiori 17/05/2024 Por JOSÉ LUÍS FIORI: A defesa da multipolaridade será cada vez mais a bandeira dos países e dos povos que se insurgem neste momento contra o imperium militar global exercido pelo Ocidente
  • A greve nas universidades e institutos federais não…caminho tempo 17/05/2024 Por GRAÇA DRUCK & LUIZ FILGUEIRAS: As forças de esquerda e democráticas precisam sair da passividade, como que esperando que Lula e o seu governo, bem como o STF resolvam os impasses políticos
  • O cavalo Caramelocavalo caramelo 15/05/2024 Por LEONARDO BOFF: Há que se admitir que nós não temos respeitado os direitos da natureza com seu valor intrínseco, nem posto sob controle nossa voracidade de devastá-la
  • A universidade operacionalMarilena Chauí 2 13/05/2024 Por MARILENA CHAUI: A universidade operacional, em termos universitários, é a expressão mais alta do neoliberalismo
  • A liberdade fake e o Marquês de SadeEugenio Bucci 18/05/2024 Por EUGÊNIO BUCCI: A liberdade fake, a liberdade sádica, que no fundo é a negação de toda liberdade, está levando o Brasil ao naufrágio total
  • SUS, 36 anos – consolidação e incertezasPaulo Capel Narvai 15/05/2024 Por PAULO CAPEL NARVAI: O SUS não foi o “natimorto” que muitos anteviram. Quase quatro décadas depois, o SUS está institucionalmente consolidado e desenvolveu um notável processo de governança republicana
  • De Hermann Cohen a Hannah Arendtcultura barcos a vela 18/05/2024 Por ARI MARCELO SOLON: Comentário sobre o livro de Miguel Vatter
  • A hora da estrela – trinta e nove anos depoisclareice 20/05/2024 Por LEANDRO ANTOGNOLI CALEFFI: Considerações sobre o filme de Suzana Amaral, em exibição nos cinemas

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES