Falando na corda bamba

image_pdf

Por MARCELO RIDENTI*

Considerações sobre dois livros: “Na corda bamba”, de Daniel Aarão Reis e “Sobre o que não falamos”, de Ana Cristina Braga

O turbilhão político dos últimos anos tem levado a pensar as heranças da ditadura estabelecida em 1964 no Brasil. A produção intelectual e artística sobre o tema é crescente e vem ganhando particular interesse no aspecto literário, envolvendo as relações entre ficção, memória e história. Exemplos dos mais criativos encontram-se em dois livros recém-editados: as memórias ficcionais do historiador Daniel Aarão Reis e o segundo romance de Ana Cristina Braga Martes, que trocou a sociologia pela literatura.

Ambos escreveram sobre o tempo do regime militar, Daniel Aarão Reis reconstituindo seus anos de jovem militante político que o levaram à prisão e ao exílio. Ana Cristina Braga Martes arquitetando uma personagem pré-adolescente nos anos 1970 que deseja descobrir um passado sobre o qual ninguém ao redor queria falar.

Os dois podem ser lidos como romances de formação, embora o livro de Daniel Aarão Reis esteja baseado em sua própria trajetória, enquanto o de Ana Cristina Braga Martes é uma construção tipicamente romanesca. Os leitores aprendem com a experiência única dos protagonistas, que amadurecem para encarar os desafios da vida em meio ao autoritarismo na sociedade brasileira, o que só é possível pelo conhecimento e incorporação crítica do passado.

Na corda bamba

Daniel Aarão Reis é um conhecido historiador das revoluções socialistas e das esquerdas brasileiras, autor de aclamada biografia de Luiz Carlos Prestes (Cia das Letras, 2014). Em Na corda bamba, ele dá a ver o amadurecimento do sujeito que viria a produzir essas obras. Ciente da ilusão biográfica e vacinado contra o egocentrismo das autobiografias, ele lança mão de recursos ficcionais para buscar algum distanciamento dos fatos narrados, sem se concentrar apenas na vivência pessoal, tratando também da experiência de amigos e conhecidos que se tornam personagens.

Assim, por exemplo, imagina o que se passava na mente de um enfermeiro atuante nas câmaras de tortura, que telefonou para a família de Gabriel, alter-ego do autor, para avisar onde ele estava preso. Ou trata da vizinha de uma militante que a denuncia para o marido policial, mas avisa a amiga quando a repressão estava chegando. Ou do porteiro da embaixada dos Estados Unidos apaixonado pela militante que se aproximou dele para descobrir a rotina do embaixador que seria raptado.

A reconstituição subjetiva do passado leva em conta o ponto de vista de diversos atores, que por vezes falam na primeira pessoa, enquanto em outras o próprio autor é referido na terceira, na pele de Gabriel. Há um jogo narrativo, fazendo uso da primeira e da terceira pessoa, em que a maioria das personagens recebe denominação fictícia, embora claramente baseada em figuras reais, até com nomes que facilitam a identificação. Esse procedimento indica a consciência de que se trata de personagens construídas, a começar pelo próprio autor, ainda que inspiradas em pessoas que atravessaram sua vida.

O livro está organizado na forma de pequenos contos-capítulos que compõem um todo articulado em três momentos: ditadura, exílio e retorno. A linguagem clara, fluente e (auto)irônica seduz o leitor, que nem sente a travessia de 476 páginas repletas de aventuras dos protagonistas. Elas dão o que pensar sobre a ditadura e seu aparelho repressivo que se abateu sobre diversas personagens na clandestinidade, nas salas de tortura, na cadeia e no exílio na Argélia, em Cuba, no Chile, na Europa e em Moçambique, onde Daniel-Gabriel foi professor após a revolução.

Junto com a resistência aparecem episódios de cumplicidade com a ditadura. E casos de amor, de amizade, de miudezas do cotidiano, não raro aproximando-se do tragicômico, como nas loucuras do Tocha no decorrer de uma obra que sugere distanciamento, mas não deixa de emocionar.

Daniel Aarão Reis contribui em grande estilo com o ciclo memorialístico de dezenas de livros publicados ao longo do tempo por antigos militantes de organizações clandestinas de combate à ditadura. Essa geração, que se aproxima dos 80 anos, viveu experiências tão extraordinárias que começou a publicar a respeito já em 1977, com o romance de Renato Tapajós Em câmara lenta, escrito ainda no cárcere, que recebeu merecida reedição recentemente (Carambaia). Logo em seguida veio o boom após a anistia de 1979, com os livros memorialísticos precoces de Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis e outros que sentiam a urgência de contar histórias até então interditadas.

Sobre o que não falamos

Se Daniel Aarão Reis leva a memória a recorrer a recursos da ficção, Ana Cristina Braga Martes vai em sentido inverso, ao destacar a percepção da personagem central do romance, de que sua casa “era habitada por diversos tipos de silêncio”. E sente necessidade de reconstituir a memória da família, do bairro, de sua cidade e do próprio país, buscando os temas sobre os quais era proibido falar, condição indispensável para formar a própria identidade. Não à toa, o nome da personagem principal só é revelado no fim da obra.

O romance, narrado em primeira pessoa, conta com sensibilidade e talento a vida de uma garota na vila operária de cidade do interior nos anos de chumbo. Os leitores vão sendo enredados pela trama, descobrindo aos poucos – junto com a personagem central – os fatos “sobre o que não falamos”, relatados com delicadeza, mas sem perder a contundência.

A menina aprende a questionar os avós, descendentes de imigrantes que a criaram, e toda a vizinhança sobre o silêncio envolvendo o passado de seus pais, que não conheceu. Em cada detalhe explorado na narrativa, reconstitui a atmosfera social resultante do medo da repressão, ambiguamente ligado à cumplicidade com as autoridades e à hipocrisia do cotidiano, com personagens instigantes como os gêmeos e a colega Cegonha.

A vida dura no bairro, a sexualidade reprimida, a violência nas relações pessoais até mesmo entre crianças numa sociedade patriarcal, de machismo e racismo velados ou explícitos. O entorno de desigualdades e opressão de gênero e de classe. Os crimes da ditadura. Tudo isso é abordado de um ângulo original, em linguagem elaborada e cativante, pelo olhar da garota que se constitui como sujeito e mulher. Educação sentimental e política da menina que amadurece e tem muito a dizer sobre o passado presente.

Empenhada em descobrir fatos e vivências “sobre o que não falamos”, a garota encontraria uma leitura instrutiva nas revelações das personagens que viveram a ditadura “na corda bamba”. Estas, por sua vez, estariam realizadas se tivessem audiência ampla e interessada como aquela menina, representando as novas gerações. A resistência contra o esquecimento está presente nestas duas obras de reflexão indagadora, costurando cada uma a seu modo a escrita literária com a memória e a história, recusando-se a calar. Na contramão de quem imagina que o silêncio pode apaziguar as forças antidemocráticas.

*Marcelo Ridenti é professor titular de sociologia na Unicamp. Autor, entre outros livros, de Arrigo (Boitempo). [https://amzn.to/3OzmfLu].

Versão ampliada de artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo.

Referências


Daniel Aarão Reis. Na corda bamba – memórias ficcionais. Rio de Janeiro, Record, 2024,  476 págs. [https://amzn.to/4d1Uyq3]

Ana Cristina Braga Martes. Sobre o que não falamos. São Paulo, Editora 34, 2023, 200 págs. [https://amzn.to/3VXS4mA]


A Terra é Redonda existe graças
aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES