As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

A construção da história

Foto de Christiana Carvalho
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por DYLAN RILEY*

As teorias da história são, como muitas ideias de aparência excessivamente ambiciosas, inteiramente inevitáveis

Por que a história é necessária? Em que sentido ela é um elemento constitutivo da humanidade? De certa forma, as respostas para tais questões podem ser simples e diretas. Seres humanos são animais teleológicos. Sob um determinado conjunto de relações e condições eles formulam os fins que querem atingir. Mas qual a relação dessas “micro-histórias” com a autocompreensão da espécie humana de modo geral?

A melhor forma de abordar esse é problema é se perguntar o que essas micro-histórias implicam; ou seja, identificar as condições de possibilidade de atuar de uma forma micro-histórica. Uma orientação teleológica consegue existir sem a “história” em seu sentido mais geral? Ou, colocando a pergunta de outra forma: as “histórias pequenas” já sugerem ou fazem referência a uma “história maior”? Elas conseguem existir sem isso?

Para discutir essas questões com clareza precisamos distinguir entre a perspectiva do ator e do observador na micro-história. Para o ator, o significado e sentido de uma ação particular está inteiramente dispendido na própria ação. Consideremos, por exemplo, a decisão de começar a trabalhar em determinado emprego. Imagine que o ator decida trabalhar como um motorista de Uber porque as horas são flexíveis e o dinheiro garante sua subsistência.

Da sua perspectiva, o sentido da sequência de ações que o levaram àquele emprego está inteiramente depositado em seu desejo de pagar o aluguel e manter alguma autonomia. Mas o observador pode interpretar essa sequência de modo bem diferente. Da perspectiva dele, a própria possibilidade de trabalhar como um motorista de Uber estaria conectada à casualização do trabalho de táxi, à tecnologia do smartphone, ao uso generalizado de sistemas de pagamentos digitais e um amplo conjunto de condições históricas. Também é possível conectar o desejo do ator de ter um certo tipo de autonomia e flexibilidade com o surgimento do sujeito neoliberal e a ética do empreendedorismo pessoal associada a isso.

O ponto é que da perspectiva do observador, o significado de uma ação depende da relação que a ação tem com uma fase específica do desenvolvimento histórico. (Antes de prosseguir, é importante enfatizar que a distinção entre “ator” e “observador” é puramente analítica. A possibilidade dessas duas perspectivas se sobreporem, do ator ter consciência-de-si – quando o ator em si se torna observador, construindo a si próprio como um objeto da consciência, tornando-se um terceiro em relação a suas próprias ações – é em si altamente variável, histórica e socialmente falando.)

Para historicizar uma ação, entretanto, inevitavelmente nos deparamos com a questão: como parte de que desenvolvimento histórico maior, e em que fase dentro deste? Mas e se considerarmos que a história não tem forma alguma? E se sustentarmos a visão de que a história, em seu sentido mais amplo, é uma somatória de acidentes, só “uma coisa maldita depois da outra”? O paradoxo de não se ter uma teoria da história é que essa posição é em si uma teoria do desenvolvimento histórico, uma teoria que postula que a história não se desenvolve ou que, se há desenvolvimento, a forma deste é inescrutável.

A história, partindo desse ponto de vista, seria como a coisa-em-si-mesma kantiana, cujos paradoxos e contradições já foram muito bem explicados diversas vezes. Todas as críticas a Kant podem ser resumidas a uma questão fundamental: como podemos dizer que algo é inacessível à consciência humana, que não podemos conhecer esse algo, se ao dizermos que tal objeto é incognoscível ou inefável estamos necessariamente dizendo algo sobre ele? (No final das contas acaba sendo muito difícil não falar sobre as coisas em si mesmas e ser levado a toda sorte de dogmatismos.)

Talvez uma versão diferente desse posicionamento cético seja possível. Tal versão sustentaria que podemos ter teorias parciais do desenvolvimento, mas nenhuma “narrativa grandiosa” ou “grande história”. Essa posição – comum na tradição da sociologia weberiana – parece atraente e razoável. E, no entanto, ela também sofre com um paradoxo. Em primeiro lugar, por que os weberianos têm tanta certeza de que teorias parciais da história são possíveis? O que os faz tão confiantes de que a história não é total ou, ao menos, totalizante? O ceticismo deles não é uma espécie de dogmatismo escondido?

Depois, existe outro problema, mais prático. Se a história é “parcialmente” explicável, em que “partes” ela deve ser dividida? Por exemplo: deveríamos tratar as “ideias” como uma sequência causal e a “produção” como outro tipo de sequência, paralela? Mesmo que tal tratamento fosse correto em um período específico, não seria dogmático afirmar que essa autonomia entre ideias e produção sempre existiu? Podemos realmente dizer que o mesmo enquadramento conceitual se aplica a todas as épocas históricas ou os conceitos devem ser formulados para as eras especificas que buscam descrever? Parece que as teorias da história são, como muitas ideias de aparência excessivamente ambiciosas, inteiramente inevitáveis.

*Dylan Riley é professor de sociologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Autor, entre outros livros, de Microverses: observations from a shattered present (Verso).

Tradução: Julio Tude d’Avila.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Dennis Oliveira Kátia Gerab Baggio Luiz Roberto Alves João Sette Whitaker Ferreira Marilia Pacheco Fiorillo Paulo Capel Narvai Salem Nasser Claudio Katz Caio Bugiato Thomas Piketty Eleonora Albano Valério Arcary Maria Rita Kehl Gilberto Lopes José Luís Fiori Antonio Martins João Carlos Salles Ronaldo Tadeu de Souza Fernão Pessoa Ramos Valerio Arcary Antônio Sales Rios Neto Chico Alencar Eugênio Trivinho Manuel Domingos Neto José Costa Júnior Alexandre de Freitas Barbosa Sandra Bitencourt Henry Burnett Daniel Costa Yuri Martins-Fontes Marcelo Guimarães Lima Manchetômetro Eduardo Borges Vladimir Safatle Lucas Fiaschetti Estevez Liszt Vieira Marilena Chauí Dênis de Moraes Luiz Costa Lima Andrew Korybko Annateresa Fabris Marcos Aurélio da Silva Leonardo Boff Ari Marcelo Solon André Márcio Neves Soares Michael Löwy Francisco Pereira de Farias Luiz Carlos Bresser-Pereira Jorge Luiz Souto Maior Lincoln Secco Luciano Nascimento Juarez Guimarães Tarso Genro Bruno Fabricio Alcebino da Silva Fábio Konder Comparato Gilberto Maringoni Paulo Nogueira Batista Jr Jean Marc Von Der Weid Mariarosaria Fabris Ricardo Antunes José Geraldo Couto Remy José Fontana Armando Boito Celso Favaretto Vanderlei Tenório Osvaldo Coggiola Benicio Viero Schmidt Flávio R. Kothe José Raimundo Trindade Julian Rodrigues Marcelo Módolo Elias Jabbour Priscila Figueiredo Mário Maestri Jorge Branco Roberto Bueno Érico Andrade João Adolfo Hansen Antonino Infranca Michael Roberts Milton Pinheiro Rubens Pinto Lyra Slavoj Žižek Flávio Aguiar Henri Acselrad Ronald León Núñez Everaldo de Oliveira Andrade Carlos Tautz Ricardo Musse Marcus Ianoni Ronald Rocha Daniel Afonso da Silva Gerson Almeida José Machado Moita Neto Marcos Silva Rafael R. Ioris Airton Paschoa Anderson Alves Esteves Eugênio Bucci Jean Pierre Chauvin Boaventura de Sousa Santos José Dirceu Paulo Sérgio Pinheiro João Carlos Loebens Luís Fernando Vitagliano Eliziário Andrade Sergio Amadeu da Silveira Leonardo Sacramento Marjorie C. Marona Paulo Martins Francisco Fernandes Ladeira Chico Whitaker Luiz Renato Martins Leda Maria Paulani Fernando Nogueira da Costa Leonardo Avritzer Plínio de Arruda Sampaio Jr. Bento Prado Jr. João Lanari Bo Paulo Fernandes Silveira Tales Ab'Sáber Samuel Kilsztajn Eleutério F. S. Prado José Micaelson Lacerda Morais Walnice Nogueira Galvão Luiz Bernardo Pericás Renato Dagnino Bernardo Ricupero João Feres Júnior Ricardo Fabbrini Afrânio Catani Daniel Brazil André Singer Bruno Machado Igor Felippe Santos Otaviano Helene João Paulo Ayub Fonseca Vinício Carrilho Martinez Rodrigo de Faria Ladislau Dowbor Heraldo Campos Tadeu Valadares Luiz Eduardo Soares Atilio A. Boron Luiz Werneck Vianna Francisco de Oliveira Barros Júnior Anselm Jappe Ricardo Abramovay Alysson Leandro Mascaro Berenice Bento Luiz Marques Lorenzo Vitral Luis Felipe Miguel Denilson Cordeiro Alexandre de Lima Castro Tranjan Carla Teixeira Roberto Noritomi Celso Frederico Alexandre Aragão de Albuquerque Gabriel Cohn

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada