As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Paradoxo da meritocracia

Imagem: Vlad Chețan
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LEONARDO SACRAMENTO*

A meritocracia não existe para o próprio liberalismo

O que é meritocracia? Excluamos todas as variáveis relativas à meritocracia e busquemos entendê-la somente por meio da compreensão liberal do esforço. Portanto, elenquemos apenas uma variável, a única abertamente defendida pelo liberalismo: o esforço individual.

Suponhamos que uma cidade, sob força exógena (exterior ao indivíduo), conseguisse igualar materialmente todas as crianças de uma geração. Todas as crianças teriam as mesmas condições materiais e oportunidades de conhecimento e de vida. Quando adultos, uma parte dessa geração se mostraria mais capaz e assumiria os melhores postos de trabalho, e outra parte se mostraria menos capaz e assumiria os piores postos de trabalho.

Os postos de trabalho reproduzem salários e rendas distintos. Por assumir os melhores postos de trabalho, a geração mais capaz passaria a ter, por méritos próprios, mais bens materiais, transmitindo aos filhos uma vida com mais oportunidades. Por ter mais acesso a esses bens em vida e, eventualmente, após a morte dos pais, os filhos dos mais capazes teriam mais chances, antes do nascimento e da vida adulta, do que as crianças cujos pais tenham se mostrado menos capazes, mesmo que in potencia e in acto pudessem ser mais capazes do que os filhos dos pais mais ricos.

Assim, a meritocracia estaria desfeito na geração seguinte, pois indivíduos continuariam ricos sem disputa. Não mais se tornariam ricos; seriam ricos, porque nasceriam ricos. Forjar-se-ia um sistema de heranças e transmissão hereditária e criar-se-ia uma geração cristalizada em estamentos, em que os mais pobres teriam mais dificuldade de ascender, enquanto os mais ricos jamais descenderiam – é, em parte, a teoria de transmissão hereditária de capital e renda de Thomas Picketty e a teoria de transmissão de capitais (capital econômico, capital cultural e capital social) de Pierre Bourdieu.

Para que a geração seguinte se estruturasse sobre as mesmas condições da geração anterior, haveria a necessidade de outra força exógena, equalizando as condições materiais e oportunidades de conhecimento e de vida. O mesmo ocorreria nas terceira e quarta gerações e em todas as outras que se seguiriam. Logo, a meritocracia somente pode se aproximar de seu tipo ideal se e somente se uma força exógena atue como uma estrutura de intervenção contínua e perpétua para enriquecer os filhos dos pais que não obtiveram sucesso e retire riqueza dos filhos dos pais que obtiveram sucesso, criando uma média objetiva das condições materiais, a fim de que se afira os mais capazes entre todos. Em outras palavras, a ideia de meritocracia – em seu tipo ideal – exige uma intervenção que as relações sociais não são capazes de produzir.

Mais ou menos por esse caminho, Émile Durkheim considerou a herança um artifício antinatural, contrário aos “valores” da sociedade “moderna”, pois nada mais seria do que mera reprodução da classe. Ou seja, mesmo Durkheim, no século XIX, com o seu estruturalismo funcionalista, constatou implicitamente a reprodução de classe como fator determinante às “capacidades”.

Com o tempo, a ponderação do pai da sociologia se perdeu com o avanço do liberalismo conservador, que assumiu duas perspectivas: a primeira foi a censura à crítica sobre a herança e/ou à sua vinculação com o conceito de meritocracia. Essa perspectiva ainda é a predominante nos círculos liberais. De tal modo, famílias escravocratas tornaram-se em empreendedoras, como as famílias Moreira Salles, Setúbal, Villela e Bracher, todas donas do Itaú-Unibanco. A família Moreira Salles pode brincar de cineasta e ativista cultural, as famílias Setúbal e Villela de filantrópicas e a família Bracher de palestrante de “diversidade”. Apaga-se o passado e a origem, inclusive de geração em geração, como se fosse um fetichismo da meritocracia.

A segunda perspectiva é a naturalização. Ninguém fez melhor do que o neoliberalismo, sobretudo Milton Friedman, que se viu obrigado, em 1962, em meio às lutas por direitos civis aos negros norte-americanos, a defender, além de escolas segregadas e o direito do empregador branco de não empregar negros, a herança como fator genético.

