Por HENRI ACSELRAD*
Quando a técnica promete inteligência, mas organiza a média, o risco é expandir a ininteligência
1.
Conforme explicitado no debate público corrente, a chamada “inteligência artificial” é peça crucial na trama geopolítica contemporânea. Os economistas, de seus pontos de vista, acionam estimativas: que proporção de tarefas poderá ser afetada nos próximos anos; que ganho de eficiência sobrevirá de cada tarefa afetada; qual a proporção de horas trabalhadas totais que será afetada pelo estímulo que esta nova tecnologia oferece à acumulação de capital.
Certos especialistas em tecnologia da informação relutam em usar o termo “artificial”, preferindo chamá-la de inteligência aumentada, nela sublinhando o papel dos sujeitos no manejo dos artifícios. Psicólogos sociais e neurocientistas se interrogam, por sua vez, sobre como serão afetadas e reconfiguradas as capacidades dos sujeitos – incluindo as competências intelectuais requeridas para o exercício das próprias tarefas que restarão aos trabalhadores na produção.
Para muitos, o campo do intelecto está sendo sacudido por inovações radicais do campo tecnológico; para alguns, em particular, as transformações em curso contêm elementos de um projeto político e ideológico totalizante. Examinemos aqui algumas dimensões ecopolítcas desta nova etapa da automatização do cohecimento.
Sabemos que o trabalho intelectual se faz por uma mistura de esforços de tipo arquitetônico, arqueológico e cartográfico realizados a partir do acervo de conhecimentos pré-existentes.[i] Esses conhecimentos são expostos a um permanente esforço de revisão crítica, confirmação, contestação e aperfeiçoamento.
Novos conhecimentos nascem, por sua vez, do encontro e da cooperação de ideias entre si, da “troca polida de doações informacionais”,[ii] do desenvolvimento de novas intuições, descobertas e insights, assim como do contraste, oposição e questionamento dos fundamentos que deram legitimidade às ideias antes prevalecentes.
Todo esse trabalho se faz, por certo, através do exercício da lógica, da observação/experimentação empírica, da comprovação, mas também – ou basicamente – do exame crítico do chamado senso comum, daquele acervo de visões baseadas nas aparências, em impressões sensoriais imediatas e intuitivas, não expostas à dúvida, que pressupõem realidades autoevidentes e que desempenham, em geral, funções de harmonização dos sujeitos com o mundo.
Ou seja, um senso comum que costuma achar explicações fáceis para questões difíceis. Assim, se, como se diz, o trabalho intelectual é aquele que utiliza a inteligência para estender a inteligência e enriquecer o conhecimento, seu exercício passa necessariamente pelo exame crítico deste senso comum e dos conhecimentos estabelecidos.
2.
Mas quais são as condições para que o trabalho intelectual seja criativo e socialmente fértil? A liberdade de pensamento e debate é o bastião do trabalhador intelectual. É o que permite o questionamento do consenso em torno às autoevidências e o respeito à igualdade de direitos, à admissão de diferenças entre nações, culturas e indivíduos, sem atribuir-lhe hierarquias, preferências e avaliações dissimuladas.[iii]
Pensar é um modo de experimentar o mundo, de promover, de forma livre, a liberdade e o conhecimento – o que implica também liberdade para se movimentar no espaço geográfico, no espaço social e no espaço das ideias. É preciso ser suficientemente livre para experimentar o impulso interior que está na origem de todo o movimento, aquela espécie de força vital que dá origem a um movimento que, em seguida, se desdobrará em ideias; ou seja, o esforço proveniente de um impulso inicial que é “movimento antes do movimento”, como o observam filósofos do movimento corporificado.[iv]
Ora, hoje, mais do que nunca, uma condição do trabalho intelectual é o combate à desinformação organizada, ao sistema de produção e distribuição de desinformação que impede este “movimento intelectivo que precede o próprio movimento do pensamento”. O sistema desinformativo é aquele que usa a linguagem para, nos termos do livro 1984 de George Orwell, clássico da crítica ao totalitarismo, “defender assertivas que se anulam mutuamente, evocar lógicas que refutam a lógica e tentar mudar os fatos de um passado já bem documentado”.
Ou seja, um sistema organizado de utilização da ininteligência para estender a ininteligência. A este propósito, um risco ao exercício da inteligência coletiva parece estar, ao que temos visto, embutido nas tecnologias da informação e nos sistema algorítmicos chamados de inteligência artificial.
Como sustentam os pesquisadores da sociologia das técnicas, a concepção dos artefatos tecnológicos se dá a partir de normas e valores que, por suas especificações técnicas, traduzem projetos e interesses. As novas tecnologias da informação exprimem os valores de um capitalismo de vigilância baseado na extração de dados de populações que são ao mesmo tempo fonte e alvo final de sua ação para fins de controle de comportamentos e de mercados.[v]
O conhecimento que dele se pode extrair resulta de um processo de “medianização” – cálculo de uma média – a partir dos modelos de dados e ideias contidos na memória computacional.[vi] O ato de “medianizar” dados e ideais consiste em atribuir as características de um valor médio a um grupo ou entidade múltipla e variável. No caso dos “conteúdos médios” gerados pela inteligência artificial, por exemplo, esses traços resultantes da medianização não são nem criticados, nem contextualizados. Por outro lado, eles são – como o lembra a sociologia das quantificações – “niveladoras implacáveis”,[vii] que, se usados sem critério, podem contribuir, insidiosamente, para fazer da média uma norma.
