Por JOSA MARTINS*
Dois poemas
Sísifo da Silva – empurrando pedra morro acima
Para todos os sísifos negros que subiram e não voltaram.
“[…] Várias vezes me senti menos homem
Desempregado e meu moleque com fome
É muito fácil vir aqui me criticar
A sociedade me criou, agora manda me matar […]” (Bill)
Era tempo primaveril,
terceiro dia do necro-semanal.
Vivido-nublado:
sol entre nuvens vermelhas –
com partículas letárgicas
de água-sangue,
o eterno retorno da morte.
No Morro da Tragicidade,
Sísifo da Silva ascende.
Não empurra pedra grega –
empurra pedra-destino.
O morro é seu 𝑙𝑜𝑐𝑢𝑠 ontológico,
a morte, sua condenação existencial.
O seu 𝑐𝑜𝑛𝑡𝑖𝑛𝑢𝑢𝑚 palmilhar
é a ratificação do veredito:
projetada está a obliteração do cume
para a existência negra.
Tombar na vereda
é seu destino necropolítico.
Sísifo da Silva ascende, cônscio:
não há alto salvífico,
tampouco redenção na andança.
Há tão-somente a consciência trágica
dos “da Silva”,
que empurram a história
com o próprio corpo-sangue
para morrer 𝑎𝑑 𝑖𝑛𝑓𝑖𝑛𝑖𝑡𝑢𝑚 –
e, 𝑎𝑑 𝑖𝑛𝑓𝑖𝑛𝑖𝑡𝑢𝑚, desvelar
o absurdo estruturo-existencial:
quem empurra a pedra-destino
morro acima
é aniquilado
quando ela despenca.
Mopri
Para Gilmar
“Sempre fui sonhador, é isso que me mantém vivo
Quando pivete, meu sonho era ser jogador de futebol
Vai vendo!
Mas o sistema limita nossa vida de tal forma
E tive que fazer minha escolha, sonhar ou sobreviver […]” (Racionais MC’s, 2002).
Na terra dos Maromomis
o dia principia
uma vez mais.
Aviões frenéticos.
o sol trivial
entre nuvens efêmeras.
Era um dia comum.
Disseram que foi no campo.
Na várzea do Santos Dumont.
Maquinaram te apagar.
Dispararam oito tiros.
Silêncio-sepulcral do mundo.
O campo permaneceu.
A bola permaneceu.
O chão idem.
És corpo-peso no chão.
Inexoravelmente
continuou no pó.
O corre seguiu.
A pelada também.
A mesma fita.
Quando a bola rola,
o gesto-quebrada retorna,
uma vez mais.
*Josa Martins é poeta e professora de filosofia do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), campus Cuiabá Octayde.






















