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Hipocrisia

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Por MARIA RITA KEHL*

Uma mulher pode – pasmem! – não desejar nenhum filho

Alguém já se perguntou por que os machões da turma pró armas, (com direito a tiro “na cabecinha”) fazem o sinal da cruz e se declaram defensores da vida quando se trata do direito feminino ao aborto?

Hipocrisia, claro. E machismo – ça va sans dire, mesmo nos casos em que a argumentação moralista venha da boca de uma mulher. Afinal, uma gravidez indesejada indica a forte possibilidade de a moça ter desfrutado do sexo antes, ou fora, do casamento. Nem todas as senhoras de bem suportam saber disso. Mesmo assim, são obscuras as razões para que tais senhoras de bem – como a juíza cujo nome felizmente esqueci – condenem a mulher, ou no caso a criança de onze anos, que pretende impedir o desenvolvimento do embrião gerado a partir de um estupro. Sim, também existe machismo e truculência entre mulheres.

Talvez, também, aquelas que se responsabilizam pelo desejo de interromper uma gravidez não planejada ofendam os homens por agir como se fossem donas de seus corpos – e de seus destinos. Além disso, a decisão feminina de recusar a gravidez desperta, em alguns homens, uma sombra de dúvida sobre o amor incondicional de suas santas mãezinhas. Se vos consola, senhores, saibam que a decisão de abortar nunca fácil, nem o aborto é um domingo no parque. É sofrido, doloroso e – em muitos casos – arriscado.

Há mulheres que sofrem muito por não levar adiante uma gravidez, mas o fazem porque não consegue nem alimentar os filhos que já tem. Entre elas, inúmeras foram abandonadas por seus honrados maridos que desaparecem para não pagar pensão. Por fim, não deixa de ser curioso que, em uma sociedade que não reconhece uma série de direitos das mulheres, o estatuto da grávida seja da ordem do sagrado.

Vale acrescentar o fator de risco: como o aborto é ilegal, a mulher não tem nenhuma segurança a respeito da competência do médico que se oferece (em geral a preço alto) a ajudá-la.

Quando penso na hipocrisia, me ocorre outra pergunta: sim, claro: o embrião que a turma contra o direito ao aborto tanto defende (embora raramente defendam as criancinhas que passam fome depois de nascer) é uma forma de vida. Mas eu lhes pergunto: seria, ainda no primeiro mês da gestação, uma vida humana? Não falo de genes e cromossomas. Refiro-me às práticas sociais. É verdade que muitas dessas práticas desumanizam também crianças e adultos já nascidas: se não, como explicar nossa enorme tolerância das chamadas pessoas de bem para com a miséria que aumenta a cada dia no país?

Volto ao feto. Na prática, não o consideramos como vida humana, e nossas práticas diante de um embrião abortado mesmo contra a vontade da mãe confirmam isso. A sociedade não considera o embrião de poucas semanas como vida humana: não há precedentes de rituais religiosos, orações e sepultamento digno, em consideração à forma de vida incipiente que, acidentalmente, se perdeu.

Sou obrigada a ser rude, por falta de um bom jeito de nomear o que se faz, nas choupanas mais pobres e nos mais caros hospitais, com o embrião de poucas semanas expulso do corpo da mãe por um aborto espontâneo: ele é jogado no lixo. Ou na privada. Cruel? Claro que sim, especialmente para a mãe que perdeu contra sua vontade a vidinha que já amava como filho. Mas revela a convicção geral, ainda que inconsciente, de que aquele agrupamento de células ainda não representa uma vida humana.

Não escrevo isso para sugerir que deveríamos sepultar e celebrar missas de sétimo dia para os embriões perdidos por abortos espontâneos. Escrevo para argumentar contra a carolice hipócrita de quem condena o aborto incondicionalmente. Meu argumento não é o de que nós, mulheres, somos donas de nossos corpos, porque não se trata do que fazemos com os corpos – com toda a liberdade a que temos direito – e sim com nosso destino.

Uma mulher pode – pasmem! – não desejar nenhum filho. Ou pode se achar imatura demais para ser mãe naquele momento de sua vida, mas planejar ter filhos mais tarde. Ou, o que tantas vezes ocorre, saber que a pobreza não lhe permite alimentar e cuidar bem nem dos filhos que já teve, por isso não saberia o que fazer com mais um. O machão carola que condena o aborto com frequência é o mesmo que abandonou mulher e filhos e desaparece para não ter que conceder a pensão prevista em lei.

A única conclusão possível depois dessas considerações, é a de que a criminalização do aborto reproduz, ainda que para muitos de forma inconsciente, antiquíssimos preconceitos contra a liberdade sexual da mulher. A falsa defesa dos “direitos do embrião” e as acusações às mulheres que recorrem ao aborto não é o último, mas um dos mais hipócritas refúgios dos canalhas.

*Maria Rita Kehl é psicanalista, jornalista e escritora. Autora, entre outros livros, de Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade (Boitempo).

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