COP30 e a negação da política

Imagem: Tânia Rêgo/ Agência Brasil
image_pdf

Por MONICA LOYOLA STIVAL*

O consenso que as COPs buscam é a antítese da política — e só a explicitação dos conflitos inconciliáveis pode salvar o planeta

1.

O assim chamado “fracasso” da COP30 não é consequência da organização ou de alguma incompetência dos negociadores. Por mais qualificados que estes sejam e por mais adequada que seja a organização do evento, o limite da COP é estrutural. Seus ganhos são laterais, negociações “fora da agenda” ou do documento final – quando há – e insuficientes para salvar o planeta.

Vou tratar dessa questão em três pontos: a impossibilidade de sucesso inscrita no próprio formato da Conferência, a insistente “isenção política” do agro no contexto brasileiro e o sentido político dos ganhos relativos.

A ideia do consenso é abstrata e a necessidade de colocar às claras as diversas posições políticas deve ser recuperada. Um tipo de consórcio entre países signatários de um texto efetivamente posicionado poderia ser muito mais eficaz.

A pressão sobre os países que não se dispõem a agir de maneira mais “ousada” ou nem mesmo a mencionar a questão dos combustíveis fósseis em documentos oficiais por meio da diferença é o que poderia mover alguma negociação exitosa. Há negociação apenas quando há diferença, aliás, ao contrário da engenharia que dilui os problemas em um texto anódino.

O consenso é esvaziado de política. Logo, o horizonte de um consenso internacional recusa a política, obscurece a diferença e trava a disputa por um mundo melhor.

O agro passa ileso. Nem só de isenção tributária vive a agropecuária; ela vive também de isenção política. Na mídia, nas entrevistas, nas análises (eventualmente políticas) fala-se pouco ou nada do maior emissor de gases de efeito estufa no Brasil. A marca nada desprezível de 74% das emissões dos gases de efeito estufa no Brasil está ligada ao agronegócio.

Fala-se essencialmente dos combustíveis fósseis e da dificuldade de sequer mencioná-los no esperado documento final. De fato, do ponto de vista global é tema prioritário, inclusive porque sustenta o capitalismo canibal que, em última instância, gera a catástrofe climática. Porém, do ponto de vista do Brasil, é preciso destacar o agronegócio como importante promotor dessa catástrofe.

A força política desse setor econômico, que conta com reduzidíssima oferta de mão de obra, é equivalente à força política dos países produtores de petróleo. Por aqui, é este setor que despolitiza a questão e esvazia o debate. A politização no âmbito global deve ser concomitante à politização do problema da mudança climática internamente. É urgente explicitar que é pró e quem é contra. Os enfrentamentos indígenas diante dos grileiros e do desmatamento provocado pela expansão da fronteira agrícola precisam ser vistos como posição em disputa.

2.

É preciso tomar um lado. Não adianta reforçar essa ideologia da conciliação, do consenso e do acordo. Há uma contradição existencial em jogo. Daí a pauta da justiça ambiental ao invés da vaga “sustentabilidade”. Justiça é arbitrar sobre a diferença inconciliável. Não é dissolver a desigualdade que funda a contradição. Justiça ambiental e climática é condenar os culpados a ressarcir os prejudicados e evitar a repetição do dano (no jargão, externalidade negativa do modo de produção capitalista).

O discurso de que somos todos culpados, enquanto humanidade capitalista, é negacionista em relação à causa e consequência do prejuízo; povos originários não são, evidentemente, causadores do caos. Não pode haver justiça ambiental e climática enquanto a posição política que situa cada perspectiva na vida concreta for disfarçada ou diluída em nome de uma suposta conciliação ou consenso (vide o infame marco temporal e a “conciliação” ensaiada pelo STF).

A participação social tem sido comemorada, com razão, como o maior êxito desta COP em particular. A sociedade civil que circulava na zona verde é o que havia de efetivamente pró-vida na COP. Esse aspecto do evento é importantíssimo. A participação social é importante não só pela presença dos ativistas, de povos indígenas e movimentos sociais diversos, mas porque essa presença politiza o assunto. Essa presença tem um lado, tem uma defesa, tem uma pauta clara.

É isso que torna essa participação tão rica e, reconhecidamente, um ganho, um acerto desta COP e, portanto, do governo Lula. O governo federal viabilizou a participação social na Conferência e este foi seu ato político mais relevante. Além da zona verde, há política no discurso de Lula sobre contradições e sobre a necessidade de um mapa para ações práticas.

As falas que diminuem a presença da sociedade civil alegando que esta está alijada da zona azul e, portanto, dos debates e decisões, ignora que é fora da zona azul que aparece explicitamente uma posição política. Dentro da zona azul, ao contrário, as posições políticas são diluídas em uma ideia abstrata de consenso, o que já se mostrou totalmente ineficaz.

A Secretaria-Geral da Presidência, atualmente coordenada por Guilherme Boulos, tem como função exatamente o diálogo entre governo e sociedade civil. É a secretaria-geral que serve de porta de entrada para demandas socais e que procura mobilizar os ministérios fins (aqueles que atuam na execução de políticas públicas) em favor dessas demandas.

Isso significa que esse ministério é o órgão dedicado verdadeiramente à política, ultrapassando os limites da política institucional (espécie de zona azul). É a ação política para além do sistema político. A COP30 foi em parte um espaço concreto para a atuação política do governo junto à população.

3.

Em resumo, é urgente politizar a questão do clima, explicitar as posições inconciliáveis e agir de acordo com esse quadro concreto. E que não venham os analistas do estúdio a, b ou i dizer mais uma vez, como todos os dias, que é preciso deixar a política de lado – analistas políticos, por ironia.

Como se a “técnica” fosse pura, o que coloca as decisões fora do campo humano de posições políticas e morais e sugerem – por ideologia – que há um ponto de vista abstrato (logo, quase divino, extra-humano) que emerge dos contrários como uma decantação que retira “as impurezas” da política e determina a “verdade”.

Esta seria supostamente a posição virtuosa e racional explicitada em um consenso. Temos sofrido consequências concretas e perigosas da ideologia da neutralidade propagada por analistas políticos cuja análise é fundada na negação da política.

No caso específico do clima, a ideologia da neutralidade trava avanços maiores na defesa da existência, na defesa da vida. A forma do consenso é o mecanismo perfeito para uma antipolítica global. E tem servido também aos maiores emissores internos.

Se a estrutura das COPs recusa de partida a disputa política, a estrutura ideológica que tem seu principal ponto de apoio na grande mídia recusa de partida a possibilidade de atuar pela abertura do espaço público. Abertura à clareza de posição e à disputa política como qualidades sociais, não como defeitos.

A zona verde foi um espaço público provisório e pontual para a explicitação do sentido político das posições: quem está pela vida, pela existência, pelo planeta, e quem está pelo lucro e pelo sistema econômico apesar da vida, da existência e do planeta.

Nas relações internacionais, é necessário libertar-se da ideia de consenso e explicitar a disputa política e econômica entre países. No espaço público interno, brasileiro, é necessário libertar-se da ideia de neutralidade técnica e assumir a disputa política que define a posição existencial de opostos.

Neste ponto, sujeitos da sociedade civil pelo clima e pela justiça ambiental têm na agropecuária seu oposto inconciliável.

*Monica Loyola Stival é professora de filosofia na UFSCar. Autora, entre outros livros, de Que sujeito somos nós? Poder, racionalidade (neo)liberal e democracia (Edufscar). [https://amzn.to/41eZjaD


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
C O N T R I B U A

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
3
Os últimos intelectuais
09 Jan 2026 Por EMIR SADER: A academia, ao engolir o intelectual público, trocou a praça pelo campus e a língua comum pelo jargão — e, com isso, silenciou-se uma voz essencial para o debate democrático
4
Os Estados Unidos estão às cegas
12 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Trump não é um novo imperialista, mas o sintoma de uma potência às cegas: onde o capital financeiro desterrou as elites e a política virou um espetáculo vazio de projeto
5
Marx, Kepler
12 Jan 2026 Por RODRIGO NAGEM DE ARAGÃO: Marx viu em Kepler um espírito revolucionário: aquele que desvela a essência por trás da aparência, gesto que ele próprio repetiu ao expor as leis do capital
6
A suposta nova riqueza do imperador
11 Jan 2026 Por PAUL KRUGMAN: A guerra por petróleo na Venezuela é uma ficção: as reservas são superestimadas, os custos proibitivos e os únicos lucros reais são os de aliados políticos de Trump, não do contribuinte americano
7
Augusto Boal – oito peças inéditas
15 Jan 2026 Por STEPHANIE DA SILVA BORGES: No exílio francês, Augusto Boal levou o Teatro do Oprimido a novos patamares, escrevendo peças que traduzem opressões do "primeiro mundo" e transformam o impasse social em potência cênica
8
A racionalidade equívoca
11 Jan 2026 Por JOÃO QUARTIM DE MORAES: Posfácio do livro póstumo recém-lançado de Gérard Lebrun
9
Se armar para salvar o capitalismo financeiro!
13 Jan 2026 Por MAURIZIO LAZZARATO: O rearmamento europeu não é um projeto de defesa, mas um mecanismo financeiro desesperado: a criação de uma nova bolha de capitais para salvar um sistema que só conhece a reprodução através da guerra e da destruição
10
Guerra à vista?
15 Jan 2026 Por LISZT VIEIRA: A escalada militar trumpista, marcada pela invasão da Venezuela e ameaças unilaterais, transforma a soberania nacional em concessão da potência hegemônica e espalha a gasolina para um incêndio global
11
Críticas simétricas
10 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Resposta ao artigo de Luis Felipe Miguel
12
Responsabilidade intelectual e responsabilidade política
14 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A responsabilidade intelectual exige lucidez crítica sobre todos os lados do poder, recusando a manipulação seletiva da verdade em nome de supostas causas superiores
13
Desembaçando a Venezuela
09 Jan 2026 Por FABIO LUIS BARBOSA DOS SANTOS: O ataque à Venezuela expõe o colapso do liberalismo no abraço à direita radical, revelando um novo imperialismo que substitui a política pelo “embaçamento” entre mentira e força
14
O agente secreto
14 Jan 2026 Por ANDRESSA ANTUNES & MAURO FRANCO NETO: O filme opta por uma violência oblíqua e um passado fragmentado, revelando como o autoritarismo se entranha no cotidiano através de micropoderes e corrupção ordinária
15
O sequestro de Maduro e a terceira onda colonial
05 Jan 2026 Por VLADIMIR SAFATLE: O colonialismo 3.0 não disfarça mais: suas razões são a pilhagem, e sua lógica, a força bruta. Resta-nos responder com a clareza de quem sabe que a próxima fronteira do império é nosso próprio quintal
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES