Cultura ou riqueza?

Bill Woodrow, Fósforo, 1994.
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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

Quando o presidente qualifica os eleitores nordestinos como “analfabetos”, revela não só indelicadeza ou grosseria. Antes de tudo, demonstra sua ignorância

Quem se acha… superior?! Se for por causa de riqueza pessoal, será visto como pobre de espírito. Se for devido à sensação de ser mais culto, será criticado como esnobe, característica de um indivíduo arrogante e carente de humildade.

Quem se sente superior aos outros, na verdade, apenas se iguala aos demais seres humanos neste sentimento de soberba – e incorre em um erro lógico: todos não podem estar acima da média… Pior, adota o viés da perseverança com uma validação ilusória: só conversar com sua turma, ou seja, com quem não o ameaça com questionamentos.

Quem compara, perde… Sempre achará alguém com maior cultura, riqueza, outros méritos ou virtudes pessoais.

Quando o presidente chucro qualifica os eleitores nordestinos (sábios ao não votar nele) como “analfabetos”, revela não só indelicadeza ou grosseria. Antes de tudo, demonstra sua ignorância!

Em tal cargo, dado seu desconhecimento de causa, antes de nomear uma série de ministros da Educação desqualificados, ele deveria ter uma noção básica das distintas necessidades regionais de políticas públicas. Em vez disso, nomeou um sujeito ligado à Universidade privada presbiteriana para acobertar mais uma corrupção em seu governo: pastores cobrarem barras de ouro em troca de liberação de verba orçamentária.

Deveria saber: de acordo com o último censo demográfico de 2010 (seu governo se mostrou incapaz de cumprir essa obrigação institucional), a região Nordeste tinha 2,215 milhões de graduados em Ensino Superior. Esse número superava o da região Sul com 2,203 milhões e o da região Centro-Oeste e Norte combinadas: 1,790 milhão.

Evidentemente, todas essas pessoas reunidas ainda eram um número inferior ao do Sudeste com 7,280 milhões ou 54% do total. A participação relativa da população dessa região é 42% do total, evidenciando a concentração educacional ser maior.

Em 2020, o Nordeste tinha 1,829 milhões estudantes matriculados em curso superior, número superior ao do Sul (1,520 milhão), Centro-Oeste (770 mil), Norte (678 mil). Só abaixo do número no Sudeste (3,882 milhões). Alguém poderia contra-argumentar: mas relativamente à população de cada região… Comprovaria tudo ser relativo, mas não se pode deixar de considerar o número absoluto superior. Não significa “massa cultural”?

Juntos, três estados da região Sudeste, São Paulo (2,075 milhões), Minas Gerais (857 mil) e Rio de Janeiro (785 mil), possuem 42,8% do total de matrículas do ensino superior do país. Em números absolutos, Bahia (414 mil) em sexto lugar supera Santa Catarina (408 mil) em sétimo, ou seja, o Nordeste necessita sim da presença do Estado brasileiro!

Mas, contra fato, há argumento. Três estados da região Norte, Rondônia (86%), Amazonas (84,7%) e Pará (84,4%), têm o maior percentual de alunos matriculados em IES privadas. O Rio Grande do Norte é o estado com menor percentual de alunos na rede privada (57,8%), logo abaixo da Paraíba (59%) e do Piauí (61%). Pergunta: o ensino superior da rede pública não é de melhor qualidade? A rede privada não se interessa pelos mais pobres nordestinos? Então, a rede pública a substitui.

No ranking anual de 2022 das melhores universidades do mundo da Times Higher Education, revista britânica especializada em Educação, constam 70 brasileiras entre 1.662 instituições de 99 países. O ranking é baseado em 13 indicadores de performance das instituições em quatro áreas: ensino, pesquisa, transferência de conhecimento e reconhecimento internacional.

No Brasil, USP (Universidade de São Paulo), UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) e UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) lideram nessa ordem. A UFS (Universidade Federal de Sergipe), em 5º. lugar, superou a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) em 6º. A Unifor (Universidade de Fortaleza) subiu de posição para 8ª, acima da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) em 9º. A UNB (Universidade de Brasília) e Unesp (Universidade Estadual Paulista) caíram e deixaram de estar entre as 10 primeiras. Parodiando: “o mundo gira, o Brasil roda”…

Diploma de Ensino Superior oferece status social, mas implica em maior cultura? Por exemplo, a área de negócios, administração e direito liderou o número de concluintes em 2020, em curso presencial 283 mil (32%) e em Educação à Distância. No total, EAD alcançou 400 mil concluintes, enquanto presencial somou 878 mil, entre esses, 692 mil em rede privada e 186 mil em pública.

Em 2021, 1,351 milhão alunos se matricularam em alguma especialização (84% em rede privada), 271 mil em mestrado (64% em rede pública) e 170 mil em doutorado (76% em rede pública). A qualidade do ensino da pública é mais atraente para os não ressentidos.

O número de docentes em exercício na rede pública, com tempo integral, partiu de 113.225, em 2011, e atingiu o total de 147.771, em 2020. Em tempo parcial, evoluiu de 17.418 para 17.819. Quanto aos horistas, partiram de 8.941 caíram para 5.740. Em contraponto, nas IES privadas predominavam, em 2020, funções docentes de exercício em regime parcial (80.744), seguidas de horistas (63.627) e de tempo integral (50.588).

