As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Franz Hinkelammert (1931-2023)

Imagem: Eugene Liashchevskyi
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por ADRIANA CARNEIRO MARINHO*

O teólogo, filósofo e economista deixa uma obra extensa, rebuscada e revolucionária

Nesta madrugada (17 jul. 2023), faleceu o teólogo, filósofo e economista Franz Hinkelammert. Apontado por Enrique Dussel como o maior teórico da Teologia da Libertação, Franz nos deixa uma obra extensa, rebuscada e revolucionária. Conforme veremos a seguir, o autor demonstrou interesse especial pelos temas da ideologia da economia, do subdesenvolvimento na América Latina e do fetichismo da mercadoria – questões que ainda perpassam os grandes debates econômicos de nossa época. 

Nascido em 1931, Hinkelammert viveu a sua infância sob o regime nazista, em Herford, uma pequena cidade na Alemanha. Franz contava que era muito jovem na época, mas que se lembrava de que costumava ir com outras crianças à estação de trens da cidade para ver as locomotivas. Nessas ocasiões, via passar os trens que carregavam os prisioneiros do III Reich. Nas locomotivas havia uma espécie de cartaz com uma inscrição que dizia: “Temos assegurada a vitória final. Temos o melhor material humano”. Essa mensagem ficou marcada em sua memória, vindo à tona sempre que ouvia falar em “capital humano” ou outros termos correlatos.[i]

A trajetória intelectual do autor começou no período do pós-guerra, a partir de 1946,
quando passou a ter contato com revistas, livros, periódicos e filmes sobre a guerra e o holocausto. Um amigo mais velho, que trabalhara como enfermeiro na guerra, guardara muitos desses materiais e, naquele momento, emprestava a Hinkelammert – toda semana, levava em sua casa cinco ou seis livros, e assim ele dedicava muito tempo a essas leituras, até mais do que à escola regular. O gosto pelos livros, portanto, começou quando Franz tinha apenas 15 anos de idade, o que certamente influenciou no elevado grau de erudição de sua produção intelectual.

Mais tarde, após passar um ano com os jesuítas, Franz Hinkelammert decidiu ingressar na universidade para estudar economia. Devido à flexibilidade das grades das três universidades pelas quais passou, Hinkelammert acabou cursando várias disciplinas em áreas como o direito público, a filosofia e a teologia. Fez a pós-graduação no Instituto da Europa Oriental da Universidade Livre de Berlim, onde estudou a União Soviética e o campo socialista e obteve o título de doutor. Em sua formação universitária, Hinkelammert se aprofundou nas obras clássicas do marxismo e nas economias soviéticas da Europa Oriental. Nesse período, buscou analisar o que interpretava como uma dimensão teológica implícita na ideia de planificação socialista. 

Após concluir o doutorado, Hinkelammert foi contratado por um de seus professores para trabalhar como assistente e pesquisador. Nessas circunstâncias, passou a estudar temas como o fetichismo da mercadoria e as taxas de crescimento na economia socialista; a relação entre ideologia e economia no pensamento soviético; entre outros. As reflexões desenvolvidas nesse momento foram incorporadas posteriormente em sua obra Critica de la razón utópica,[ii] lançada em 1984.

O interesse de Franz Hinkelammert pela América Latina remonta à sua juventude, quando já havia lido sobre Simón Bolívar. Após terminar seus estudos na Universidade Livre de Berlim, o autor começou a buscar possíveis trabalhos em algum dos países latino-americanos. Em 1963, foi convidado para ser representante da Fundação Konrad Adenauer – vinculada à democracia cristã – na Universidade Católica do Chile, iniciando assim sua trajetória nesse país, que se encerraria em 1973 com o golpe militar de Augusto Pinochet. 