Em Capitalismo e liberdade, o economista inventa a fórceps uma analogia bizarra. Vamos a ela: “Suponhamos que existam quatro Robinson Crusoé abrigados em quatro ilhas diferentes, próximas umas das outras. Um teve sorte de chegar a uma ilha grande e fértil, que lhe permite viver bem com facilidade. Os outros chegaram a ilhas pequenas e áridas, nas quais só conseguem sobreviver com dificuldade. Um dia, tomam conhecimento da existência uns dos outros. Naturalmente, seria muita generosidade da parte do Robinson da ilha grande convidar os outros a se mudarem para lá e compartilharem de sua riqueza. Mas suponhamos que não o faça. Estariam os outros três justificados se se reunissem e o obrigassem a compartilhar suas riquezas com eles? Inúmeros leitores se sentiriam tentados a responder que sim. Mas, antes de sucumbir a essa tentação, considerem precisamente a mesma situação sob um aspecto diferente” (FRIEDMAN, 1985, p. 150).[i]

Ele continua: “Suponhamos que você, leitor, e mais três amigos estão passeando por uma rua e você percebe uma nota de 20 dólares no chão e a recolhe. Seria muita generosidade sua, de fato, se resolvesse dividi-la com seus três amigos em partes iguais ou, pelo menos, se os convidasse para um drinque. Mas suponhamos que não o faça. Estariam os outros três justificados se se reunissem e o forçassem a compartilhar a sua nota com eles? Tenho a impressão de que muitos leitores responderiam que não” (FRIEDMAN, 1985, p. 150).

Logicamente, é uma falácia de falsa analogia e uma falácia de acidente.[ii] Em um caso, a morte espera o liberal, em outro, apenas um drink a menos – falácias de falsa analogia e de acidente são comuns no liberalismo. Mas procuremos entender o Friedman por ele mesmo. Segundo o economista, seus exemplos expressariam “a maior parte das diferenças de status ou posição ou riqueza” que “raramente pode ser considerada como resultado da sorte”, porque “o homem trabalhador e econômico é qualificado de ‘merecedor’” – perceba que todos os exemplos dependeram da sorte. Todavia, “ele deve suas qualidades em grande parte aos genes que teve a felicidade (ou infelicidade) de herdar” (FRIEDMAN, 1985, p. 151).

Dos exemplos de sorte para a felicidade da herança dos genes melhores ocorreu um salto indutivo triplo carpado. Para Friedman, voltando ao nosso exemplo da segunda geração, a transmissão de capitais consiste justamente na transmissão dos genes daqueles que já foram melhores na primeira geração. Assim, Friedman naturaliza e legitima a vinculação entre herança e meritocracia, pois o filho é necessariamente tão capaz quanto os pais porque os pais já teriam sido mais capazes, não necessitando qualquer prova em vida dos filhos. Logo, a transmissão dos genes melhores aos filhos da segunda geração, vinculando-os ao sucesso e fracasso familiar, transformar-se em determinismo genético – em alternativa ao determinismo divino do modo de produção feudal e ao determinismo racial e ambiental do modo de produção escravista mercantil, os quais não foram apenas substituídos, mas apropriados e ressignificados pelo liberalismo nos séculos XIX e XX.

Mas qual é a origem do falso e patético debate de Friedman? A origem está em páginas anteriores quando ele se pergunta se a herança é imprópria – era um ponto muito debatido nos EUA de 1960. Eis a indagação: “Os filhos de um comissário russo têm certamente maior expectativa de renda – talvez também de liquidação – que o filho de um camponês. Será este fato mais ou menos justificável do que a expectativa de renda maior do filho de um milionário americano?” (FRIEDMAN, 1985, p. 149). Para ele não, pois lhe “parece ilógico” não transmitir ao filho a “riqueza que acumulou”, pois isso significaria defender que “um homem tem direito de dissipar sua fortuna, mas não pode dá-la a seus filhos”.

Para dar sentido a essa sentença, retira-a do que chamou de “ética capitalista” (concordância com Durkheim) para considerar a herança “como instrumento ou corolário de outro princípio como, por exemplo, a liberdade” (FRIEDMAN, 1985, p. 150). Herança faz parte da liberdade de capitais e, portanto, do indivíduo, mesmo que isso gere um paradoxo com o que chamou de “ética capitalista”, implodindo a ideia messiânica de meritocracia com uma explícita analogia sobre estamentos medievais – ele ter buscado classes típicas do modo de produção feudal não é algo fortuito, mas elucidativo. Ou seja, desde a década de 1960, a ideia de meritocracia foi abandonada pelo neoliberalismo, criando-se uma divinização da riqueza e dos milionários. É o que explica a apego de movimentos e entidades neoliberais a figura messiânica do bilionário “empreendedor”.

Portanto, o liberalismo confronta a ideia difundida de meritocracia, na medida em que o liberalismo se preza por exigir a manutenção da laissez-faire e a ausência de intervenção estatal, o que contribui para a transmissão hereditária do que o próprio liberalismo compreende por sucesso e fracasso, cujo modelo é estruturado de forma estamental, inclusive analiticamente. Quando um rico defende a inexistência da força exógena, mormente sobre si e sobre a relação entre capital e trabalho, nada faz mais do que defender o continuum da transmissão hereditária em conflito com a própria ideia de meritocracia que julga defender e representar. Meritocracia não existe para o próprio liberalismo!

*Leonardo Sacramento é professor de educação básica e pedagogo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo. Autor do livro A universidade mercantil: um estudo sobre a universidade pública e o capital privado (Appris).

 

Notas


[i] FRIEDMAN, Milton. Capitalismo e liberdade. Com a colaboração de Rose D. Friedman. Apresentação de Miguel Colasuonno. São Paulo: Nova Cultural, 1985.

[ii] “A falácia por acidente consiste em aplicar uma regra geral a um caso particular, cujas circunstâncias “acidentais” tornam a regra inaplicável”. In: COPI, Irving Marmer. Introdução à lógica. Tradução e Álvaro Cabral. São Paulo: Mestre Jou, 1978.

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Marcos Aurélio da Silva Leonardo Boff Slavoj Žižek Otaviano Helene Paulo Fernandes Silveira Valerio Arcary Antônio Sales Rios Neto Denilson Cordeiro Fernando Nogueira da Costa Airton Paschoa Daniel Afonso da Silva Boaventura de Sousa Santos Manuel Domingos Neto Milton Pinheiro Luiz Werneck Vianna Francisco Pereira de Farias José Luís Fiori Osvaldo Coggiola Luiz Eduardo Soares Eugênio Trivinho Ronald León Núñez Andrew Korybko Yuri Martins-Fontes Everaldo de Oliveira Andrade Alysson Leandro Mascaro Julian Rodrigues Renato Dagnino Valério Arcary Fábio Konder Comparato Marcos Silva Gilberto Maringoni Daniel Costa Gerson Almeida Maria Rita Kehl Ladislau Dowbor Jean Marc Von Der Weid Anderson Alves Esteves Érico Andrade Alexandre Aragão de Albuquerque Dennis Oliveira Berenice Bento Vinício Carrilho Martinez Jorge Branco Leonardo Sacramento Paulo Capel Narvai Jorge Luiz Souto Maior Rubens Pinto Lyra João Feres Júnior Lincoln Secco Carla Teixeira Marcelo Módolo Eugênio Bucci Thomas Piketty Lucas Fiaschetti Estevez Atilio A. Boron José Costa Júnior Ronaldo Tadeu de Souza Leonardo Avritzer Claudio Katz Leda Maria Paulani Luiz Roberto Alves João Adolfo Hansen Walnice Nogueira Galvão João Paulo Ayub Fonseca Bruno Fabricio Alcebino da Silva Bernardo Ricupero Manchetômetro Luís Fernando Vitagliano Afrânio Catani Sergio Amadeu da Silveira Daniel Brazil Ari Marcelo Solon Luciano Nascimento Paulo Nogueira Batista Jr Remy José Fontana Luiz Marques Salem Nasser Henri Acselrad Paulo Martins Rafael R. Ioris Tales Ab'Sáber Celso Frederico Dênis de Moraes Rodrigo de Faria Celso Favaretto Juarez Guimarães José Micaelson Lacerda Morais Alexandre de Lima Castro Tranjan Bento Prado Jr. João Sette Whitaker Ferreira Eleutério F. S. Prado Ronald Rocha Marilena Chauí Plínio de Arruda Sampaio Jr. Henry Burnett André Márcio Neves Soares Flávio R. Kothe Mário Maestri Jean Pierre Chauvin João Lanari Bo Anselm Jappe Vladimir Safatle José Dirceu Samuel Kilsztajn Chico Alencar Antonino Infranca Luiz Renato Martins Carlos Tautz Bruno Machado Luiz Costa Lima Priscila Figueiredo Benicio Viero Schmidt Annateresa Fabris Ricardo Abramovay Marcus Ianoni Luis Felipe Miguel Francisco Fernandes Ladeira Chico Whitaker Ricardo Fabbrini Armando Boito Vanderlei Tenório Gabriel Cohn José Raimundo Trindade Fernão Pessoa Ramos Flávio Aguiar Marcelo Guimarães Lima Paulo Sérgio Pinheiro Ricardo Antunes Marilia Pacheco Fiorillo Eduardo Borges Ricardo Musse Marjorie C. Marona Eliziário Andrade José Geraldo Couto Sandra Bitencourt José Machado Moita Neto Luiz Carlos Bresser-Pereira Roberto Noritomi Luiz Bernardo Pericás André Singer Francisco de Oliveira Barros Júnior Liszt Vieira Michael Löwy Tadeu Valadares Heraldo Campos Igor Felippe Santos Gilberto Lopes Caio Bugiato Mariarosaria Fabris Tarso Genro João Carlos Salles Lorenzo Vitral Elias Jabbour Antonio Martins Kátia Gerab Baggio Alexandre de Freitas Barbosa Roberto Bueno Eleonora Albano Michael Roberts João Carlos Loebens

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada