Decomposição dos pássaros

Ellen Gallagher, Pássaro na Mão , 2006 / Tate
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Por HUGO ALMEIDA*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Eltânia André

1.

Que ninguém se deixe enganar com o título, a ilustração da capa, nem com a estreita lombada do novo livro de Eltânia André (Cataguases, 1966), Decomposição dos pássaros. A exemplo de seus trabalhos anteriores, a experiente psicóloga e premiada escritora, autora de contos e romances notáveis, explora, com maestria, as angústias, incertezas, memórias e os mistérios da vida e da mente humanas, nas densas, substanciosas páginas dessas 10 histórias recentes.

Trata-se de uma profunda, inquietante e destemida incursão nos problemas, nos nós, nas questões interiores, de todos nós, e da civilização em perigo. Com alto apuro literário, estilo elegante, sóbrio, limpo e bonito. O coração na alma, a razão na história.

O texto de Eltânia André não tem nada dos cacoetes mecânicos de aplicados alunos de oficinas literárias e pouca leitura, não segue as lições de manuais de como se escreve um conto. Ao contrário, a escritora imprime a suas histórias um veio próprio, rico, sinuoso, mas plausível e claro.

Por isso Decomposição dos pássaros é original, cativa e encanta do primeiro ao último texto, todos povoados de terremotos familiares e existenciais, de casas desoladas, de tragédias, do cotidiano e dos bastidores doméstico e histórico, o mundo em permanente conflito, em decomposição. Uma ebulição de pessoas iguais a cada um de nós em momentos de aflição e desafio, tudo enriquecido por referências literárias, musicais, cinematográficas, em harmonia com a história narrada.

Diante de um livro de prosa, poemas ou ensaio, um leitor bem formado e de bom gosto percebe o embate tentativa versus êxito na fatura literária. Vê com nitidez a diferença entre os vacilos e defeitos e a segurança, o controle, o esmero estético de um texto literário, sem prejuízo das questões socioeconômicas e da experiência humana na Terra.

O leitor dos contos de Eltânia André – que escreve sem a dor da pressa, na expressão de Fernando Pessoa, e sem cair no psicologismo – não terá dúvida de ter diante dos olhos histórias inesquecíveis. Temas e texto em tensão e harmonia. Um palimpsesto de deleite e inquietação, pontuado de humor e riso, às vezes apaziguadores. Pedagogia de fraterna sensibilidade. A razão é simples: quem nos traz os contos de Decomposição dos pássaros, narrados em primeira pessoa, seja voz masculina ou feminina, de jovem, adulto ou idoso, é autora singular, de estilo e enredos irmanados: sonho, pesadelo, realidade – arte.

2.

Suas epígrafes compõem um elo forte, diálogo preciso, entre o título e o texto de cada conto, desde a primeira história, “Pluma e osso”, em que João Melo anuncia “um mundo puro e inocente” e “tempos das grandes labaredas e das fomes imensas”. Nessa narrativa de sabor clássico, conhecemos a sofrida vida de Ellen, acossada pelo criador de gansos para a produção de patê de fígado, o repugnante Breno Galvão, patrão do pai da moça. Depois ainda aparece o doutor Louçã, o mandachuva da Forceluz de Cataguases que emprega pai e filha. Mais não se pode dizer, que o leitor conheça as agruras da família e como a Guerra de Troia e Penélope entram na vida de Ellen.

“Tudo o que o mestre mandar”, o segundo conto, traz a história de Valtinho e Vando, que ganhou o apelido de Van Gogh depois que teve uma orelha decepada pela mordida do irmão. Na epígrafe, Ana Martins Marques afirma que na infância “cometemos nosso primeiro crime”. Com um inusitado método, Ilda, mãe dos garotos, consegue torná-los amigos inseparáveis. Angústia e alegria. Obra-prima.

“Os relógios estão na eternidade”, avisa Orides Fontela na epígrafe de “A última música: 2 minutos e 35 segundos”, belíssima e triste história de Antônio Relojoeiro, narrada pelo filho Beto, xará do Guedes, autor da instrumental “Belo Horizonte”, música evocada no título e fundamental no enredo. A intertextualidade surge no primeiro parágrafo do conto: “Vim porque aqui nasceu e viveu o meu pai”, frase que lembra o início de Pedro Páramo, de Juan Rulfo.

Antes de ser internado, na ausência do filho, o protagonista, “sócio de Cronos”, “guardião das horas”, silenciou todos os relógios da loja e disse algo tão singelo quanto comovente a um vizinho: “Acredito piamente nisto: foram os egípcios que inventaram o relógio do sol”. Adulto, “expectativa e espectador”, Beto recorda as coisas simples que teria construído com o pai: um remendo numa rede de pescaria, um pião talhado a canivete, uma aeronave ou um barco de papel. Roteiro para um belo curta-metragem.

Também bonito e poético, “Márrio-Riomar: um nome todo água”, história de temor e solidão, é precedido pelo verso “O rio me arrebata e eu sou esse rio”, do poema “Heráclito”, do livro Elogio da sombra, de Jorge Luis Borges. Narrativa primorosa, de final tão admirável quanto o início e o percurso caudaloso, ao som de samba, pagode e Pink Floyd.

Em “Céu na boca”, de sentido duplo, a epígrafe de Brecht alerta para a luta, por vezes hipócrita, para se ganhar o pão de cada dia. No admirável primeiro parágrafo, já vemos que o megalomaníaco, mentiroso Edmundo Fontes, com sonhos de voar, encarna esse tipo. No meio da história, a narradora alerta o sujeito, já em desgraça na ambiciosa carreira, com um conselho de Churchill: “Se você vai passar pelo inferno, não pare de andar”. Do início ao último parágrafo, um lapidado texto, que poderia se chamar “O triste fim de Edmundo Fontes”, personagem tão diverso de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.