Quanto à titulação dos docentes nas IES públicas, houve uma tendência crescente e contínua de maior qualificação, ao longo da década, registrando aumento de 66% no número de docentes com doutorado. Os doutores eram 70.990, correspondendo a 51% dos docentes em 2011, e alcançando 69%, ou 118.353, em 2020. Os mestres docentes perderam 7 pontos percentuais em participação, ficando com 38.545 ou 22,5%.

Em relação à escolaridade das funções docentes em exercício nas IES privadas, predominava o mestrado (48%), em 2020, seguido do doutorado (30%) e da categoria até especialização (22%). As universidades apresentavam o perfil com maior qualificação, pois 64,3% de docentes tinham doutorado em 2020. Nas faculdades isoladas, foram totalizados, entre os docentes, 27,8% de doutores e 45,5% de mestres.

Pouco importa a qualidade do ensino superior? Basta para o enriquecimento pessoal ter qualquer diploma de uma “Uniesquina”?

Primeiro, quanto maior o grau de escolaridade, maior a média salarial mensal do trabalhador. Um profissional com ensino superior completo, em 2019, recebeu uma remuneração média de R$ 6.324 mensais (ficando entre os 10% mais ricos), quase três vezes o valor médio de um empregado com apenas o ensino médio (R$ 2.322), este pouco superior à média recebida por quem tinha fundamental completo (R$ 2.040).

Segundo, com fundamental completo apenas a metade encontrava ocupação, com ensino médio completo cerca de 2/3 se ocupavam e com superior completo quase 80% conseguiam emprego. As titulações e/ou as reputações profissionais contavam muito.

Pelo Censo de 2010, existiam 13,5 milhões pessoas com nível superior completo. Nos dez anos seguintes, entre 2011 e 2020, foram concluintes 11,4 milhões, sendo apenas 21% em rede pública: 12% em federal, 7% em estadual e 2% municipal.

Logo, dois anos atrás a estimativa oficial era haver 24,9 milhões brasileiros com esse nível de escolaridade superior. Em média, nos países da OCDE, 39% dos adultos tinham nível superior. Entre os países da OCDE e parceiros, eram 20% ou menos no Brasil (14,7%), China, Indonésia, Itália, México e África do Sul. Eram 50% ou mais no Canadá, Irlanda, Israel, Luxemburgo, Coréia, Federação Russa e Estados Unidos.

Os dados, em nível nacional, escondem frequentemente importantes desigualdades regionais. Por exemplo, no Brasil, a proporção de adultos de 25 a 64 anos com escolaridade abaixo do ensino médio varia de 30% no Distrito Federal a 67% em Alagoas, uma diferença de mais de 35 pontos percentuais. Nordeste necessita de política pública!

Na maioria dos países da OCDE e parceiros, as regiões das capitais concentram maiores parcelas de pessoas altamente qualificadas. Na Federação Russa, três em cada quatro adultos na região da capital (Moscou) atingiram o nível superior e nos Estados Unidos e no Reino Unido dois em cada três adultos o fizeram. Nesses países, a diferença na percentagem de pessoas com nível superior entre a região com a percentagem mais elevada e a região com a percentagem mais baixa ultrapassa os 30 pontos percentuais.

O Credit Suisse Global Wealth Report 2022 apresenta informações sobre as mudanças na riqueza das famílias durante o ano civil de 2021. No total, os Estados Unidos ganharam US$ 11,4 trilhões e a segunda colocada, China, ganhou US$ 4,2 trilhões.

No lado negativo, o Brasil foi o maior perdedor em 2021 em todos os aspectos. Perdeu US$ 839 bilhões, devido à depreciação de sua moeda nacional em relação ao dólar americano. Isso equivaleu a um declínio de 24% na sua riqueza pessoal média.

O relatório considerava 155 milhões adultos no Brasil em 2021. Esse número era 2,9% do total do mundo com riqueza total de US$ 3.327 bilhões ou 0,7% do total mundial. A riqueza por adulto era US$ 21.429, somando US$ 14.329 de riqueza financeira (66%) e US$ 11.355 de não financeira (53%), descontando US$ 4.255 de dívida (20%). A riqueza mediana era apenas US$ 3.743, demonstrando sua profunda desigualdade social.

Para relativizar esses dados, basta comparar com a riqueza média mundial por adulto de US$ 38.595, sendo US$ 23.268 riqueza financeira, US$ 21.693 não financeira e US$ 6.366 dívida. A riqueza mediana era US$ 8.360. Pobres brasileiros, enxerguem-se!

Quando for criticar, se queixar ou discriminar alguém, o presidente despreparado antes deveria estudar, olhar para si e para dentro do país. Não sendo capaz de estudar, dado o seu tempo ocupado em jet ski e motociatas, deveria levar em conta a sabedoria popular através do ditado: “antes de você falar, ouça; antes de agir, pense; antes de criticar, conheça. E antes de desistir, tente melhorar”.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Rede de apoio e enriquecimento. Disponível em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2022/09/20/rede-de-apoio-e-enriquecimento-baixe-o-livro/

 

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