Donald Trump e as revoluções paralelas

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Por TARSO GENRO*

Entre Lincoln e Trump, desenha-se a parábola trágica de uma nação que mitificou sua excepcionalidade: o mesmo país que gestou a democracia moderna agora pariu seu coveiro, armado de ignorância voluntária e nostalgia colonial. O mundo observa, entre o horror e o ceticismo

1.

Estaremos nos acordes finais das influências da Revolução Francesa e das demais Revoluções do Século XX? Estamos na iminência de uma nova era multipolar em crise de identidade ou estamos com a barbárie batendo em nossas portas? Ou o abismo já nos engoliu? Em 16 de abril deste ano, o Presidente Trump disse que “Harvard ‘perdeu o rumo’ e acusou a universidade de contratar idiotas”.[1]

Ninguém das elites conservadores do país se envergonhou das afirmações do Presidente americano que, dando mais um passo em direção à brutalidade característica dos néscios, avançou em seus impropérios, com sua Kombi de ultra milionários que controlam a metade do dinheiro do mundo.

Antonio Scurati narra no terceiro volume da sua trilogia sobre o fascismo italiano – nominado Os últimos dias da Europa – que em fevereiro 1940 quando já se expandiam as operações militares da Segunda Grande Guerra para todo o continente, o Duce produzia o conceito de “guerra paralela”. Fazia-o na esperança de que “as palavras batizassem as coisas por elas denominadas” e assim promovessem “um desafio político, que se (fizesse) acompanhar de uma invenção linguística”: pensava ele que a Itália poderia combater, não pela Alemanha, mas pela Itália, ao lado da Alemanha.

Eduardo Bolsonaro foi muito mais sincero do que o Duce, pois se tornou um agente estrangeiro sem perder sua nacionalidade, mudou de pátria sem perder seu mandato; e num dos mais completos, transparentes e evidentes ritos de traição nacional, não inventou nenhum conceito, simplesmente entregou-se a um novo padrão de sabujice globalizada, que renunciava a sua pátria para destruir o seu país, com o intuito de salvar seu pai de um processo que lhe imputa o mais grave crime de lesa-democracia: tentativa de golpe de estado agora, em sequência, crime continuado como agente de governo estrangeiro.

O livro de Laurentino Gomes Escravidão (vol. II) lembra o ano de 1701, nas origens da formação do Brasil, em que a região mineira era “um valhacouto de criminosos, vagabundos e malfeitores”. Ali os padres que abandonavam as suas paróquias, ajudavam bandidos a saquear as riquezas do reino e escondiam o ouro roubado, na parte oca dos santos de madeira, época em que se origina a locução idiomática “santo do pau oco”.

A expressão persiste até hoje, como marca de tudo que é cínico e falso comum. E lembra também Bolsonaro, o “santo do pau oco” da política nacional, com seu programa-base de todas as suas mentiras: “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”.

2.

O historiador conservador Simon Schama, cronista brilhante da Revolução Francesa, lembra no seu livro Cidadãos, que “Lafayette e Talleyerand encarnavam “a personalidade dividida” da revolução, que “gerou um novo tipo de mundo político, um mundo que seria produto de dois interesses irreconciliáveis: a criação de um Estado poderoso e uma comunidade de cidadãos livres”.

Sua história demonstrou, nos seus desdobramentos do século XXI, que as duas possibilidades iriam estar sempre presentes nos legados da revolução, tanto nos estados fortes como na ideia das liberdades individuais ou agrupadas.

Os Estados Unidos da América são, dentre as nações capitalistas mais desenvolvidas, a demonstração cabal destas duas possibilidades, que às vezes convivem, outras vezes se repelem, mas que sobretudo se harmonizam quando – sob o império da violência – a tendência à igualdade e a liberdade sobrepujam, na ideia de nação, o autoritarismo e a desigualdade.

A igualdade e a liberdade estão nos pilares de Lincoln, na fundação da União. O autoritarismo e a desigualdade estão na loucura de Trump, que fez da mentira a sua profissão de fé e capturou o apoio dos saqueadores do seu reino, bem como a sabujice dos satélites, que compõem o seu harém de submissos.

Quando da morte de Lincoln por assassinato (1865), Walt Witman escreveu em seu diário no dia 16 de abril – mesmo dia do ano em que Donald Trump festejava sua ignorância atacando Harvard – o seguinte: “Ele foi assassinado, mas não a União. Um cai, outro cairá. O soldado se afoga como uma onda, mas as filas do oceano avançam eternamente. A morte cumpre a sua tarefa: aniquila cem, mil – presidente, general, capitão, soldado raso – mas a nação é imortal”.

3.

Talvez a nação não seja imortal, no sentido que a poesia apaixonada de Walt Witman lhe apontou, mas é certo que o sentimento contraditório que a preside hoje oferece dois caminhos: ou o “sonho americano” derrota Donald Trump, para que os EUA imperial sobrevivam na multipolaridade, ou Donald Trump derrota completamente a memória de Lincoln e teremos no mundo, por muito tempo, uma dura guerra programada pelo fascismo e contra ele, já acoitado nas entranhas do império.

A subjetividade popular que formou a sociedade americana pós Revolução de 1774, depois na Guerra da Secessão, em 1865 – e após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945 – foi construída por um país que mitificou sua longa jornada histórica imperial- colonial, fundada numa manipulação salvacionista da ideia de democracia.

Esta orientou a consciência majoritária da sociedade americana para até idolatrar um tipo humano como Donald Trump, primário, fascista, debochado, ou seja, estas revoluções, como diz o autor Chris Thornhill, não proporcionaram uma base sólida para um governo democrático verdadeiro” e permanente nos Estados Unidos.

A grandeza de Lula e a pequenez surda de Donald Trump se digladiam, hoje, no cenário global, com uma Europa acovardada e submissa, uma América Latina com elites sempre vacilantes nas suas convicções democráticas, sob o olhar do gigante chinês que é enigma e possibilidades de equilíbrio.

Isso representa duas tensões possíveis para o futuro próximo: ou uma multipolaridade acordada e repactuada, para estabilizar a democracia e fazer o processo andar com certos rumos de paz, ou um convite aos quatro cavaleiros do apocalipse, para sentarem a nossa mesa e devorarem os que vão nascer. Os já nascidos, certamente já foram convidados para o sofrimento por Donald Trump.

Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. Autor, entre outros livros, de Utopia possível (Artes & Ofícios). [https://amzn.to/3DfPdhF]

Nota

[1] Portal G1, 16/4/2025.


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