Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES*
Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
A sexta-feira 13 de março brindou a militância petista e a todos aqueles que sonham com um outros país, mais justo e igualitário, com uma histórica entrevista do ainda ministro Fernando Haddad ao Opera Mundi, de Breno Altman [https://www.youtube.com/watch?v=dqia3lsAXp8]. Entre concordâncias e discordâncias, sugestões e provocações, este breve artigo aplaude um dos maiores quadros políticos do país, que em meio ao marasmo formulativo, não esquece que sem teoria revolucionária não há prática revolucionária.
Vivemos no Partido dos Trabalhadores uma disputa de horizontes que nos é estratégica: seremos um partido de mandatos, emendas e pequena política ou um partido que oferta uma nova utopia ao povo brasileiro? E, neste desafio, Fernando Haddad nos brinda com a tentativa de, junto a militância, organizar um novo sonho de país, uma necessidade urgente que explica, por exemplo, o sucesso da esquerda mexicana atualmente.
O início da entrevista começa com breves reflexões sobre a nova publicação do ministro, que conceitua o chamado “capitalismo superindustrial” como a fase atual do capitalismo. Neste ponto, e sigo devendo a leitura mais detida do livro, é muito interessante a reflexão feita sobre a nova fase do capitalismo, o novo mundo do trabalho e o redesenho da classe trabalhadora, qualificando uma terceira fase do capitalismo, após a manufatura e a indústria.
O central para esta resenha, ademais, é o debate de classes e um novo projeto de país. Fernando Haddad parte de uma forte crítica à tese da financeirizacao. E, ainda que eu seja mais simpático às posições de Rudolf Hilferding e François Chesnais, é decisiva a constatação de que é necessária a compreensão do que é o novo mundo do trabalho e a nova classe trabalhadora, seja decorrente de uma superação do papel estratégico da industrialização ou, por outro lado, da superindustrializacao.
Por uma consequência ou outra, de origem e de desenho do modo de produção, é fato que há, hoje, uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Lumpen? Precariado? Multidão? Precisamos nos aproximar, compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad.
2.
O ponto alto da entrevista, para mim, e sinal de extrema qualidade e coragem para um Ministro da Fazenda do nosso governo e partido, é o debate sobre classe e hegemonia, com Antonio Gramsci, Max Weber e Raymundo Faoro para debater o Brasil estrutural. A afirmação de que não existe autonomia na classe dirigente brasileira é central. Neste ponto a experiência de Fernando Haddad na condução da economia (e dos interesses de classe brasileiro) materializa a afirmação de que o capital da pouco espaço para as mudanças que o Brasil precisa.
O debate que ele traz sobre a China, neste aspecto, é basilar. Para Fernando Haddad, o que diferencia e propicia o sucesso atual do país oriental é (i) a existência de uma classe dirigente com capacidade de tomar decisões estratégicas com autonomia; (ii) a existência de um projeto nacional de desenvolvimento. Há, porém, um debate de fundo: seria possível garantir esse processo no capitalismo dependente brasileiro sem uma revolução? Para Fernando Haddad, sim. Para além, como promover este processo de forma verdadeiramente democrática? A China não seria um país democrático??
É extremamente salutar que um dos maiores quadros do nosso campo traga como uma tarefa estratégica rediscutir e desenhar um projeto nacional de desenvolvimento. Os limites políticos conjunturais que aponta na entrevista, os quais funcionaram como entrave, talvez materializem o exato desafio do futuro do PT que comecei apontando no início deste texto. Mas, e aqui como um militante à disposição, temos que pensar como desenhar e amadurecer este projeto, os seus desafios práticos, suas inovações jurídicas e, acima de tudo, como configurar um redesenho e reposicionamento da classe dirigente sem uma revolução.
O nosso campo como um todo tem um dever de compreender o novo mundo do trabalho e interpretar o novo mundo de desenvolvimento que desponta no Oriente pois temos uma inadiável tarefa de despertar a utopia, sobretudo nos nossos jovens, cada vez mais depressivos e encantados com a desilusão de extrema direita.
Neste sentido, com concordâncias e discordâncias, termos um quadro que discuta teoria para mudar a prática é um alento em meio ao imobilismo. Desejaria, apenas, algumas horas e alguns vinhos para debater discordâncias e construir em conjunto um novo projeto de país, materializando o desafio furtadeano da superação do subdesenvolvimento brasileiro.
E, por fim, uma crítica à visão trazida pelo autor. A teoria do valor não se aplicaria a este novo mundo do trabalho derivado da superindústria?
Esta afirmação, polêmica, é uma excelente reflexão, porém, não só para retomar o debate do cálculo econômico de Charles Bettelheim e o orçamento financeiro de Che Guevara, mas da própria caracterização do modo de produção chinês, para se refletir se a teoria do valor estaria se desfazendo no capitalismo e se mantendo cada vez mais viva no dito socialismo do século XXI ou, até retomando a posição de Fernando Haddad, se vemos na China um projeto de desenvolvimento capitalista de outro tipo. Afinal, o horizonte socialista eliminaria por completo a lei do valor ou nosso inimigo é outro?
Concluo apontando e reforçando a importância do marxismo. Como Fernando Haddad pontua, e eu concordo em absoluto, o fundamental em Karl Marx é o método. A visão materialista-dialética de sociedade é a única capaz de compreender a essência do movimento real das coisas e, por isso, segue sendo, não só o economista mais o cientista mais importante da nossa história.
O projeto que precisamos deve, inegavelmente, partir destas contribuições, pois sem um debate real de classes e modo de produção, jamais entenderemos o que move corações e mentes atualmente, vez que o dogmatismo, se muito, é capaz de descrever a história do pensamento econômico, mas não, do novo projeto que precisamos. Por isso, com concordâncias e discordâncias analíticas a entrevista é um marco para avançarmos na utopia concreta brasileira.
*Rodrigo Portella Guimarães, advogado, é coordenador do setorial jurídico do PT-SP.
Referência
“Breno Altman entrevista Fernando Haddad”. Site Opera Mundi.






