3.

Na epígrafe do conto-título, outro de extração clássica e o mais curto do volume, Nuno Júdice mostra como ajustar os olhos que procuram pássaros, metáfora das buscas de Josué, homônimo do destemido personagem bíblico na conquista da Terra Prometida. Ainda que um pequeno pardal participe da história, o que lemos é uma paráfrase do êxodo. “Iria embora de casa ao completar a maioridade, abarrotaria a mala de lembranças (poço sem fundo) com as imagens que recolheria em suas andanças (ou exílio?)”. Quando alguém, no início do terceiro milênio, organizar uma antologia de contos brasileiros do século XXI, certamente incluirá esse “Decomposição dos pássaros”.

“Subindo as montanhas de xisto da Bulgária ou Assassinando a lógica com a caneta de Campos de Carvalho” é a única história do livro sem epígrafe, dispensável pela evocação de seu guia no título. Curiosa e divertida trajetória do errático e picaresco Astrogildo (“ou Walter, como preferirem”) acompanhado de Dersu Uzala, do filme de Kurosawa. Ele pensou em escrever um livro com o diabo como protagonista, mas desistiu por não “encontrar humor” no demo, concordou com a historiador francês Georges Minois (“Deus foi sarcástico ao considerar o hipopótamo o ápice de sua criação”), não concluiu a leitura de Os miseráveis, de Victor Hugo, mas nunca se esqueceu do protagonista Jean Valjean, que a “salvou de poucas e boas […] mas não da solidão”, e antes de terminar seus dias tocava “na gaita a trilha sonora” de O dólar furado.

Não à toa, portanto, que seu enterro foi acompanhado ao som de Gianni Ferrio, autor da trilha sonora do faroeste. A frase final é um arremate de mestre, une Jesus, nome do motorista do carro fúnebre, e o despontar da lua na Ásia, de Campos de Carvalho. Conto também antológico.

O verso “Amei todas as perdas”, do espanhol Antonio Gamoneda, dá o tom de “Construção”. Entremeado dos ruídos de instrumentos em uma construção, é a história de perdas e danos, de decomposição, da família de uma anciã de memória surpreendente. “Era um tiquinho de gente, assim ó, mas não esqueço nada”.

4.

Deliciosas frases da oralidade, sobretudo mineira, marcam a fala da mulher. Uns exemplos: “Igual eu já te falei…”; “…foi embora caçar um lugar pra ficar”; “…ele fazia birra e tacava o pão duro longe”. No fim, esmerado parágrafo, nem na hora do almoço dos trabalhadores da construção há silêncio total: ao som de colheres rapando o fundo das marmitas somam-se o grito de um casal de maritacas no ar e outro ruído, trágico, do choque de uma cadeira de rodas “com o madeirame da porta roído por cupim”).

“Sob o som das matracas”, depois das maritacas e da matriarca, uma história terrível, versos de Hilda Hilst a nos alertar: “É crua a vida/ alça de tripa e metal”. Um homem conta a um primo detalhes cruéis, em versões ausentes dos livros, da participação do avô, herói anônimo e sem pensão da Revolução de 32, o “fiasco nacional, brasileiro matando brasileiro”. Também aqui Eltânia André contrapõe a descrição sem filtro de corpos dilacerados (“toda guerra é um horror”) com expressões populares, como “cavoucou com a unha e cuspiu a bala” e “você é bobo de tão manso”. história pungente que não deixa nenhum coração de pedra insensível.

Campos de Carvalho, “terrivelmente bíblico”, liga o título de “Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira” ao conto, em que conhecemos semelhanças (ambas perderam a visão “às vésperas de completar doze anos”) entre a mística búlgara Vangelia Pandeva Surcheva (1911-1996) e a baiana Evangelina Augusta da Silva (1940-2021), que teve nascimento difícil (uma beleza a descrição do penoso e obstinado trabalho da parteira Hipólita).

Há outras passagens pungentes: “A mãe, já recomposta, com a filha aconchegada ao peito, é imagem da qual Hipólita nunca se esquecerá. Sabia de antemão, pelos arrepios na nuca, do destino da menina”. Logo na frase depois dessa, uma de fino humor metalinguístico: “O barulho dos copos se quebrando e o cheio da aguardente deram sinais da volta da normalidade e a parteira não tinha mais o que fazer lá (nem aqui)”.

Eltânia André conta assim um encontro entre a profetiza e a autora de A hora da estrela: “Acredita-se que no remanso da noite, Clarice Lispector […] encontrou-se com Evangelina, a nossa Baba Vanga […] A escritora entrou sozinha e saiu de braços dados com Macabeia”. No conto, Eltânia André homenageia outras mulheres, como Marielle Franco e Dandara dos Palmares, assassinadas, e Margarida Maria Alves, que preferiu a morte à escravidão. Mescla de realidade e ficção, o conto, antológico, é um cântico em defesa da fraternidade, da justiça social e da “divisão do pão, do peixe”.

Os dez contos de Decomposição dos pássaros, leitura de inquieto e por vezes assombroso arrebatamento, destilam esplendores e misérias da vida humana. Um livro que vai atravessar o século. Eltânia André precisa ser mais lida e divulgada.

*Hugo Almeida, jornalista e escritor, é doutor em literatura brasileira pela USP. Autor, entre outros livros, de Mil corações solitários (Sinete). [https://amzn.to/4tPckp2]

Referência


Eltânia André. Decomposição dos pássaros. Cotia, Editora Urutau, 2025, 96 págs. [https://encurtador.com.br/EJHn]

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