Feliz aniversário, Marighella!

Imagem: Hamilton Grimaldi

Por CARLA TEIXEIRA*

Comentário sobre a vida e a trajetória política do líder comunista

Um mulato baiano

Poeta, escritor, estudioso, rebelde, brincalhão, rigoroso, coerente, comunista, guerrilheiro, revolucionário. Esses são apenas alguns adjetivos utilizados para caracterizar aquele que pode ser considerado um dos melhores quadros políticos brasileiros do século XX. Em sua trajetória de vida, Carlos Marighella representa a síntese de todo um processo de lutas travadas no Brasil: a luta contra o colonialismo e o imperialismo, a luta contra a exploração dos pretos, dos indígenas, das mulheres e da classe operária, e uma defesa intransigente da soberania nacional e dos interesses do povo brasileiro.

O “mulato baiano”, como se autodenominava, era filho de Augusto Marighella, um operário anarquista e imigrante italiano, com Maria Rita do Nascimento, uma preta haussá descendente de africanos trazidos do Sudão e conhecidos, na Bahia, pelas sedições contra os escravistas durante o século XIX. Nascido em Salvador, a 05 de dezembro de 1911, cresceu na Baixa dos Sapateiros e foi o único, entre seus sete irmãos, que teve a oportunidade de estudar. Seus pais perceberam sua inclinação para a leitura e a poesia, incentivaram sua formação intelectual e o apoiaram a ingressar no curso de Engenharia da Escola Politécnica da Bahia. Escolheu cedo o seu caminho, que só poderia ser o da luta pela liberdade. Logo organizou-se junto à militância comunista, ocasião em que participou de diversas ações e manifestações populares na capital baiana. Ficou preso durante aproximadamente um ano por escrever poemas denunciando o autoritarismo e a censura praticada pelo interventor Juracy Magalhães, em 1932. Apesar do estimulo familiar, Marighella abandonou o curso de engenharia devido a um intenso sentimento de revolta diante da injustiça social que não o permitiu “seguir em busca de um diploma num país em que as crianças eram obrigadas a trabalhar para comer”[i].

Militante comunista: prisões e clandestinidade

Em 1936, mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a integrar o Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB), com a missão de ajudar na reorganização do “Partidão” que àquela altura estava sob violenta repressão da polícia política de Vargas após a frustrada insurreição de 1935. Em maio, foi preso durante as manifestações pelo dia do trabalho e torturado, durante 23 dias, com murros, pontapés, alfinetes sob as unhas, queimaduras de cigarros pelo corpo e na planta dos pés. Resistiu a tudo e não entregou ninguém. Passou um ano preso, sem direito a julgamento, até ser solto pela “macedada”[ii].Em liberdade, Marighella transferiu-se para São Paulo e logo entrou na clandestinidade. Foi novamente preso, em 1939. Dessa vez, ficou encarcerado por seis anos, durante todo o período da ditadura do Estado Novo. Esteve em prisões de São Paulo, depois foi transferido para Fernando de Noronha e, por fim, a Ilha Grande.

Na prisão, Marighella estudou, escreveu, organizou peças de teatro, alfabetizou seus companheiros de cela e aprendeu a falar inglês. Com a derrota nazista e o fim da Segunda Guerra, o Estado Novo foi derrubado e Marighella, finalmente, libertado. Em 1945, durante as eleições constituintes, elegeu-se deputado federal pelo PCB da Bahia, que a essa altura teve autorização para atuar legalmente no Brasil, e participou ativamente da realização da Constituição de 1946. A tolerância com as liberdades democráticas durou pouco, a pressão dos EUA e as demandas da Guerra Fria levaram à cassação do PCB no ano seguinte. Marighella retornou, mais uma vez, à clandestinidade, situação que se manteve até o governo de Juscelino Kubitschek, quando pôde voltar a utilizar seu verdadeiro nome.

O golpe de 1964 e a repressão: “a liberdade não se defende senão resistindo”

Após o golpe militar de 1964, Marighella foi mais uma vez perseguido pela polícia que invadiu sua casa e manteve uma busca incessante pelo militante comunista. Em maio daquele ano, ao perceber que estava sendo seguido, entrou numa matinê de cinema, na barra da tijuca, repleta de crianças. Os agentes da repressão invadiram o cinema e desferiram tiros que atingiram Marighella no peito. Mesmo ferido, resistiu à prisão aos berros de “Abaixo a ditadura militar fascista!”, “Viva a Democracia!”, “Viva o Partido Comunista!”. Passou um ano preso, parte desse tempo, incomunicável, sendo constantemente transferido entre o Rio de Janeiro e São Paulo para interrogatórios, ocasiões em que demonstrou seu convicto atrevimento e não deixou de fazer propaganda do comunismo dentro da delegacia de polícia.

Ao ser libertado, Marighella, denunciou o crime da “polícia política que desferiu um tiro contra um homem desarmado”[iii]. Em 1965, lançou o livro “Por que resisti à prisão”, utilizando de uma linguagem irônica e ácida, convocou a resistência ao golpe e ao avanço autoritário, e denunciou, com detalhes que provocam náusea ao leitor, os métodos de tortura utilizados pela polícia contra os presos.

De acordo com Marighella, o seu ato de resistência à prisão era uma maneira de dar exemplo aos companheiros de partido que aceitaram o golpe de 1964 e decidiram praticar uma oposição institucional ao regime. Denunciava que os partidos em funcionamento, ARENA E MDB, serviam à ditadura para fazer crer à opinião pública internacional que havia liberdade política no Brasil. Para ele, a luta política não deveria ser praticada apenas burocraticamente, mas através de ações diretas contra o imperialismo estadunidense que, a partir de 1964, transformou o Brasil numa base de operações com empresas estrangeiras que detinham e controlavam toda a produção agrícola e industrial. Diante das divergências com as orientações do Partidão e sob forte influência dos movimentos revolucionários da Argélia, Vietnã e Cuba, desligou-se do PCB. Optou pela resistência armada como alternativa revolucionária por considerar inaceitável a situação do país.

Guerrilha: “o conformismo é a morte”.

Marighella afirmava que não tinha tempo para ter medo e, no final de 1967, fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN) que logo se tornou a maior organização de guerrilha contra a ditadura e alçou Marighella ao famigerado posto de terrorista “inimigo número 1” do governo. A guerrilha deveria mostrar que havia quem não se conformava com o regime e buscava, na ação direta, uma forma de combate político. O plano da ALN consistia em lutar contra a ditadura, pelas liberdades democráticas, cortando os laços com o imperialismo de maneira a favorecer o desenvolvimento da cultura e da educação para garantir a soberania nacional.

Marighella teorizou a luta revolucionária[iv], mas também se colocava na linha de frente das ações, como um líder que não abandona as trincheiras de luta. Entre os inúmeros atos praticados pela guerrilha, podemos destacar a tomada da Rádio Nacional, com o objetivo de transmitir para todo o país o manifesto redigido por Marighella que convocava a classe trabalhadora a resistir, e a captura do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick, solto após a libertação de 15 presos políticos pelo regime. Se a perseguição dos militares aos grupos e organizações de esquerda era brutal, após o chamado “sequestro” do embaixador tornou-se implacável. A repressão se aperfeiçoou, tornou-se mais sofisticada e atuou com muita violência. O objetivo não era apenas prender os guerrilheiros, mas aniquilá-los fisicamente e destruir suas organizações.

Marighella sabia que o sequestro do embaixador era uma ação ousada demais e que a guerrilha não teria condições de fazer frente à reação da repressão. Ficou sabendo do ato apenas depois de executado por seus companheiros. Como liderança, não denunciou a iniciativa dos jovens que efetivaram a captura sem o seu conhecimento e consentimento, mas assumiu publicamente a responsabilidade pela ação. Mesmo após inúmeras prisões e mortes de integrantes da guerrilha, Marighella manteve-se em São Paulo por sentimento de responsabilidade e solidariedade em relação aos seus companheiros presos e assassinados pela polícia.

“Morto em defesa da liberdade”

Em 1969, a ALN mantinha contato com Frades Dominicanos que contribuíam com a resistência ao regime. Sérgio Paranhos Fleury, o temido delegado de polícia – envolvido com assassinatos, torturas, desaparecimentos e tráfico de drogas -, foi o responsável por liderar a caçada ao “inimigo número 1”. Após descobrir a localização dos contatos de Marighella, Fleury levou todos do convento para o DOPS[v] e torturou, pessoalmente, os frades dominicanos em busca de informações sobre Marighella e a Guerrilha. Após sevicias e torturas humilhantes, os frades cederam aos seus agressores e permitiram ser usados como isca para atrair Marighella a um ponto de encontro em que Fleury e seus capangas estavam de tocaia.

A 4 de novembro de 1969, às 20H, na Alameda Casa Branca, aos 58 anos, Carlos Marighella foi covardemente assassinado pela polícia política, comandada por Fleury, com quatro tiros à curta distância que não ofereceram condições de defesa à vítima[vi]. Junto de seu cadáver foram encontrados um revólver – que não chegou a ser utilizado por Marighella contra o bando de Fleury -munição e duas cápsulas de cianureto, a garantia pessoal que Marighella tinha de que não seria, novamente, capturado com vida pela repressão. A foto de seu cadáver ensanguentado no banco de trás de um fusca estampou os jornais e revistas do dia seguinte, que trouxeram a falsa versão apontando sua morte como consequência de uma troca de tiros com a polícia. As imagens das torturas e do corpo de Marighella são a prova de que foi o Estado brasileiro, de fato, quem praticou o terror contra a sua população.

Marighella foi sepultado como indigente no cemitério da Vila Formosa. Em 1979, seus restos mortais foram transferidos para o cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador, cujo túmulo foi projetado por Oscar Niemayer e contém o epitáfio “Não tive tempo para ter medo”. Em 1996, o ministério da justiça reconheceu a responsabilidade do Estado por sua morte, mas apenas em 2012 foi oficializada sua anistia post mortem e Marighella pôde, finalmente, ser reconhecido como o que de fato foi: um combatente morto em defesa da liberdade.

“É preciso não ter medo, é preciso ter coragem de dizer”[vii]

Quando se pensa em todos os processos revolucionários brasileiros – dos Inconfidentes, passando pelas Revoltas Malês, os movimentos de Canudos e Contestado até chegar na ação direta das Guerrilhas – é possível encontrar um ponto em comum: todos foram violentamente reprimidos pelo Estado devido à sua legítima reivindicação por pão, terra, trabalho e vida digna para todos. O que seria da história do Brasil sem esses episódios?

Se fosse vivo, em 2020, Carlos Marighella completaria 109 anos. Me pergunto como ele agiria diante da atual situação do nosso país, arrasado economicamente após o golpe de 2016, molestado pela pandemia sob a incompetência de um governante genocida, apoiador da tortura e dos torturadores da ditadura. Retomo uma frase de Marighella que traz pistas: “Uma atitude de resistência e de não-conformismo ajuda a desmascarar a farsa e é o prenuncio da vitória. A nova geração brasileira marcha para a frente, confiante em seu destino, determinada a alcançar a liberdade e o progresso, com ponto de apoio na organização do povo pela base”[viii].

Feliz Aniversário, Marighella! Gratidão por tudo! Sua luta foi contra a fome e a miséria, sonhava com a fartura e a alegria, amava a vida, o ser humano e a liberdade[ix]. Sua história e trajetória de vida inspira a todos nós que lutamos por um país mais justo e menos violento, com genuínas liberdades democráticas voltadas aos interesses do povo e da soberania nacional. A revolução que você propôs se mantém viva em nossa utopia, na certeza de que está a caminho e já se aproxima uma inevitável e radical transformação social. Os torturadores, assassinos e vilipendiadores da nação passarão. Nós, passarinhos. Até a vitória, camarada, sempre!

*Carla Teixeira é doutoranda em história na UFMG.

 

Referência


Para ler ao som de “Um Comunista” de Caetano Veloso – https://www.youtube.com/watch?v=pM-V3f28Oqc

Notas


[i]https://www.youtube.com/watch?v=4BP-OMjP08Q

[ii] Medida tomada pelo então ministro da Justiça, José Macedo Soares, que mandou soltar cerca de 300 presos políticos que não possuíam processos formados.

[iii] MARIGHELLA, Carlos. “Por que Resisti à prisão”. 2ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

[iv]https://www.marxists.org/portugues/marighella/1969/manual/

[v] Departamento de Ordem Política e Social.

[vi]http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/mortos-desaparecidos/carlos-marighella

[vii] “Rondó da Liberdade”, Carlos Marighella.

[viii] Marighella em “Por que resisti à prisão”.

[ix]https://vermelho.org.br/2019/12/10/ha-40-anos-jorge-amado-e-niemeyer-homenagearam-marighella/