Fissuras no campo bolsonarista – episódio 3

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Por ARMANDO BOITO*

O bolsonarismo não é mero capricho do clã: é um movimento neofascista que prioriza seu projeto autoritário sobre os interesses econômicos da burguesia. Enquanto empresários pedem negociação com os EUA, sua base exige submissão a Trump — revelando a fissura entre o projeto reacionário e os patrocinadores que o levaram ao poder

No episódio ainda em curso do tarifaço de Donald Trump, é o conjunto do movimento neofascista, e não apenas o clã Bolsonaro, que está em atrito com a burguesia brasileira. Tentaremos indicar o porquê dessa fissura.

1.

A crer nas ideias correntes, estaríamos vivendo no Brasil um daqueles momentos em que o “papel do indivíduo na história” ganha grande importância. Com efeito, nos deparamos o tempo todo na imprensa comercial, nos sites e blogs com a tese segundo a qual o clã Bolsonaro e seu círculo mais próximo estariam sacrificando a soberania nacional e a economia brasileira para satisfazer os seus interesses pessoais, isto é, para livrar o chefe da família da cadeia.

Parte da esquerda contrabandeou essa tese para o campo democrático e popular. De fato, essa ideia não é um equívoco completo, mas ela toma o secundário por principal e, permanecendo na superfície dos acontecimentos, oculta uma característica de fundo da política brasileira contemporânea.

O que estamos presenciando é, na verdade, uma fissura importante entre, de um lado, o movimento bolsonarista no seu conjunto, movimento de orientação neofascista e que engloba setores populares, e, de outro, setores da burguesia que dirigem o próprio campo político que se formou em torno daquele movimento ou que se aproximaram dele mesmo que de forma relutante.

No nível da cena política, a fissura está exposta. Desde a decretação do tarifaço por Donald Trump, a burguesia brasileira só fala em negociação. Essa é a palavra-de-ordem consensual entre a grande imprensa, as associações patronais e os economistas liberais.

Enquanto isso, e em contraste com as demandas da burguesia, a direção do movimento neofascista, seus deputados e sua base social, na Câmara Federal, nas redes sociais e nas ruas, rejeitam tal negociação, acusam aqueles que a defendem de serem traidores a soldo da “elite financeira” e apontam como único caminho o cancelamento do processo judicial contra Jair Bolsonaro ou a aprovação de projeto de lei de anistia para todos envolvidos em crimes contra a democracia.

Proclamam abertamente que o Judiciário brasileiro deve se curvar diante das exigências de Donald Trump livrando Jair Bolsonaro do processo que corre contra ele. Os governadores do Sudeste e do Sul ficaram perdidos no meio do tiroteio. Inicialmente, procuraram manter-se fiéis ao movimento neofascista; num segundo momento, sob pressão da burguesia, trataram de se afastar do movimento e decidiram ir cuidar dos interesses dos empresários de seus estados prejudicados pelo tarifaço.

O clã Bolsonaro não agiu sozinho, não se isolou e sequer se desgastou diante do movimento neofascista ao trabalhar para que Donald Trump tomasse medidas contra a economia e contra o Judiciário brasileiro e ao exaltá-las em diferentes oportunidades e locais. Pelo contrário, a liderança do movimento se fortaleceu frente à sua base, como indica o evidente crescimento, desde então, da mobilização neofascista.

No Congresso Nacional, deputados do Partido Liberal (PL) realizaram um ato desfraldando grande faixa em homenagem a Donald Trump. As manifestações de domingo, dia 03 de agosto, elegeram o governo Lula e o STF como inimigos principais e exaltaram o presidente dos Estados Unidos e suas agressões contra a soberania nacional.

Aliás, essas manifestações reuniram um público muitas vezes superior que o público que participou da manifestação em protesto contra a colocação de tornozeleira eletrônica em Jair Bolsonaro e ocorreram nas principais capitais brasileiras, e não apenas na cidade de São Paulo como tinha ocorrido anteriormente.

É o conjunto do movimento fascista que coloca os interesses gerais desse movimento acima dos interesses econômicos dos setores afetados pelo tarifaço e acima da soberania do Estado brasileiro. Cabe, então, a pergunta: por que se comportam assim?

Afastada a resposta superficial e enganosa que elege os interesses pessoais do clã Bolsonaro como a causa de tal postura, a resposta que deve ser dada aponta, como deixamos entrever no primeiro parágrafo deste texto, para as diferenças de classe, de interesses e de disposições ideológicas presentes no amplo e heterogêneo campo político bolsonarista.

2.

O movimento neofascista, que é o movimento em torno do qual se formou tal campo político, é um movimento integrado por classes populares e por um setor burguês muito particular.

No primeiro conjunto temos, principalmente, a classe média, temerosa de rebaixamento social que ela vislumbra desenhar-se nas políticas sociais dos governos petistas – aumento real do salário-mínimo, políticas de transferência de renda, quotas no ensino e nos concursos públicos etc. – e setores populares organizados pelas igrejas pentecostais, preocupados, esses últimos, com a defesa da familia patriarcal e não necessariamente indispostos com a política social petista que tanto preocupa a classe média.

No que respeita à burguesia, são os proprietários de terra da agropecuária capitalista que integram o movimento bolsonarista. Esses aderiram ao fascismo movidos por interesses distintos daqueles da classe média e dos setores populares. Tornaram-se fascistas por almejarem o que denominam segurança jurídica.

Em português claro: almejam a repressão dura dos movimentos camponês, indígena, quilombola e ambientalista. Percebemos, portanto, que, já no interior do movimento neofascista, há interesses e disposições ideológicas distintas. Tais diferenças são ainda maiores quando consideramos o conjunto do campo político neofascista.

Os burgueses da Faria Lima e seus prepostos, ambiente no qual sem dúvida deve prevalecer o machismo e o elitismo, quando vão definir os seus objetivos políticos não estão preocupados, fundamentalmente no presente momento, com a posição relativa da classe média diante dos trabalhadores manuais e tampouco com a defesa dos valores da família patriarcal ou com a dita segurança jurídica dos fazendeiros. O norte político da Faria Lima são a política monetária e fiscal do governo.

O que ocorre é que o movimento neofascista como um todo dá mais importância aos seus interesses e valores acima citados que aos interesses da burguesia brasileira, inclusive dos setores burgueses que têm caminhado junto com o movimento neofascista.

No momento, o que mais importa para esse movimento é salvar sua liderança política, fortalecer seus laços com o poderoso congênere estadunidense e ultrapassar as barreiras que as instituições da democracia liberal ainda erguem como obstáculos no seu caminho para o autoritarismo. A “economia” vem em segundo lugar. É preciso levar a sério a ideia de que o movimento neofascista estrito senso não é um movimento burguês.

É verdade que a burguesia, e principalmente a grande burguesia associada dominantemente financeira – a famosa Faria Lima – confiscou politicamente esse movimento e se serviu largamente dele para reverter a política econômica, a política social e a política externa dos governos neodesenvolvimentistas do PT.

A direção do movimento neofascista não teria chegado a integrar a equipe do governo de Jair Bolsonaro se não tivesse se subordinado à grande burguesia associada. Mas, essa última nunca logrou reduzir o movimento neofascista a um instrumento servil. Não há indícios de que a Faria Lima tenha apoiado a ação golpista aventureira de 08 de janeiro de 2023 – não por amor à democracia, mas por temerem a aventura.

Estavam lá a classe média e setores populares contando com a logística e o apoio econômico dos fazendeiros, mas, pelo menos até agora, nada se viu, salvo engano meu, da presença da grande burguesia brasileira naquela ação. Essa relação complexa, em que o fascismo se comporta como “instrumento rebelde” da burguesia, foi detectada e analisada por Antonio Gramsci, Leon Trotsky, Palmiro Togliatti, Daniel Guerin e outros dirigentes e intelectuais comunistas no calor da hora, quando o fascismo nascia na Europa, e reafirmada por importantes pesquisadores do fascismo décadas depois, como Nicos Poulantzas e outros.

Nas manifestações de domingo dia 03 de agosto, o movimento neofascista deu uma grande demonstração de força. Houve manifestações em quase todas as capitais de Estado, o número de manifestantes cresceu muito em relação às manifestações precedentes e o ânimo dos manifestantes estava alto.

Na maior de todas elas, a manifestação na Avenida Paulista, o pastor Silas Malafaia fez em seu discurso crítica agressiva aos governadores, inclusive a Tarcísio de Freitas, que aspiram à disputa presidencial e que se ausentaram do ato. Denunciou-os, em tom debochado, como covardes.

Esse fato pode ser lido como uma fala do movimento neofascista indisposto com a burguesia e com os políticos mais organicamente ligados a essa classe social. Apesar da força dos atos de domingo, o movimento neofascista está, no episódio do tarifaço de Donald Trump, criando atrito com a classe social que abriu caminho para o seu ascenso ao poder governamental.

*Armando Boito é professor titular sênior de ciência política na Unicamp e editor da revista Crítica Marxista. É autor, dentre outros livros, de Reforma e crise política no Brasil – os conflitos de classe nos governos do PT (Unesp-Unicamp) [https://amzn.to/4554cq7]

Para ler o primeiro artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/fissuras-do-campo-politico-bolsonarista/

Para ler o segundo artigo da série clique em https://aterraeredonda.com.br/fissuras-no-campo-bolsonarista-episodio-2/


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