Fragmentos XXII

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Por AIRTON PASCHOA*

Cinco peças curtas

Paraíso fiscal

O dinheiro dá em árvore e o fruto não é proibido. Cresce e multiplica à medida que abocanhado. Tão ao alcance aliás luz o pomo da concórdia que pecado é não ceder à tentação e não meter a mão. Colheita farta e feita, fazer o quê? Se não somam beatrizes, sobram atrizes e modelos… atrozes como atrizes mas modelares como meretrizes. Fugir à vulgaridade da queda, eis o requintadamente raro, distinto, esquisito, e sem mandamento de nos prender a Ele. À terra podemos baixar a gosto, não ao rés do chão, Deus nos livre! tampouco a sete palmos. Baixamos o bastante a fim de levitar sem perigo e fruir gozo o mais divino a que foi dado ao Homem aspirar — a carícia de unhas desesperadas, deliciados, à fina flor de nossa planta.

 

Neofranquismo

Era franco: acreditava na bugresia e por ela batia-se sem trégua, fosse nas colunas dos jornais ou no front do Leblon. Empunhava os dados e arremessava-os a torto e à esquerda. Não levar em conta a raiz do problema, o déficit fiscal, Hayek nos parta! era um problema de raiz, de déficit intelectual. Mas nem tudo estava perdido: mesmo a Previdência rivalizando ruinosamente com a Providência ou aqui e ali prevalecendo, em detrimento do benefício privado, o vício público do Estado, não havia razão pra descrer do progresso. Quanto tempo não custou à primeira célula, lá do fundo do oceano fugida, galgar até ele, Guga? E voltou ao mar.

 

Sujeito automático

À Leda

A moderna idade sempre demandou progresso. É a tal da lei maior, magna, máxima, que percorre a espinha da história, a arrepiar-lhe o cabelo. Liga-se e desliga-se a luz, liga-se e desliga-se o gás, liga-se e desliga-se o fogo, liga-se e desliga-se a água, liga-se e desliga-se tudo. Automático é o mundo, objetos, sujeitos, reflexos, e por aí fora, até o fim da picada, ligando e desligando, exclusive os desligados. Quem havia de viver também, sem de quando em vez desligar? Donde a necessidade imperiosa do interruptor, no afã de prevenir curto-circuito em curto circuito qual o nosso. Sem o bendito (podia jurar era aqui) é a escuridão na certa ou o clarão eterno.

 

Terraplanismo

Como se envelhece mal nesta terra — plana, progressivamente plana, de tal monta a irrelevância! Fadiga de cogitar o enorme passado que o país tem pela frente, na sentença impagável do Millôr. Destarte passando se vai, com a naturalidade dos carnavais, da esquerda à centro-esquerda, da centro-esquerda ao centro, do centro à centro-direita, da centro-direita à direita, da direita à extrema direita, e desta pra melhor, o centro da essa, na falta infeliz de inferno. Podem presumir, lógico, que, vivendo mal, também se há de morrer mal… Nada mais apartado da verdade. Privilegiados, poetas, artistas, cientistas, intelectuais, vivem em condições invejáveis em comparação com o povo.

Sobre a estafa, ora me ocorre, em desagravo da evolução corrente, pode concorrer o enfado com a imóvel paisagem. Mentes sensíveis, não restaria que fazer senão dar as mãos à rotação.

 

Gaiata ciência

Conheci o amor e o ódio, o ciúme, a inveja, a ira, a gula, os cinco pecados capitais, com particular predileção (tropical, queira deus) pela luxúria e pela preguiça.

Não conheci a avareza nem a soberba, salvo este orgulhinho besta de convocar vocábulos e tourear estouro.

Conheci a amizade e desconheci a vaidade.

Conheci a pobreza e a paternidade, riqueza única, ambas experiências fundas e fundantes, sem prejuízo de afundarem, a depender do casco.

Conheci pai e mãe, não pude amá-los. Não me perguntem por quê. O amor não conhece justiça.

Conheci o remorso, que morde e remorde sempre que a memória, maliciosa, fareja osso no quintal.

Conheci as fraquezas, sem conhecer a virtude.

Conheci o desengano, sem reconhecer a esperança.

Não conheci a fé, conforto pessoal de que fui privado.

Conheci a morte, moço, companheira inseparável ao longo da vida.

Conheci a Universidade.

Conheci a Revolução.

Conheci a Poesia.

Não conheci a alta criação, aquela que só alcançam os artistas maiores em circunstâncias quase que misteriosas. Conheci a criação do dia a dia, caseira, ordinária, pequeno e precário artesanato, movido a torno menor, apto apenas a parir folhinhas de flandres e flagrantes (de sorte e susto).

Conheci o que conhecem os homens?

Tirando a Poesia e a Revolução, decerto o que conhece o grosso de certa casta, média, certo país, medíocre, certa quadra e certa cidade escatológicas.

Não saio insatisfeito, tampouco satisfeito. Sequer quite. Desquitado, se quiserem, incompatibilidade de gênios, a vida adiada e o vadio odiando.

Conheci certas manhãs de azul e luz raiadas que me fizeram confiar no amanhecer. Mas isso faz tempo e uma coisa que o tempo faz é apagar digitais.

*Airton Paschoa é escritor, autor, entre outros livros, de Banho-maria (e-galáxia, 2021, 2.ª edição, revista).

 

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