Fredric Jameson

Paul Klee, Templo rochoso com abetos, 1926.
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Por TERRY EAGLETON*

Fredric Jameson foi sem dúvida o maior crítico cultural de sua época

Conheci Fred Jameson em 1976, quando ele me convidou a lecionar para seus alunos de pós-graduação na Universidade de Califórnia, San Diego. Antes disso, só sabia da sua existência por conta do espantoso Marxismo e forma,[i] publicado cinco anos antes, um conjunto de ensaios reluzentes sobre pensadores como György Lukács, Walter Benjamin, Theodor Adorno e Ernst Bloch, entre outros.

O próprio título do livro já desafiava frontalmente uma embotada linhagem de crítica marxista vulgar. Também lidava com uma série de obras alemãs, algumas delas eriçadas de dificuldades, que ainda não haviam sido traduzidas para o inglês.

Na época, fiquei convencido de que o nome Fredric Jameson era provavelmente pseudônimo de Hans-Georg Kaufmann ou Karl Gluckstein, algum refugiado de Mittleuropa encafuado no sul da Califórnia. O homem que encontrei, no entanto, e que me cumprimentou com uma brusquidez que depois entendi ser timidez, era tão estadunidense quanto Tim Walz – embora suspeite que Walz não tenha o costume de se esgueirar para ler a mais recente ficção tcheca acompanhado de uma taça de vinho.

Ele usava expressões como look it e holy shit, vestia jeans denim, gostava de comer surf n’ turf e ficava claramente desconfortável na presença de intelectuais franceses patrícios, preferindo muito mais a companhia do cordial, extrovertido Umberto Eco.

Tudo isso já era autêntico o bastante; mas ele também foi um intelectual em uma civilização na qual tais criaturas são aconselhadas a aparecer disfarçadas. Algo semelhante poderia ser dito da retórica eivada de frases longas e sonoras própria de seu estilo literário, que opera tanto como uma máscara quanto como um modo de comunicação.

Fredric Jameson era em alguns sentidos um homem privado lançado na esfera pública, viajando pelo mundo (nos cruzamos depois na China e na Austrália) ao mesmo tempo em que vivia numa remota casa de campo na zona rural da Carolina do Norte cercada de cabras e galinhas e cheia do som das crianças. As crianças eram particularmente preciosas para ele, e ele deixou um verdadeiro batalhão de netos e netas.

Fredric Jameson foi sem dúvida o maior crítico cultural de sua época – embora o termo “crítico cultural” designe aqui um tipo de trabalho intelectual que engloba estética, filosofia, sociologia, antropologia, psicanálise, teoria política e afins, para o qual ainda não temos nome adequado. Não havia nada no campo das humanidades que não chamasse sua atenção – do cinema à arquitetura, passando pela pintura e a ficção científica – e ele parecia ter lido mais livros do que qualquer outra pessoa no planeta.

Ele era capaz de falar tanto sobre Parmênides quanto sobre pós-modernismo, e quando estreou Barry Lyndon (1975), filme de Stanley Kubrick baseado em um romance obscuro de Thackeray do qual ninguém havia ouvido falar, um de seus alunos comentou, confiante: “Fred deve ter lido” (e provavelmente estava certo). Ele tinha uma energia americana voraz combinada com uma alta sensibilidade europeia.

Sustentava que nenhuma crítica marxista tinha muito valor se não conseguisse dar conta da forma das frases; e era capaz detectar toda uma estratégia ideológica em uma guinada narrativa ou uma mudança de tom poético. Ao mesmo tempo, também media o pulso de uma civilização inteira, como em seu ensaio clássico sobre cultura pós-moderna.[ii]

Críticos literários não têm muita função social hoje em dia. Parte do feito de Fredric Jameson foi ter mostrado para o resto de nós como tais modestas figuras acadêmicas podem novamente se tornar intelectuais públicos, homens e mulheres cuja influência se espraia para muito além dos limites convencionais dos estudos literários. É isso que a palavra amorfa “teoria” passou a significar, e Fredric Jameson foi o mais fino teórico de todos.

*Terry Eagleton, filósofo e crítico literário, é professor emérito de literatura inglesa na Universidade de Oxford. Autor, entre outros livros, de O acontecimento da literatura (Unesp).

Tradução: Artur Renzo.

Publicado originalmente no blog da Editora Verso.

Notas do tradutor


[i] Fredric Jameson, Marxismo e forma: teorias dialéticas da literatura no século XX. Tradução: Iumna Maria Simon, Ismail Xavier e Fernando Oliboni. São Paulo, Editora Hucitec, 1985.

[ii] Fredric Jameson, Pós-modernismo, ou, a lógica cultural do capitalismo tardio.Tradução: Maria Elisa Cevasco. São Paulo, Ática, 1996.


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