Capital, niilismo, fascismo

Por Eleutério F. S. Prado*

O niilismo é um produto da sociabilidade capitalista que invade tanto a subjetividade dos dominantes como a dos dominados. Nietzsche perscrutou, sem o saber, a subsunção da subjetividade à lógica de reprodução automática da relação de capital.

Cesse tudo o que musa antiga canta
Que outro valor mais alto se alevanta

A declaração de Nietzsche feita entre 1884 e 1888 de que a sociedade europeia abrira já a porta para a entrada desoladora do niilismo, isto é, da desvaloração de todos os valores morais que mantinham os humanos juntos na terra com os pensamentos no céu, é intrigante. Eis precisamente o que ele profetizou; eis como o fez; eis como negou uma causa apontada; eis como explicou o advento do niilismo [1]:

O niilismo está à porta: de onde vem esse mais sinistro de todos os hóspedes?

Ponto de partida: é um erro remeter [essa questão] a “estados de indigência social” ou “degeneração fisiológica” ou até mesmo à corrupção, como causa do niilismo.

[A causa do] niilismo (isto é, a radical recusa de valor, sentido, desejo) (…) reside em uma interpretação bem determinada, na interpretação moral-cristã [do mundo].

O ceticismo (skepesis) diante da moral é o decisivo. A ruína da interpretação moral do mundo, que não tem mais nenhuma sanção, depois que tentou refugiar-se em um além, termina em niilismo.

Essas quatro sentenças resumem a anunciação de Nietzsche: os humanos haviam entrado já em uma época em que a moral herdada se enfraquecera, a qual se prolongaria pelos próximos duzentos anos. O niilismo, segundo ele, viera como o declínio do cristianismo enquanto uma totalidade ética em que os humanos estavam subsumidos há séculos. A passagem da época medieval para a época moderna produzira, usando aqui os termos de Max Weber, um mundo desencantado; a difusão da ciência e a força da razão instrumental enfraqueceram a crença num mundo criado por Deus.

Ora, nesse mundo, agora, predomina a falta de sentido, vige uma anarquia que não cabe mais em nenhuma nova totalidade ou mesmo em alguma organização, “resta apenas como escapatória condenar esse mundo que aí evolve como ilusão e inventar um mundo que esteja para além dele, como verdadeiro mundo”.

Um sarcasmo cerca essa última afirmação: eis que o “verdadeiro mundo” daqueles que querem transformar o mundo existente, a saber, os socialistas de todos os matizes, é que é – segundo esse filosofo alemão – a verdadeira ilusão. “Tão logo, porém, o homem descobre que somente por necessidades psicológicas esse mundo foi montado (…) surge a última forma do niilismo, que encerra em si a descrença em um mundo metafísico, em que se proíbe a crença em um mundo verdadeiro”.

Se Nietzsche vê a queda dos antigos valores cosmológicos em geral numa época em que a prosperidade cresce – mesmo com crises periódicas – de um modo como nunca havia crescido na história, o que, afinal, veio e está aí se expandindo e que produz esse grande vazio?

Eis o que presume: por causa do cristianismo os humanos “perderam o gosto pelo egoístico, mesmo depois da compreensão da impossibilidade do nãoegoístico”. Ou seja, ele lamenta profundamente que a moral cristã tenham recalcado, intensamente, os instintos mais básicos do homem e, em especial, aquela qualidade do humano que denomina de “vontade de potência”, de tal modo que ele perdeu as suas certezas e está agora apenas mourejando pelos caminhos da vida.

É evidente que Nietzsche tem percepção aguda sobre a transformação do homem e de seu modo de ser na época moderna. Ele apreende a “desvaloração” dos valores que se manifesta na vida social da Europa e, em especial, na Alemanha, mas sua explicação sobre a causa profunda dessa transformação não se afigura plenamente satisfatória. E esta causa é, sem dúvida, para ele, terrena. Como, para ele, uma volta ao passado não é possível, só lhe resta aceitar criticamente o domínio do niilismo na vida contemporânea.

As manifestações do niilismo

Nietzsche é um autor atraente, mas também quase insuportável! Mas será que ele não tem alguma coisa a ensinar para quem acha ainda mais insuportável a violência efetiva do revoltado ignorante contra o ser humano em geral? É, pois, preciso procurar compreendê-lo da melhor forma possível.

Domenico Losurdo, em Nietzsche – O rebelde aristocrata (Editora Revan, 2009), investiga extensivamente quais seriam para o filósofo da “vontade de potência” as principais manifestações do niilismo, as quais o próprio filósofo alemão aponta sem cessar. De um ponto de vista conceitual, Losurdo mostra que o niilismo é uma categoria provinda da disjunção “tudo/nada”, de tal modo que o nada, identificado como o niilismo, aparece como uma negação absoluta do tudo. Nessa perspectiva, ele afirma que o niilismo, na tradição precedente, costumava estar associado com as revoluções.

Losurdo menciona, então, que há três possíveis posições em relação ao niilismo: de antagonismo, recepção rebelde e de vítima. A primeira o considera como algo negativo que pode ser imputado ao adversário no campo intelectual ou no campo político; assim posta, a acusação pode ser e em geral é rejeitada, podendo também ser devolvida ao primeiro acusador. A terceira o toma como causa de desilusão e de sofrimento: eis que a afirmação peremptória do vazio na vida social e, em especial, no campo do pensamento, apenas pode trazer angústia e náusea. A segunda posição é mais complexa, mas de todo modo ela implica numa aceitação desafiadora do niilismo: este é tomado “como sinônimo de um racionalismo crítico ousado e de compromisso pela transformação do mundo sem deixar-se intimidar pela autoridade constituída”.

Losurdo desdobra a segunda posição em duas outras que considera antagônicas, uma delas é, para ele, efetivamente crítica do existente e a outra se põe como metacrítica. A primeira, ao mesmo tempo em que nega os valores predominantes na sociedade ou que se reflete em determinada maneira de pensar, vale-se da dialética para propor uma superação desse estado de coisas. Eis que as pessoas estão atormentadas porque sofrem, sem o saber, com as suas contradições e com os seus antagonismos, quando elas, no fundo, não querem mais do que ser sãs e ter uma vida boa.

Já a segunda se vale de uma crítica total, arrevesada, que se empenha em afirmar que o estado atual de coisas assim como a sua crítica opositiva são igualmente niilistas. “À desmitificação” – diz – “é contraposta uma metadesmitificação; à crítica, uma metacrítica”. Assim, tanto a situação existente que recebe a crítica quanto a atitude que faz a sua crítica são acusadas de pertencer ao mesmo lócus de pensamento, à mesma casa ideológica. Assim, por exemplo, o crítico da religião atual é também um religioso que a renegou; o socialista que critica o capitalismo é apenas alguém que quer substituir o capitalista pelo burocrata no comando da sociedade.

Como essas posições se apresentam nos textos de Nietzsche?  Losurdo diz simplesmente que “a absoluta singularidade de Nietzsche reside em primeiro lugar na presença simultânea nele de todas as diferentes, possíveis atitudes em relação ao niilismo anteriormente citadas”.

Ao mesmo tempo em que critica o cristianismo, critica também o socialismo que evidentemente não desmerece alguns de seus valores fundamentais, tal como, por exemplo, a solidariedade e o amor ao próximo. Ao mesmo tempo em que, tal como foi visto na primeira citação, considera a desvaloração de todos os valores como fortemente negativa, ou seja, como o mais indesejado de todas as visitantes, também se sente atingido por ela.

O autor de A gaia ciência e Vontade de potência, como se sabe, sente-se também como o louco que matou Deus: “O que aconteceu, no fundo? O sentimento de ausência de valor foi alvejado quando se compreendeu que nem com o conceito de “fim”, nem com o conceito de “unidade”, nem com o conceito de “verdade” se pode interpretar o caráter global da existência. (…) Falta a unidade abrangente na pluralidade do acontecer: o caráter da existência não é “verdadeiro”, é falso… não se tem absolutamente mais nenhum fundamento para se persuadir de um verdadeiro mundo…”.

Há outra afirmação de Losurdo que merece atenção. Segundo ele, no curso dos escritos de Nietzsche, “a vítima do niilismo cede progressivamente o lugar ao rebelde niilista”. Note-se, então, que o filósofo alemão só foi capaz de pensar uma espécie de superação do niilismo por meio de um individualismo heroico e aristocrático que, segundo ele, não estaria aberto para todos os homens – não para aqueles que obedecem –, mas apenas para aqueles que sejam capazes de assumir o posto hierárquico de super-homens na sociedade – aqueles que mandam.

As contradições do niilismo

De qualquer modo, como não parece possível rejeitar e aceitar o niilismo ao mesmo tempo, está-se certamente na presença de uma contradição. Mas, e se o “rebelde niilista” puder ser compreendido como uma negação determinada, ainda que mistificada, do próprio pelo niilismo, que Nietzsche contesta?

Nesse caso, não haveria mais contradição formal e, em consequência, surgiriam duas possibilidades: ou essa negação se realiza por meio de uma posição socialista ou de uma posição individualista. Como o filósofo se mostra um antagonista do socialismo, entendido este como uma transfiguração da religiosidade debilitadora da vontade que se tornou terrena e profana, só lhe resta como negação do niilismo a aceitação do individualismo referido acima referido. Ora, a adoção literária de um homem novo que se vê como super-homem parece mais uma figuração do que um vaticínio!

Como Nietzsche o caracteriza? Losurdo explica que esse autor se opõe ao niilismo no plano de uma revolução no plano axiológico: “é o indivíduo bem-sucedido que ‘põe valor nas coisas’. A esse ‘valor’ não corresponde qualquer realidade, nenhuma coisa ou valor em si”. O rebelde niilista, nessa perspectiva, é aquele que é capaz “afirmar a sua potência e vontade de potência”.

Ora, a quem corresponderia no mundo real esse indivíduo bem-sucedido, levando em consideração que blasfema sem parar contra os malsucedidos? Talvez a resposta esteja numa consideração famosa em que Nietzsche apresenta duas manifestações desviadas da vontade de potência: “A forma dessa vontade de potência se modificou ao longo dos séculos, mas sua fonte ainda é o mesmo vulcão… O que antes fazíamos ‘por amor a Deus’ se faz agora por amor ao dinheiro… É isso que no momento confere a mais elevada sensação de potência”.

Losurdo, dando continuidade à sua argumentação, chega à conclusão de que o niilismo é uma categoria polêmica que precisa ser repensada em termos de classes sociais. Trata-se, para ele, de um sentimento que acomete as pessoas das classes dominantes porque elas se permitem um egoísmo excludente que mata o gosto e o prazer da própria vida social; ao excluírem a massa da população dos “banquetes da vida”, elas afundam na ausência dos valores que são requeridos para uma existência plena de sentido.

Ao invés de um egoísmo associado, por diversas mediações, à instituição da propriedade privada, esta exige que o ser social mantenha sempre uma simpatia profunda e comunitária pelos outros. Assim, Losurdo critica Nietzsche porque ele, erroneamente, vê emergir como produto do niilismo “ressentimento e rancor dos miseráveis e dos malsucedidos que, diante da riqueza, do poder e da hierarquia, colocam em discussão e negam a vida enquanto tal”.

A sociabilidade capitalista

Entretanto, mesmo não tendo simpatia por certas teses de Nietzsche, não se assume aqui que ele é o arquétipo do extremista de direita, um precursor complexo e sofisticado do fascista e do nazista. Essa posição parece ser insustentável. Admite-se, então, simplesmente, que a sua compreensão se ressente da ausência da crítica da economia política. Ora, diante dessa falta, o seu poderoso pensamento se concentra no exame da moralidade após o fim dos tempos medievais e do surgimento da temporalidade moderna.

Ao se adotar essa perspectiva, o niilismo surge como um produto da sociabilidade capitalista que invade e domina não apenas a subjetividade das classes dominantes, mas também a das classes dominadas. Se este filósofo pensava estar examinando um mal profundo que se devia à desvaloração de todos os valores, na verdade, ele perscrutara, sem o saber, a subsunção progressiva da subjetividade do homem moderno à lógica de reprodução automática da relação de capital.

É preciso recordar, então, que o capital se afigura objetivamente como uma lógica recursiva do “mais-e-mais”, ou melhor, do “sempre-mais”. Nas palavras de Marx, o movimento do capital é insaciável. Como se sabe, o autor de O capital apreende agudamente o modo como essa recursividade toma a subjetividade do capitalista enquanto capitalista: “Como portador consciente desse movimento, o possuidor do dinheiro torna-se capitalista. Sua pessoa, ou melhor, seu bolso, é o ponto de partida e o ponto de retorno do dinheiro. O conteúdo objetivo daquela circulação — a valorização do valor — é sua meta subjetiva, e só enquanto a apropriação crescente da riqueza abstrata é o único motivo indutor de suas operações, ele funciona como capitalista ou capital personificado, dotado de vontade e consciência. O valor de uso nunca deve ser tratado, portanto, como meta imediata do capitalismo. Tampouco o lucro isolado, mas apenas o incessante movimento do ganho.” (O capital, cap. IV).

Mas como se configura o comportamento do homem que serve ao capital em seu movimento de acumulação tendente ao infinito, isto é, aquela objetividade social que o próprio Marx denominou de sujeito automático? Ora, aquela “cientificidade” que chamou de vulgar apresentou os atributos desse comportamento como características específicas do homem econômico racional. Este, não há dúvida, é uma ficção, mas que, apesar disso, é bem informativa sobre o desempenho do homem real que dá suporte do capital.

Aquele indivíduo que convém ao capital, para começar, é também insaciável. Ele não se autolimita; ao contrário, não apenas quer alcançar uma dada meta quantitativa expressa em dinheiro, em cada momento do tempo, mas pretende sempre extrapolá-la; na perspectiva do tempo futuro, em consequência, quer conseguir sempre mais. Busca, assim, de maneira invariável satisfazer o seu autointeresse ou, de modo mais restrito, apenas os seus objetivos egoístas.

Para tanto, vale-se da racionalidade instrumental e otimizadora que, em princípio, instrui como alocar os meios disponíveis para atingir fins colimados. O homem que opera no sistema econômico, finalmente, é um ser competitivo que postula como natural querer suplantar todos os seus concorrentes no trabalho e nos mercados e, por extensão, na vida em geral. O seu lema é o individualismo “meritocrático”: o ganho pecuniário deve sempre provir, como resultado, da competência, dedicação, esperteza, dotação intelectual etc.

Agora é preciso mencionar que Marx, no trecho acima citado, parece admitir apenas que a lógica do capital se satisfaz em tomar para si apenas a conduta do capitalista. Mas é evidente que não pode ser assim. Eis que ela, como se sabe, invade a vida social como um todo e, assim, a subjetividade das pessoas de um modo generalizado.

Como mostrou o desenvolvimento histórico do capitalismo, a lógica do “sempre-mais” pode tomar também a subjetividade dos trabalhadores autônomos e assalariados, assim como dos pequenos burgueses em geral – e não só dos capitalistas. Eis que aparece então como um desejo de trabalhar mais e mais, de se aperfeiçoar mais e mais, para poder consumir mais e mais mercadorias e, eventualmente, para guardar algum dinheiro.

Ora, isto implica que a subsunção do trabalho ao capital, no curso da história, não se restringe e permanece apenas às formas funcionais no interior da manufatura e da grande indústria, ou seja, à subsunção formal e/ou real nos termos de Marx, mas também que extrapola essas esferas para assumir a forma social geral de subsunção mental e intelectual do trabalho ao capital.

De qualquer modo, é preciso ver como se dá a reação a essa lógica incrustrada na vida social como um todo: eis que costuma ser contida ou contestada por meio da religião, da arte e da política – entretanto, como mostrou Nietzsche, tudo isso perdeu força na sociedade moderna porque os valores não estão mais ancorados numa firme moralidade. Ora, se o valor maior é a reprodução mais rápida possível do capital, os outros valores perdem inexoravelmente a sua firmeza e preponderância. Ademais, tudo aquilo que contraria a lógica da acumulação, mas que não vai fundo no propósito de superá-la, pode, ao contrário do que pretende, alimentá-la e reforçá-la. Pouco importa se aqueles que sustentam a oposição parcial ao capital estão ou não conscientes da supremacia incontestável da relação de capital na sociedade moderna.

O capitalista e o trabalhador

Há em geral, no entanto, uma diferença crucial entre o capitalista e o trabalhador: eis que, no primeiro caso, não há subordinação, mas apenas uma disposição de servir ao capital que ele próprio possui como capitalista. Se este põe a sua vontade e a sua consciência à serviço dessa relação social, faz isso de bom grado e com proveito próprio; já o trabalhador assalariado – e mesmo o não assalariado – está objetiva e fortemente constrangido a pô-las a serviço do capital de outrem, mesmo se não lhe parece que seja assim, mesmo se ele pensa que o faz por que quer e para o seu próprio bem. Contudo, trata-se, sim, de uma conduta que lhe é imposta – isto é, imposta à sua subjetividade e ao seu modo de agir – porque ele, trabalhador, tem de acolhê-la por uma necessidade prática.

O trabalhador, em geral, internaliza os valores e as normas capitalistas porque é obrigado a fazê-lo. Eis que está submetido a um imperativo situacional. E ele só supera, eventualmente, este condicionamento objetivo por meio de uma crítica que passa pela prática de contestação e pelo conhecimento teórico que outro trabalhador (ou um partido político) possa lhe ensinar.

Ainda que pareça deliberado, esse comportamento toma o ser do trabalhador porque o capital se vale, sub-repticiamente, de suas pulsões positivas, orientadas à sobrevivência. Em princípio, se falta a prática crítica, o trabalhador permanece alienado e inconsciente de sua efetiva subordinação aos ditames do sujeito social e automático, isto é, do capital. Ora, não é ele, o capital enquanto tal, o inconsciente da vontade de potência desviada de várias maneiras na superfície da sociedade moderna?

À medida mesmo que o trabalhador – e principalmente aqueles das camadas médias – adere – e sempre tem de aderir até certo ponto – ao comportamento econômico, ele fica sujeito a enormes frustrações. Também se incluem nessa situação os autônomos e os pequenos empresários que, apesar de um certo orgulho, estão sempre à beira de um precipício econômico. Em geral, o ganho é baixo e ele não pode comprar o que deseja e que lhe é assoprado como necessário, dia após dia, pela propaganda e pelo marketing.

Nos períodos recessivos, ademais, o número de perdedores, aqueles cuja vida piora, aumenta muito em relação aos que melhoram, os “vencedores” na competição capitalista. Ademais, a adesão ao comportamento econômico não sai de graça para o ser humano; ao contrário, exige a repressão contínua dos valores familiares, comunitários e humanitários.

As frustrações podem se transformar e, muitas vezes, transformam-se em profundos ressentimentos, assim como numa raiva difusa que seu portador não é capaz de compreender. Eis que a lógica da geração de valor e, assim, da concorrência capitalista, reside no inconsciente social e se manifesta de modo distorcido e por meio de transferências: por exemplo, na Alemanha nazista, o judeu passou a ser visto como criatura corrupta do dinheiro e do capital. Ora, a pulsão da morte que move o extremista de direita se manifesta, no limite, como um desejo bestial de destruir tudo o que ele acha que o incomoda.

Aqui se sustenta que o niilismo, em última análise, é decorrência da preponderância dos valores econômicos na sociedade, um solo em que prospera não apenas condutas violentas e irracionais sejam no âmbito da família e da comunidade, mas também o fascismo na esfera da vida cotidiana e da política.

Este impulso aparece às vezes na conduta individual, mas, em certas condições, passa a ser colhido e organizado por partidos comandados por líderes carismáticos de extrema direita. A explosividade latente que está espalhada no seio da sociedade e que está fortemente presente em certos indivíduos se transforma, agora, em um movimento de massas que passa a desfilar sob a bandeira do ódio e em nome do culto de um chefe. A possibilidade de que chegue ao poder é onde reside o grande perigo.

É por isso que nas ruínas do neoliberalismo – “religião” da liberdade e da racionalidade do capital e não do ser humano possível que mora, sofrido e oprimido, dentro da personificação “homem econômico” – está medrando agora, em muitos países, a erva ruim e tóxica do neofascismo.

Resta, portanto, perguntar: afinal, que valor maior se alevanta? A questão está em aberto. Que tal um socialismo radicalmente democrático que supere a sociabilidade do capital, que promova os comuns, dentre eles o espaço democrático, e que assim não caia seja no autoritarismo seja no totalitarismo? Há alternativa? A possibilidade apontada existe, mas ela exige que se abandone a lógica do “sempre-mais”, do insaciável. Só assim o niilismo poderá ser efetivamente superado.

*Eleutério Prado é professor titular e sênior do Departamento de Economia da FEA/USP.

Observação: As teses deste artigo foram influenciadas pelos escritos de Wilton Moreira que se encontram em seu blog Poesia Agora.

Notas

[1]Todas as referências aos escritos de Nietzsche provém da obra de mesmo título, da Coleção Os pensadores, Abril Cultural, 1983, seção “Sobre o Niilismo e o eterno retorno”.