Ken Loach: o cinema como espelho da devastação neoliberal

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Por RICARDO ANTUNES*

Se em “Eu, Daniel Blake” a máquina burocrática mata, em “Você Não Estava Aqui” é o algoritmo que destrói a família: eis o retrato implacável do capitalismo contemporâneo

Escrevo as primeiras notas deste artigo recorrendo à memória, uma vez que me encontro em atividade no exterior e, por uma coincidência especial, acabo de presenciar uma cena tão inimaginável, quanto memorável.

Como faço há muitos anos, no início de novembro deste ano, participei de uma Conferência Internacional realizada na Universidade de Londres, cujo objetivo central de discutir as questões cruciais do nosso tempo.[i]

Mas não foi essa a surpresa, que teve outra motivação. Durante a referida atividade, soube que o grande cineasta Ken Loach receberia o título de Doutor Honoris Causa, em 11 de novembro, concedido pela Universidade de Bolonha (Itália) e que, por conta da idade de Loach (89 anos), a honraria lhe seria entregue pessoalmente no Kings College, em Londres. Foi esse presente que me permitiu conhecer essa figura tão especial.

Seria impossível, no espaço deste artigo, tratar de sua monumental produção. Só para efeito de ilustração, vamos aqui recordar dois de seus filmes que, pela força e vigor, oferecem uma fotografia viva da vida cotidiana no trabalho no mundo atual.  

Começo por Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016), que se tornou exemplo do drama social gerado pela devastação neoliberal. Ela traz a história trágica de um trabalhador idoso e talvez seja a sua película mais emblemática do significado profundamente destrutivo do capitalismo contemporâneo em relação ao trabalho e à subjetividade humana.

O principal personagem do filme, Daniel Blake, depois de várias décadas de dedicação ao labor, na hora de cuidar de sua saúde, por conta dos adoecimentos e padecimentos que macularam a sua vida no trabalho, viu desvanecer a possibilidade de cuidar-de-si.

Foi assim que, já idoso, o personagem embrenhou-se em uma busca inglória por um tratamento. E o horror começa quando se defronta com uma máquina digital programada para dificultar, ao invés de beneficiar, particularmente em relação aos trabalhadores idosos.

O desfecho da película não poderia ser outro: a tragédia lhe custou a própria vida. Filme britânico, mas profundamente global, nele florescem, junto com as tantas mazelas e infortúnios, também as múltiplas formas de solidariedade, presente na luta da amiga-companheira do personagem e de tantos companheiros que se comoveram com sua batalha de desfecho inglório.

Outro estonteante filme de Ken Loach, encontramos em uma das suas obras mais recentes: Você Não Estava Aqui (Sorry We Missed You, 2019) mergulhou profundamente nas tantas mazelas que configuram o trabalho em plataformas, que se expande celeremente pelo mundo.

Em poucas palavras: seu filme trata de uma família, cujo trabalhador se tornou uberizado (entregas de e-commerce) e cuja mulher, trabalhadora também plataformizada, atuava no trabalho do care, dos cuidados. Ambos tinham um filho, jovem estudante, que foi vendo, pouco a pouco, desvanecer o feliz núcleo microcósmico familiar, corroído indelevelmente pelo flagelo das condições do trabalho em plataforma.

Há cenas emblemáticas já nos primeiros minutos do filme: por exemplo, quando o trabalhador ingressou felizardo na plataforma, sendo que sua primeira decisão foi adquirir, imbuído pelo novo “espírito empreendedor”, um automóvel próprio, financiado, imaginando um futuro próspero em sua nova fase. O resultado se mostrou desastroso…

A segunda cena simbólica está estampada no diálogo entre o gestor da empresa de e-commerce, que orienta o novo “empreendedor” (em verdade, um potencial candidato a assalariado ultra precarizado) a levar consigo uma garrafa pet vazia, em seu veículo. O que o fez indagar algo assim: mas por que devo levar uma garrafa vazia?” O gerente, duro e rústico, foi muito direto ao dizer que em breve ele compreenderia a utilidade.

Não foram necessárias sequer algumas horas para que o trabalhador entendesse quão vital era aquela garrafa em seu labor cotidiano. Dado o ritmo extenuante desse tipo de trabalho, sob comando turbinado dos algorítmicos, logo iria aflorar a absoluta urgência: nesta modalidade “moderna” de trabalho, não há nem local e nem tempo para urinar…. Como não há nem tempo e nem espaço para se alimentar, repousar, tomar banho, isto é, aquilo que é basilar para a humanidade, mas é tolhido para o trabalhador uberizado.

Foi assim que, em pouco tempo, a vida do personagem foi se destruindo e, junto com ele, a sociabilidade familiar. A companheira, trabalhadora dos cuidados, teve que vender o seu automóvel para pagar as dívidas do marido e viu evaporar o transporte que lhe era imprescindível para realizar seus múltiplos atendimentos. 

E, se isso não bastasse, nesta modalidade de trabalho completamente desprovida de direitos[ii], o filho do casal, ao vivenciar o terrível drama dos pais, acaba por se rebelar e vê soçobrar os laços de solidariedade e de afeto anteriormente existentes entre os membros da família.

Dos tantos filmes de Ken Loach, esse foi um dos mais duros, como se constata em sua cena final, quando afloram o isolamento, o desespero e a desesperança.

Mas solidariedade, vida coletiva, esperança, a luta por um outro mundo, isso é o que não falta na monumental obra fílmica de Loach. Desde a ação solidária que transborda, por exemplo, em Pão e Rosa (Bread and Roses, 2000), uma greve das mulheres trabalhadoras imigrantes, contra as precárias condições de trabalho. Ou em Terra e Liberdade (“Land and Freedom”, 1995), sobre a Guerra Civil Espanhola; bem como no documentário The Flickering Flame, de 1996, ao estampar a luta e a solidariedade na Greve dos Portuários ingleses, que foram derrotados pelo “trabalhista” Tony Blair (que nos Reino Unido era conhecido na esquerda como Tory Blair), dentre tantos outros filmes que marcam sua obra.[iii]  

Ken Loach é, então, para muitos, em todo o mundo, o maior gênio vivo do drama social contemporâneo.

*Ricardo Antunes é professor titular de sociologia na Unicamp. Autor, entre outros livros, de O capitalismo pandêmico (Boitempo). [https://amzn.to/3L0RnFO]

Publicado originalmente no Jornal da Unicamp.

Notas


[i]Trata-se da 22a. HM Conference (Historical Materialism Conference), realizada na School of Oriental and African Studies (SOAS) que contou com quase 1500 pesquisadores e estudiosos oriundos de todos os quadrantes do mundo. E essa Conferência – o HM RIO – ocorrerá pela primeira vez no Brasil (e na América Latina) em 15,16 e 17 de julho de 2026 na UFRJ.  

[ii]  Ver Direitos de Verdade – Essa história também é sobre você, Boitempo, 2025, distribuição gratuita, resultado do Convênio entre o MPT-15 e  o Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses (GPMT-IFCH),  em https://direitosdeverdade.com/

[iii]  Um estudo qualificado sobre parte da obra de Ken Loach encontra-se em Medina, Cintia, A trágica racionalidade do capital no cinema de Ken Loach, Tese de Doutorado em História Social, USP, 2023.

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