No Chile, Franz Hinkelammert entrou em contato com a Teologia da Libertação e a teoria da dependência, lecionou na Universidade Católica do Chile e no ILADES (Instituto Latino-americano de Doutrina e Estudos Sociais), além de ter sido membro do CEREN (Centro de Estudos da Realidade Econômica Nacional), grupo vinculado à Universidade Católica. Nesse período, o autor também atuou em centros de formação política e sindical fora do âmbito acadêmico. 

Especificamente no que toca à atuação política, Hinkelammert participou dos debates no interior do Partido Democrata Cristão do Chile (PDC) que acarretaram a criação do Movimento de Ação Popular Unitária.[iii] Junto ao MAPU, Hinkelammert integrou a Unidade Popular, coalizão de esquerda criada para disputar as eleições de 1970, que levou Salvador Allende à presidência da República do Chile. Dessa forma, o economista entrou em embates com a doutrina social da Igreja e especialmente com o anticomunismo de alguns dos principais ideólogos da democracia cristã, como o sacerdote jesuíta Roger Vekemans.

No que diz respeito ao contato com a teoria da dependência, Hinkelammert conheceu pessoalmente Theotônio dos Santos, André Gunder Frank e outros teóricos dessa corrente que compunham o CESO (Centro de Estudos Socioeconômicos), na Universidade do Chile. Na esteira dos debates com esses autores, lançou três obras fundamentais acerca das ideologias do desenvolvimento, bem como das causas do subdesenvolvimento na América Latina. São elas: Dialéctica del desarrollo desigual; Ideologías del Desarrollo y Dialéctica de la Historia e El subdesarrollo latinoamericanoUn caso de desarrollo capitalista.[iv]

Em 1973, após o golpe que destituiu a Unidade Popular e consolidou a ditadura militar liderada por Augusto Pinochet, Franz Hinkelammert refugiou-se na embaixada alemã na condição de hóspede e, em seguida, voltou ao seu país de origem mediante um acordo feito entre as nações. Após alguns anos em seu país natal, voltou à América Latina, dessa vez para a Costa Rica, na ocasião em que foi convidado para atuar como docente e pesquisador na Licenciatura de Sociologia do Conselho Superior Universitário CentroAmericano (CSUCA). 

Franz chegou à Costa Rica em 1976 e nesse mesmo ano ajudou a fundar o Departamento Ecumênico de Investigações (DEI), uma organização independente que se consolidou como um centro teológico de estudos e análise multidisciplinar da realidade latino-americana.[v] Sua criação remonta a uma série de debates realizados entre os anos de 1972 e 1973 por Franz Hinkelammert, Hugo Assmann e Pablo Richard, no Chile da Unidade Popular. O Departamento foi fundado por esses três teólogos, alinhando-se à perspectiva e aos objetivos comuns da Teologia da Libertação.

Ao lado de Hugo Assmann, Jung Mo Sung e Wim Dierckxsens, Franz Hinkelammert articulou um campo teórico no DEI especialmente dedicado à crítica da economia política. Uma de suas principais preocupações era a análise e a crítica do neoliberalismo numa perspectiva teológica, através da qual conceituaram que o mercado, na sociedade capitalista, se apresentava como um deus – um falso deus que era alvo de idolatria, tal como o bezerro de ouro idolatrado pelo povo de Israel no deserto.[vi] Para tanto, esses teólogos mobilizaram formulações marxistas como a alienação, a ideologia e o fetichismo.

Em 1977, Franz publicou Las armas ideológicas de la muerte, uma de suas obras mais consagradas.[vii] O livro é dividido em pelo menos duas partes, sendo a primeira dedicada à análise do fetichismo de Marx. Nos capítulos posteriores, Hinkelammert trata do tema da vida e a morte no cristianismo, de modo geral, e mais especificamente no pensamento católico nos termos em que este se apresentava no momento – na doutrina social católica e na Teologia da Libertação. As duas partes são relacionadas na medida em que o fetichismo é encarado como justificação teórica dos fenômenos ideológicos verificados no campo da religião, tais como o autor apresenta na segunda parte da obra. 

Após a queda da União Soviética, Franz Hinkelammert passou a se dedicar a um novo conjunto de questões – ligadas ao novo contexto, marcado pelo triunfo do neoliberalismo e pela globalização. Assim, deu atenção especial a temas ligados ao humanismo, à condição do sujeito e aos direitos humanos. Não obstante, a perspectiva da Teologia da Libertação articulada à critica da sociedade capitalista, a relação entre vida e morte, e o problema do mercado (e da idolatria), continuaram a exercer um papel estruturante em sua obra. 

Destarte, na ocasião de sua passagem, pretendi demonstrar brevemente a trajetória e o conteúdo da produção intelectual de Franz Hinkelammert, pouco conhecida e discutida nos círculos acadêmicos e nos espaços de debates das esquerdas brasileiras. Cabe recordar que enfrentamos hoje um fascismo intimamente ligado à perspectiva cristã da teologia da prosperidade, professada por grande parte da população e defendida institucionalmente pelas igrejas neopentecostais.

Nesse sentido, mostra-se profícuo recuperar os escritos e a história dos agentes da Teologia da Libertação, cujo conteúdo não é apenas reformista, mas revolucionário. A obra de Franz Hinkelammert é um excelente objeto para esse exercício e pode ser acessada virtualmente através da coleção criada pela Universidad Centroamericana José Simeón Cañas: https://coleccion.uca.edu.sv/s/franz-hinkelammert/page/inicio (acesso em 17 jul. 2023). Que o nosso professor possa enfim descansar e que seu legado permaneça vivo na história!

*Adriana Carneiro Marinho é mestranda em história econômica na USP.

Notas


[i] NADAL, Estela F.; SILNIK, Gustavo D. Conversaciones com Franz Hinkelammert – 1ª ed. Buenos Aires: CICCUS; CLACSO, 2012, p. 95.

[ii] HINKELAMMERT, F. J. Critica de la razón utópica. San José, Costa Rica: DEI, 1984.

[iii] O Movimento de Ação Popular Unitária (MAPU) foi fundado em 1969 como uma dissidência de parte da esquerda católica do PDC. A força motriz de sua fundação foi a célula juvenil marxista da Juventude Democrata Cristã (JDC). Uma reconstituição da trajetória do MAPU está em VALENZUELA, Esteban, Cristianismo, revolución y renovación en Chile. El movimiento de acción popular unitaria (MAPU) 1969-1989, Universitat de València Servei de Publicacions, Valência, Espanha, 2011.

[iv] HINKELAMMERT, F. J. Dialéctica del desarrollo desigual. Santiago do Chile, número especial da revista Cuademos de la Realidad Nacional, n° 6, 1970; Ideologías del Desarrollo y Dialéctica de la Historia. Buenos Aires: Editorial Paidós, 1970; EL SUBDESARROLLO LATINOAMERICANO – Un caso de desarrollo capitalista. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1970.

[v] PÉREZ, Claudio J.; MURPHY, John W. El trabajo del Departamento Ecuménico de Investigaciones y América Latina. Bogotá: Revista Comunicación, Cultura y Política, 2013, p. 12. Disponível em: https://journal.universidadean.edu.co/index.php/revistai/article/view/655

[vi] A adoração do bezerro de ouro é uma passagem do Exôdo 32. Nesse momento da narrativa, o povo de Israel já não confiava em Yahweh e em Moisés, incentivando que Aarão criasse um ídolo que os reconduzisse de volta ao Egito. O bezerro de ouro é usado na linguagem popular como sinônimo de falso deus.

[vii] HINKELAMMERT, F. J. Las armas ideológicas de la muerte. Costa Rica, San José: EDUCA–DEI, 1977.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
João Sette Whitaker Ferreira Leonardo Avritzer Manuel Domingos Neto João Lanari Bo Sergio Amadeu da Silveira Francisco de Oliveira Barros Júnior Gilberto Maringoni Eugênio Bucci Ladislau Dowbor Anderson Alves Esteves Otaviano Helene Mariarosaria Fabris Airton Paschoa Jorge Luiz Souto Maior Yuri Martins-Fontes Tadeu Valadares Alexandre de Freitas Barbosa Henry Burnett Luiz Bernardo Pericás José Luís Fiori Anselm Jappe Francisco Fernandes Ladeira Ricardo Fabbrini José Micaelson Lacerda Morais Eleonora Albano Luis Felipe Miguel Leonardo Boff Alexandre de Lima Castro Tranjan Michael Löwy Sandra Bitencourt Slavoj Žižek Paulo Fernandes Silveira Rubens Pinto Lyra Fernão Pessoa Ramos Boaventura de Sousa Santos Luciano Nascimento Ricardo Musse Rafael R. Ioris Juarez Guimarães Marcelo Módolo Osvaldo Coggiola Marilia Pacheco Fiorillo Marcelo Guimarães Lima Ronald Rocha Paulo Capel Narvai Elias Jabbour Luiz Eduardo Soares Ronaldo Tadeu de Souza Ari Marcelo Solon Vinício Carrilho Martinez Paulo Martins Dennis Oliveira Chico Whitaker Salem Nasser Plínio de Arruda Sampaio Jr. Vladimir Safatle André Márcio Neves Soares Vanderlei Tenório Tarso Genro Luiz Roberto Alves André Singer Antônio Sales Rios Neto Lorenzo Vitral Luiz Carlos Bresser-Pereira Everaldo de Oliveira Andrade Kátia Gerab Baggio Henri Acselrad Marcos Silva Carlos Tautz Gerson Almeida Eliziário Andrade Alexandre Aragão de Albuquerque Eugênio Trivinho Bernardo Ricupero Valério Arcary Armando Boito Lucas Fiaschetti Estevez Lincoln Secco Chico Alencar Alysson Leandro Mascaro Paulo Nogueira Batista Jr Caio Bugiato Bruno Machado Julian Rodrigues Daniel Brazil Jorge Branco Bento Prado Jr. Walnice Nogueira Galvão Berenice Bento João Feres Júnior Samuel Kilsztajn Gilberto Lopes Ricardo Abramovay Dênis de Moraes Benicio Viero Schmidt José Dirceu Maria Rita Kehl Flávio Aguiar Ricardo Antunes Roberto Bueno Paulo Sérgio Pinheiro Annateresa Fabris Manchetômetro Celso Frederico Celso Favaretto Mário Maestri Luiz Renato Martins Marjorie C. Marona Igor Felippe Santos Fábio Konder Comparato Luiz Marques Antonino Infranca Afrânio Catani Marilena Chauí Valerio Arcary Denilson Cordeiro Thomas Piketty Luiz Werneck Vianna Roberto Noritomi Carla Teixeira Daniel Afonso da Silva Marcus Ianoni Fernando Nogueira da Costa João Paulo Ayub Fonseca Jean Pierre Chauvin Remy José Fontana João Carlos Salles Francisco Pereira de Farias Flávio R. Kothe Eduardo Borges João Carlos Loebens Andrew Korybko Gabriel Cohn Marcos Aurélio da Silva Ronald León Núñez Priscila Figueiredo José Geraldo Couto Jean Marc Von Der Weid Luís Fernando Vitagliano Érico Andrade Leonardo Sacramento Antonio Martins Luiz Costa Lima Heraldo Campos Michael Roberts Bruno Fabricio Alcebino da Silva Milton Pinheiro Daniel Costa Leda Maria Paulani Rodrigo de Faria Tales Ab'Sáber José Machado Moita Neto Eleutério F. S. Prado João Adolfo Hansen José Raimundo Trindade Liszt Vieira Atilio A. Boron José Costa Júnior Renato Dagnino Claudio Katz

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada