Donald Trump seria um louco?

Imagem: Markus Spiske
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Por LEONARDO SACRAMENTO*

Patologizar Trump é uma operação ideológica que absolve o imperialismo estadunidense, transformando sua violência estrutural em mera sintomatologia individual

1.

Um espectro indigente passou a rondar os noticiários brasileiros e internacionais. Diante do sincericídio de Donald Trump, o qual não nega suas intenções, como petróleo da Venezuela e terras raras na Groenlândia e na Patagônia, objetivando diminuir acesso da China a matérias-primas e recursos naturais, jornais liberais e de esquerda passaram a veicular que o mandatário estadunidense estaria com problemas mentais.

O jornal The Guardian publicou em 24 de dezembro de 2025 uma retrospectiva do que considerou desvios comportamentais graves, como um expediente político comum na extrema direita: fake news.[i] Para tanto, o jornal britânico fez uma análise discursiva de Donald Trump e até um retrospecto familiar e social. Nesse período circulava um “estudo” de Frank George, psicólogo e neurocientista PhD do Centro para o Bem-Estar Cognitivo e Comportamental da Universidade de Boulder, no Colorado, no qual constatava um quadro de “demência fronto temporal” (DFT).[ii] Esse estudo foi replicado em inúmeros jornais e canais de todos os espectros políticos no Brasil.

A avaliação médica não é nova. Em 2017, um grupo de 35 médicos e psicólogos registrava, em carta ao New York Times, uma “grave instabilidade emocional demonstrada nos discursos e nas ações do senhor Donald Trump”, o que “o torna incapaz de servir com segurança como presidente”. Em 2013, o psicólogo John Gartner, ex-docente da Universidade Johns Hopkins, o classificou como portador de um caráter “antissocial, paranoide e narcisista”.[iii]

O que o psicólogo e os especialistas não abordam, pois clinicam a totalidade por meio da análise comportamentalista e fragmentada do indivíduo, é que justamente a simbiose política das três características o tornou presidente dos EUA, expressando uma íntima relação entre Donald Trump e os EUA. Como ele sempre demonstrou em suas declarações desde 1980, o que é a sociedade capitalista senão a imposição da força e do narcisismo?

Donald Trump foi convidado a fazer 11 filmes em um total de 26 participações cinematográficas justamente por ser narcisista, algo sempre bem aproveitado nos roteiros. Como ele disse em Um maluco no pedaço, em uma participação de 30 segundos, “todo mundo está sempre me culpando por tudo”, mantra repetido maquinalmente na campanha e na presidência.

2.

O expediente da doença mental, usado em casos de racismo pela classe média branca, abranda o imperialismo. Donald Trump seria um louco. Logo, o que faz não teria relação com a essência militarista dos EUA, com o histórico expansionismo ianque, com os genocídios e destruição de Estados-Nacionais do Sul-Global. As referências do Estado norte-americano sobre a Doutrina Monroe, de 1823, seriam fortuitas, assim como a própria Doutrina Monroe em 1823.

Donald Trump teria, com sua loucura, capturado a principal “democracia” do planeta. O que Donald Trump faz não teria nenhuma relação com os interesses da classe dominante estadunidense e o Estado. CIA, FBI, Forças Armadas, ICE e Suprema Corte, que autorizou prender pessoas por meio de identificação racial, seriam vítimas.

Essa visão é profundamente patética em todos os sentidos: econômico, político, institucional, histórico, cultural e social. A classe dominante estadunidense, a fração dominante do capitalismo mundial, seria refém de Donald Trump. Pela primeira vez na história do país, o poder político, capitaneado pela extrema direita, teria subordinado o poder econômico, o qual, sem alternativas, referendaria por inação a extrema direita supremacista estadunidense.

É uma mistificação com consequência política salvacionista para os democratas e os “progressistas”, pois bastaria um presidente “equilibrado”, como Bill Clinton ou Barack Obama. Clinton foi responsável por bombardeios em Bósnia e Kosovo, ataques no Iraque, antecedendo George Bush, além de ser o grande promotor da expansão da Otan na década de 1990, cuja principal consequência hoje é justamente a guerra entre Rússia e Ucrânia.

Barack Obama foi aquele que mais bombardeou o continente africano em toda a história dos EUA. É Barack Obama que possui também o recorde de ter sido o presidente que mais lançou bombas no planeta, totalizando 26.171, com foco no Iraque, Síria, Líbia e Iêmen. O que Barack Obama fez não se relaciona com o genocídio de Israel sobre os palestinos? A fragmentação do Iraque, Síria e Líbia foram fundamentais para a consolidação recente militar de Israel nesses países. Atacar o Iêmen não contribuiu para enfraquecer a luta palestina? É possível separar o que Barack Obama fez do que Benjamin Netanyahu faz?

Foi Barack Obama, em 2015, que declarou a Venezuela “ameaça à segurança dos EUA”,[iv] o que foi aproveitado por Donald Trump para arquitetar e aplicar a invencionice do narcoterrorismo e mentir sobre o “cartel de los soles”.[v] A guerra econômica contra a Venezuela foi radicalizada por Barack Obama.

A mistificação eufemística aceita até um George W. Bush e sua boa desculpa do inimigo do ocidente ter “armas de destruição em massa” ou necessitar de “democracia” por meio de mísseis. Não interessa que todos saibam que é mentira. Não interessa que seja provado que é mentira. O importante é repetir.

3.

A “doença mental” é expiação de culpa liberal. É sempre interessante ver um liberal brasileiro, assim como o francês Alexis Tocqueville, classificar a “democracia” estadunidense como a maior do planeta. Alexis Tocqueville assim a classificou no auge da escravidão, pois, como deixou claro no décimo segundo prefácio da edição francesa de A democracia na América, os EUA eram uma república que “a propriedade individual [possuía] maiores garantias que em qualquer país do mundo”. Qual era a principal mercadoria na primeira metade do século XIX? Alexis Tocqueville entendia a democracia estadunidense como positiva porque vivia às turras com a Primavera dos Povos.

Não há contradição entre democracia e escravismo porque democracia é uma sociedade baseada em relações de poder não iguais entre os classificados como iguais, no caso, os brancos livres, tal qual no Brasil imperial e republicano. Eleitoralmente, o sistema indireto foi baseado na quantidade de escravizados quando da introdução do Compromisso dos Três Quintos (Three-Fifths Compromise), um acordo estabelecido em 1787.

Mesmo que fossem mercadorias e não pudessem votar, os escravizados foram contabilizados em 3/5 de um voto de branco, aumentado o peso do voto dos brancos escravistas sobre a quantidade de delegados, o que se acentuou depois de 1865, quando do fim da Guerra Civil por meio da promulgação das 13ª e 14ª Emendas.

Ao contrário do que se pensa, a 13ª Emenda não proibiu a escravidão, mas impôs uma regulamentação, que seria usada também no Brasil a partir de 1890. Diz a emenda: “Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado”.

A escravidão é legalizada nos EUA, fazendo com que alguns estados tentem proibi-la por meio do voto. Foi o caso da Califórnia, que tentou, em 2024, na eleição que elegeu Donald Trump, alterar a “constituição da Califórnia para proibir qualquer forma de escravatura e revogar a disposição atual que permite a servidão involuntária como punição por crimes”. A proposta foi rejeitada por 52,9% do eleitorado. E a questão não possui paradoxo com os democratas. Kamala Harris venceu no estado com 58,47%, enquanto Trump obteve apenas 38,33%. Democratas votaram pela manutenção da “escravatura”.

4.

A 14ª Emenda restringiu o direito ao voto para condenados “por participação em rebelião ou outro crime”, permitindo que os estados do Sul usassem essa brecha para aprovar leis que criminalizavam qualquer tipo de comportamento para impedir o acesso da população negra às urnas, sem deixar de aproveitá-la para aumentar o número de delegados. Assim como aconteceu hoje, a Suprema Corte aprovou os Códigos Criminais estaduais, o que se convencionou chamar de Jim Crow, que durou mais 100 anos.

Um liberal brasileiro olha essa história e tem duas opções: ignorar a questão “dos negros” porque democracia estadunidense não teria relação alguma, pois seria apenas continuidade eleitoral, a despeito da quantidade de delegados por estado ter sido formada e ser aplicada por critérios raciais (ignora-se também); ou assumir como fato histórico e, agindo como leão de chácara, acusar quem acusa o supremacismo de “anacronismo”.

No fundo, ambos se orgulham da “democracia” estadunidense, mas se ressentem por Donald Trump não ter uma desculpa de “armas de destruição em massa” e “necessidade de exportar democracia” exclusivamente para os países com reservas de petróleo e terras raras.

Sem alternativas, resta classificar Donald Trump como louco. Tenta-se salvar não apenas o soft power estadunidense, mas a máquina de exportação imperialista da “democracia” ocidental. Ocorre que a própria classe dominante ianque rompeu ou teve que romper com esse pacto justamente para conter o avanço econômico chinês e manter a hegemonia do dólar e dos petrodólares.

Christian Dunker afirmou recentemente que ‘patologizar Donald Trump é muito perigoso, porque é uma forma de desresponsabilizá-lo”.[vi] É mais: patologizar Donald Trump é desresponsabilizar os EUA e dourar o imperialismo militar e econômico, como os Democratas e sua rede de influência midiática sempre fizeram ao longo dos séculos XX e XXI. Donald Trump é narcísico, supremacista e violento. E, justamente por isso, é a melhor síntese da “democracia” estadunidense.

*Leonardo Sacramento é pedagogo do Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Autor, entre outros livros, de Discurso sobre o branco: notas sobre o racismo e o apocalipse do liberalismo (Alameda). [https://amzn.to/3ClPH5p]

Notas


[i] Disponível em https://www.theguardian.com/us-news/2025/dec/24/trump-mental-health-speech-address-2025-review.

[ii] Disponível em https://www.band.com.br/noticias/medico-alerta-trump-esta-com-demencia-202601081217.

[iii] Disponível em https://epoca.globo.com/saude/noticia/2017/03/como-garantir-que-trump-e-mentalmente-sao-1.html.

[iv] Disponível em https://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/03/obama-amplia-sancoes-contra-autoridades-venezuelanas.html.

[v] Disponível em https://www.infomoney.com.br/business/global/eua-admitem-que-grupo-venezuelano-cartel-de-los-soles-nao-e-real/.

[vi] Disponível em https://www.brasil247.com/entrevistas/christian-dunker-a-doenca-do-trump-e-capitalismo#google_vignette.

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