3.
As Big Techs promovem, assinalam os especialistas, uma “dataficação” do mundo, procedimento de transformação de ações em dados quantificáveis, com a conversão de processos vitais em fluxos informacionais, permitindo amplo rastreamento e análises preditivas dos movimentos do corpo coletivo da sociedade.[viii]
Certos autores designam por “tecnologia total” este sistema sociotécnico em que atores gigantes, por sua capacidade de extração estratégica de dados e sua utilização nos campos econômico e militar, tornam-se portadores de um “datapanoptismo”, um projeto totalizante por sua vontade de potência e controle sem limites.[ix]
Mas, não só as liberdades, a criatividade e a capacidade de exercício da inteligência estão postos em questão pelo extrativismo de dados e a manipulação de informações. Obervemos, por exemplo, as implicações ambientais e urbanísticas do uso capitalístico industrial da inteligência artificial: o caso do chamado fast fashion.[x]
O fordismo foi o sistema pelo qual se massificou a mercadoria – produzindo em massa bens padronizados para um consumo em grande escala também padronizado. Através do extrativismo global de dados, agora massifica-se também a diferenciação dos produtos: a cada dia são lançados inúmeros modelos de produtos resultantes da memória compósita do design inscrito na multiplicidade das mercadorias.
Ora, a cidade fordista – aquela da era da produção industrial em grande escala – caracterizou-se pela acumulação de resíduos, efluentes líquidos e gasosos e pelo descarte de bens de durabilidade limitada graças à obsolescência programada das mercadorias. A cidade fordista mostrou ser o lugar do consumo e do consumo de lugar. Com o neoliberalismo, a cidade tornou-se o lugar do consumismo e do consumismo de lugar, via shoppings e marketing urbano.
E mais: agora, com a massificação da diferenciação das mercadorias, o descarte não virá apenas da inutilização dos bens planejados para serem obsoletos, mas também da substituição acelerada dos diferentes modelos – um descarte acelerado, portanto, pela imposição em massa de uma diferenciação do consumo, uma diversificação acelerada dos modelos das mesmas formas úteis dos produtos.
Uma subjetividade consumista coletiva vem sendo, para tal fim, engendrada de modo que se acelere o processo de transformação das diferentes variedades de um mesmo tipo de mercadoria…. em resíduo. No limite, transforma-se de forma acelerada a própria ideia da mercadoria em resíduo em processo.
Não há como desconsiderar que esse tipo de uso da “inteligência aumentada” por uma tecnopolítica da vigilância e do lucro constitui, ao fim e ao cabo, um desafio ao exercício da inteligência – reflexiva – aplicada ao próprio entendimento da sociedade produtora de resíduos materiais e ideacionais; o que nos remete, inteligentemente, ao alerta do cientista social José de Souza Martins: “quando políticos ignaros dizem que as ciências humanas são dispêndio inútil, não percebem que sem elas, não saberemos construir a ponte para atravessar o rio que nos separa de nós mesmos: ou seja, não compreenderemos a nós mesmos”.[xi]
*Henri Acselrad é professor titular aposentado do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ).
Notas
[i] F. Arêas Peixoto. “Derivas urbanas, memória e composição literária”. Redobra, n. 13, ano 5, 2014, pp. 29-34
[ii] R. Collins, Conflict sociology: toward na explanatory science, N.York, Academica Press, 1975.
[iii] E. Saïd, Representações do intelectual, Cia. das Letras, São Paulo, 2005.
[iv] J. Gil, J. O movimento total – corpo e dança. São Paulo: Iluminuras, 2018, p. 15
[v] S. Zuboff, Big Other: Surveillance Capitalism and the Prospects of an Information Civilization, Journal of Information Technology (2015) 30, 75–89. doi:10.1057/jit.2015.5
[vi] IA: amie ou ennemie ?, entrevista de Luc Julia; 28 minutes; ARTE TV; 23/06/2025; https://www.arte.tv/fr/videos/127635-001-A/ia-amie-ou-ennemie/
[vii] A. Liesse, La statistique; ses difficultés–ses procédés, ses résultats, Paris, F. Alcan, 1927.
[viii] S. Amadeu da Silveira, Soberania e tecnodversidade, Revista Vírus, n. 30, dez. 2025; A. Lemos, Dataficação da vida, Civitas, Rev. Ciênc. Soc. 21 (2), 2021; Viktor Mayer-Schönberger, Kenneth Cukier, Big Data: A Revolution that Will Transform how We Live, Work and Think, 2013, p. 28; Dijck, José van, Thomas Poell e Martijn de Waal. 2018. The platform society; New York: Oxford University Press, 2018. p. 37.
[ix] Asma Mhalla, Technopolitique Comment la technologie fait de nous des soldats, ed. Seuil, Paris, 2024.
[x] Fast fashion é o nome dado ao padrão de produção e consumo no qual os produtos são fabricados, consumidos e descartados rapidamente pela adoção de uma rotação acelerada na diversificação dos modelos das mercadorias.
[xi] J.S. Martins, A Ciência no descaminho, Valor, 20/10/2017.






















