Janio de Freitas

Imagem: Carlos Fajardo (Jornal de Resenhas)
image_pdf

Por HENRY BURNETT*

Ler o Janio aos domingos, durante os últimos quatro anos, era um refúgio, um dos únicos motivos de seguir pagando a Folha

Eu já fiz coisas quase insanas para ler a Folha de S. Paulo. Morava num conjunto da Cohab no bairro do Coqueiro, no município de Ananindeua, colado a Belém; algo como Guarulhos em relação a São Paulo. É quase certo que eu fosse o único assinante do jornal num raio de quilômetros. Até aí tudo bem.

O problema é que a assinatura devia custar cinco vezes mais que o valor do Sudeste e o jornal, podem rir, não raro só era entregue no dia seguinte. Logo, muitas vezes lia o jornal com um atraso que, no mundo das notícias, podia ser fatal.

O motivo daquele gasto absurdo para um estudante desempregado era simples: os jornais de Belém eram contaminados pela política provinciana e eu achava que o “maior jornal do país” era isento.

Mas logo outros motivos me tornaram dependentes daquela leitura. Marcelo Coelho era meu preferido. Aquilo era jornalismo cultural do mais alto nível e não fazia diferença ler suas colunas um dia depois da publicação.

Nunca esquecerei a estreia de Arnaldo Jabor no jornal. Ele escreveu, cito de memória quase trinta anos depois, sobre o quadro de Diego Velázquez As meninas. Foi um deslumbramento. “Ler” um quadro; eu via aquilo pela primeira vez, num jornal!

Não posso sequer confirmar a informação no Acervo da Folha, porque anteontem cancelei em definitivo minha assinatura digital (teria sido bem melhor se existisse isso naquela época…). Depois de tantos anos lendo esse jornal – contra várias dicas de amigos que sempre me alertaram sobre as ambiguidades destiladas nos editoriais – fui vencido.

Quando soube da demissão do jornalista Janio de Freitas fiquei alguns minutos sem entender – de novo eu tentava entender o jornal, para dar-lhe algum crédito. Tendo publicado duas ou três colaborações e me sentido “o centro do mundo”, me sentia esgotado; já não era sem tempo.

Tentei cancelar minha assinatura a primeira vez logo depois da vitória do Lula. Curioso, Freud explica. Eu já andava sentindo a ambiguidade (?) do jornal bater no teto, mas então antes de abrir o editorial, no dia seguinte à vitória, eu pensei comigo, “a Folha vai cobrar o Lula um dia depois da apuração”. Batata, diria Nelson Rodrigues (por que lembrei dele?). Estava lá o editorial confirmando minha intuição.

Entro no chat e peço para cancelar. O atendente, pasmem, me sugere ler o Ombudsman como argumento para aceitar pagar “1,90 por três meses, depois 9,90”. Perguntei se ele estava me sugerindo manter a assinatura para ler a única coluna que criticava o jornal e a resposta foi sim. Mas eu disse que já lia, ele e Janio de Freitas, e o Marcelo Coelho, claro. Prorroguei mais um ano… (já era caso de internação, eu sei).

Mas a demissão de Janio foi demais. Lembro que ele havia sutilmente se queixado quando o jornal reduziu de duas para uma única coluna dominical sua colaboração. Ler o Janio aos domingos, durante os últimos quatro anos, era um refúgio, um dos únicos motivos de seguir pagando a Folha.

Como um jornal demite seu jornalista mais importante, cuja integridade e acuidade política servia de baliza para dezenas de jornalistas no país? Leio o motivo: contenção de gastos… pensei: não seria o caso de triplicar o salário para manter um jornalista dessa qualidade nos quadros do jornal? Se o New York Times declara voto, por que a Folha se mantém “apartidária”? Meu amigo alemão, no auge da campanha, me disse assim: “a Folha é de esquerda”. Ledo e Ivo engano, meu caro.

Acho que este texto deveria ser escrito por um jornalista, não é meu caso. Sou apenas um ex-leitor, para quem o jornal se tornou um fardo insuportável. Cancelei o recebimento da Newsletter, mas eles seguem mandando, como um castigo.

Soube que Marcelo Coelho saiu junto comigo, em respeito ao colega. Eu, que assinei o jornal muito por sua causa, me senti representado. Pensando bem, a saída dele faz acreditar que ainda resta gente íntegra neste mundo.

*Henry Burnett é crítico musical e professor de filosofia da Unifesp. Autor, entre outros livros, de Espelho musical do mundo (Editora Phi).

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
3
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
8
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
9
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
10
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
11
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
12
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
13
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
14
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
15
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES