O caso Assange

image_pdf

Por SERGIO AMADEU DA SILVEIRA*

Os pilares das democracias não podem se sustentar sobre a farsa, a desinformação e a dissimulação

Certamente é difícil definir qual o maior exemplo de desinformação dos últimos tempos. Mas, certamente o caso Assange se encontra entre as mais danosas e agressivas farsas já montadas nos últimos anos. Julian Assange encontra-se preso no Reino Unido por liderar o Wikileaks, uma organização que visa publicar vazamentos de organizações poderosas, tais como Estados e grandes corporações. O critério de publicação da organização é que os conteúdos sejam comprovadamente verdadeiros e relevantes para a opinião pública mundial. Apesar das tentativas de desqualificá-lo, Assange praticou a boa investigação jornalística e, por isso, está sendo calado e preso.

O dano que a prisão de Assange trouxe para a liberdade de imprensa é descomunal. Os Estados Unidos, país que usa a lógica da razão de Estado para fulminar a liberdade de expressão e aprovar atos de censura interna em nome da luta contra o terror, também pratica operações de extrema violência e dissimulação. Washington emprega suas agências de inteligência e realiza operações que vão do assassinato de reputações à execução física de pessoas pelo mundo afora. Assange foi vítima da tentativa das agências dos EUA de destruir sua imagem para deslegitimar o seu trabalho.

As agências norte-americanas armaram contra o líder do Wikileaks uma acusação de estupro na Suécia.  Essa acusação foi base de um chamado prioritário de captura pela Interpol. Preso na Reino Unido pela armação que movia as autoridades suecas, Assange pede asilo na embaixada do Equador. O Reino Unido não permite que ele se desloque até o aeroporto em carro oficial da República do Equador para se deslocar até o país da América do Sul. Como uma ditadura qualquer, a alardeada democracia liberal britânica ameaça até invadir a embaixada que dá asilo para Assange. Meses depois, a Suécia retira a acusação contra Assange. A farsa era insustentável.

O motivo pelo qual o Reino Unido prendera Assange caía por terra. Mas esse não era o motivo real de sua perseguição. Curiosamente, a Inglaterra sustenta que ele violara sua prisão residencial. Dada a fragilidade das acusações que fariam até os promotores da Lava Jato se envergonharem, só restava aos EUA aparecerem com seu objetivo real. Assim, as autoridades estadunidenses apresentam no Reino Unido 17 acusações contra Assange.

Ele é acusado de conspiração à espionagem. Em seguida, os arautos da farsa pedem a sua extradição para o país que tem prisões secretas em diversos locais do planeta e que executa a tortura em manuais já vazados e publicados pela imprensa mundial. Não é a Venezuela que descrevo, são os Estados Unidos, o exemplo de democracia. Esse país que fala de direitos humanos enquanto tortura o “detainee” em Guantánamo, uma zona em que prevalece o estado de exceção, como bem nos alertou Giorgio Agamben.

Assange nunca foi espião. Ele agiu como todo bom jornalista investigativo deve agir. Uma vez que recebeu informações comprovadamente verdadeiras que demonstravam os crimes de guerra das forças militares dos EUA, ele fez o que todo manual do bom jornalismo recomenda. Assange divulgou a verdade sobre as práticas sinistras e criminosas das forças armadas do país que se arvora no direito de ser a polícia do mundo. Edward Snowden, em 2013, mostrou que a agência de inteligência digital norte-americana espionava aliados e milhões de pessoas não para combater o terrorismo, mas para obter inúmeras vantagens, econômicas e políticas.

Assange é preso político no Reino Unido. Segundo o relator de direitos humanos da ONU, Assange é vítima de uma grande farsa e está submetido a tortura psicológica. Os britânicos cumprem mais uma vez seu lamentável papel de seguir os ditames de Washington. Atrelados a uma lógica geopolítica desastrosa, o Reino Unido nos mostra que de nada vale os direitos humanos e a liberdade de imprensa quando o que está em jogo são a manutenção da cadeia de poder comandada pelos Estados Unidos.

O caso Assange é um exemplo de que a desinformação praticada pelos Estados Unidos deve ser denunciada. Desde a farsa “da ocupação do Iraque contra armas de destruição em massa” até “a luta contra a corrupção no planeta”, as agências norte-americanas são um risco constante para a verdade e para o direito dos povos à informação correta e de qualidade.

Sem conseguir negar a veracidade das imagens do helicóptero Apache que assassina civis e os repórteres da Reuters em Bagdá, conhecido como “Collateral Murder”, sem ter como desmentir os comunicados das embaixadas norte-americanas divulgados pelo Wikileaks, entre outros vazamentos de informação, os EUA optam pelas táticas de guerra que conhecem tão bem. Mentir, dissuadir, confundir, ofuscar. Esses são os verbos apropriados para falar das ações praticadas pelas autoridades norte-americanas.

Além da notória farsa contra Julian Assange, a imprensa internacional descobre que a CIA debaixo do governo do democrata Barack Obama planejava sequestrar e matar Assange. Isso é um sinal de que o imperialismo é maior do que ocupantes provisórios de cargos no governo. Há uma lógica no poder estadunidense que precisa ser denunciada. Não podemos aceitar mais tamanha falsidade, tanta mentira, tanta desinformação. Chega de complacência com autoridades que se arrogam democráticas enquanto bloqueiam o direito dos povos à informação.

O que mais assusta é que a maioria esmagadora da opinião pública internacional sabe que Assange está preso por divulgar a verdade sobre os crimes de guerra dos EUA. Até quando vamos aceitar essa farsa? Até quando podemos ver a vida de uma pessoa destruída por que Washington quer vingança? Podemos continuar aceitando o cinismo como principal estratégia nas relações internacionais comandadas pelos Estados Unidos? Seria a ideia de que as razões de Estado estão acima do direito dos povos a obter informação verdadeira ainda válida? Legitima?

Os pilares das democracias não podem se sustentar sobre a farsa, a desinformação e a dissimulação. Caso isso fosse possível no mundo das comunicações de massa, não é mais viável atualmente. Combater a desinformação é fundamento das democracias. Fracassar nessa batalha é fortalecer a principal estratégia da extrema direita mundial que quer igualar governos democráticos aos autoritários, para desfechar nos primeiros o golpe mortal dos ditames neoliberais que hoje flertam com o fascismo.

Afinal, dizem os líderes da direita alternativa norteamericana, “a liberdade não convive mais com a democracia”.  Que liberdade? A liberdade de ultra exploração econômica e toda sorte de negacionismo, o direito de agressão, o discurso de ódio entendido como liberdade de expressão, coisas típicas da direita norteamericana.

P.S.: Peço que todas e todos se engajem na defesa da liberdade para Julian Assange. Essa farsa tem que acabar. Se estiver em São Paulo, no dia 25 de fevereiro, das 11h às 13 horas, venha no protesto pela liberdade para Assange em frente ao consulado do Reino Unido, na rua Ferreira de Araujo, 741, Pinheiros.

Sim, esse artigo termina com uma convocação.

*Sergio Amadeu da Silveira é professor da Universidade Federal do ABC. Autor, entre outros livros, de Software livre – a luta pela liberdade do conhecimento (Conrad).

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Os últimos intelectuais
09 Jan 2026 Por EMIR SADER: A academia, ao engolir o intelectual público, trocou a praça pelo campus e a língua comum pelo jargão — e, com isso, silenciou-se uma voz essencial para o debate democrático
2
O sequestro de Maduro e a terceira onda colonial
05 Jan 2026 Por VLADIMIR SAFATLE: O colonialismo 3.0 não disfarça mais: suas razões são a pilhagem, e sua lógica, a força bruta. Resta-nos responder com a clareza de quem sabe que a próxima fronteira do império é nosso próprio quintal
3
No capitalismo mafioso Nicolás Maduro veste Nike
07 Jan 2026 Por IVANA BENTES: A imagem de Nicolás Maduro em Nike Tech Fleece simboliza o capitalismo mafioso, onde a pilhagem geopolítica se converte em mercadoria viral e a guerra vira entretenimento consumível
4
O ditador (preferido) da rede Globo
08 Jan 2026 Por ROSÂNGELA RIBEIRO GIL: Na TV, a palavra "ditador" é arma ideológica: serve ao poder que a paga, encobre as tiranias reais e sequestra a soberania das narrativas
5
Os Estados Unidos estão às cegas
12 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Trump não é um novo imperialista, mas o sintoma de uma potência às cegas: onde o capital financeiro desterrou as elites e a política virou um espetáculo vazio de projeto
6
O retorno do imperialismo nu e cru: o sequestro de Maduro e a Doutrina Donroe
04 Jan 2026 Por PEDRO PAULO ZAHLUTH BASTOS: O avanço de uma estratégia transacional e coercitiva dos Estados Unidos sobre a América Latina marca o fim da retórica liberal e coloca em xeque a soberania nacional frente à disputa por recursos estratégicos
7
As bravatas de Donald Trump
08 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A lucidez política exige rejeitar as fábulas maniqueístas: é possível condenar a agressão imperial sem endeusar regimes autoritários, pois a história real raramente oferece heróis
8
Críticas simétricas
10 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Resposta ao artigo de Luis Felipe Miguel
9
Marx, Kepler
12 Jan 2026 Por RODRIGO NAGEM DE ARAGÃO: Marx viu em Kepler um espírito revolucionário: aquele que desvela a essência por trás da aparência, gesto que ele próprio repetiu ao expor as leis do capital
10
A suposta nova riqueza do imperador
11 Jan 2026 Por PAUL KRUGMAN: A guerra por petróleo na Venezuela é uma ficção: as reservas são superestimadas, os custos proibitivos e os únicos lucros reais são os de aliados políticos de Trump, não do contribuinte americano
11
Desembaçando a Venezuela
09 Jan 2026 Por FABIO LUIS BARBOSA DOS SANTOS: O ataque à Venezuela expõe o colapso do liberalismo no abraço à direita radical, revelando um novo imperialismo que substitui a política pelo “embaçamento” entre mentira e força
12
O inferno de Borges
31 Dec 2025 Por LUCIANA MOLINA: Enquanto a biblioteca representa o paraíso para a literatura, a realidade das escolas públicas brasileiras revela um cenário de exclusão, onde instituições sem bibliotecários e livros lacrados aprofundam o abismo cultural
13
A colônia petrolífera de Donald Trump
10 Jan 2026 Por CLAUDIO KATZ: Entre o sequestro de Maduro e o desejo pelo petróleo, Trump resgata o colonialismo explícito e desafia a soberania regional, transformando a Venezuela no marco zero de um novo e perigoso domínio imperial
14
A racionalidade equívoca
11 Jan 2026 Por JOÃO QUARTIM DE MORAES: Posfácio do livro póstumo recém-lançado de Gérard Lebrun
15
Afinidades seletivas
06 Jan 2026 Por RICARDO MUSSE: Considerações sobre o livro de Perry Anderson
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES