Por LICIO CAETANO DO REGO MONTEIRO*
Do Estácio à Sapucaí, o encontro entre Ciça e Rosa mostra que a escola de samba educa o corpo, a imaginação e a memória coletiva
1.
E no meio de tantas formas de fazer Carnaval que existiam nos anos 20 do Rio de Janeiro, um compositor do bairro do Estácio de Sá[i] chamado Ismael Silva resolveu dar o nome de escola de samba a uma nova maneira de juntar gente para tocar, cantar e sambar pelas ruas da cidade. Ranchos, cordões, blocos, préstitos e grandes sociedades já tinham seus espaços, mas a escola de samba chegou e em pouco tempo ganhou a cena principal.
O nome “escola” traz uma ideia de que, para além da folia, ali seja um lugar de transmissão de conhecimentos. Quando carnaval e samba eram caso de polícia para a população pobre, predominantemente negra, do Centro do Rio, o novo nome dava um resguardo aos elegantes sambistas que contornaram a Praça Onze nos primeiros desfiles.
Alguns anos depois, Paulo da Portela, com o epíteto de “professor”, apresentou o primeiro enredo de samba, distribuindo diplomas diante de um quadro negro cantando o Teste ao Samba, desfile campeão de 1939. Passado um século do big bang no Estácio, vimos em 2026 passar na avenida algo sobre o significado extraordinário que a palavra “escola”, escolhida para nomear esta manifestação cultural, pode conferir a mestres e mestras exaltados numa avenida.

Entre as inúmeras e belíssimas homenagens ocorridas neste ano, duas figuras se sobressaem pela importância recente no Carnaval carioca. Mestre Ciça – “mestre dos mestres” de quem herdamos o tambor, como diz a letra da Viradouro – e a professora Rosa Magalhães – a “meeestraa” que “nos fez amar a feeeesta”, tal como no refrão do Salgueiro. Os dois desfiles foram marcados pelo reconhecimento da grandeza de suas obras e o agradecimento pelas lições aprendidas em décadas de entrega ao Carnaval.
Personalidades tão distintas em suas formações, quase como antítipos ideais um do outro, mas que se complementam perfeitamente na festa, certamente se encontrariam em algum lugar entre o céu e a terra para dar umas baforadas – embora Ciça tenha prometido parar de fumar se fosse campeão.
2.
Ciça é o ritmista, mestre de bateria, cria do Morro de São Carlos, que começa como passista e logo descobre a habilidade com os instrumentos e sua virtuosidade rítmica. Na escola de samba Estácio de Sá inicia sua história no final dos anos 1980. É ele o mestre que rege a bateria campeã no único título da escola, em 1992. No desfile em sua homenagem, vimos a criança encantada com o samba dançar e assumir o apito, símbolo do mestre. O filhote de leão aparece logo em seguida, observado por sambistas e compositores originários do Estácio, e vira um leão adulto conduzindo os tambores empilhados à luz de uma sorridente lua prateada (referência à dança da lua, enredo da Estácio, de 1993).

Rosa Magalhães é a carnavalesca, figura acolhedora como uma avó sábia, envolta em livros e fumaça. A professora que domina os croquis é filha da Escola de Belas Artes da UFRJ e da revolução salgueirense que transformou as escolas de samba em academia. Desde sempre as escolas tiveram fantasias e elementos visuais presentes, mas a estética carnavalesca passa por transformações significativas a partir do encontro com artistas acadêmicos nos anos 1960.
Rosa Magalhães é uma entre estes artistas, aluna da academia do Salgueiro, que logo será conhecida como a “professora”. Seus mestres Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues foram por ela homenageados quando ela assinou desfiles na São Clemente e na Imperatriz.
Para Rosa Magalhães, o Carnaval começava com o livro, vários livros espalhados, onde buscava referências históricas e artísticas para construir seus enredos. Por conta disso, o livro é o elemento cênico escolhido por seu discípulo Jorge Silveira para conduzir todo o enredo do Salgueiro. Logo na comissão de frente, os livros se abrem para fazer saltar de sua imaginação as ideias e concepções que guiam uma maneira peculiar de apresentar o mundo pela visualidade de suas fantasias e alegorias.
Mestre Ciça e Rosa Magalhães partem de linguagens e gramáticas totalmente diferentes. Cada um traz consigo formas muito próprias de transmissão do conhecimento. Uma bateria com centenas de ritmistas é um processo permanente de troca de informações que não se dá pela verbalização, mas pela educação dos ouvidos, dos movimentos do corpo, da percepção e dos sentidos, quando é preciso entrar em uníssono, preencher os silêncios, intuir o ritmo para além do pensar.
Rosa Magalhães rege outra orquestra no barracão da escola: desenhistas, pintores, escultores, figurinistas, aderecistas, costureiras. Mas também elabora os enredos para inspirarem músicos, poetas e compositores. E vez por outra precisou adaptar o enredo em favor do samba – afinal, ela dizia, o nome era escola de samba, e não escola de fantasia ou de adereço.
3.
Mestre Ciça atingiu a excelência em seu ofício, é um dos maiores mestres em atividades, um dos maiores da história. E, como tal, deveria ter sido especulado como enredo como qualquer expoente da virtuosidade humana que já foi cantado na avenida. Sua escolha, no entanto, soou como algo diferente, extraordinário, para logo colocar a todos diante da constatação de que não só era possível, mas evidentemente necessário.
O vídeo de apresentação do enredo na quadra da escola dialogou com o estranhamento e a obviedade da escolha. A escola abraçou o enredo, literalmente, numa cena emocionante. Meses depois, o resultado foi o que vimos chegar à apoteose na segunda-feira do Carnaval de 2026.
Rosa Magalhães é uma das mais importantes artistas plásticas da história do Brasil. E isto só não é uma afirmação banal porque o principal espaço de exposição de sua arte foi a escola de samba. Para que a afirmação inicial seja dita sem estranheza, é necessário reconhecer que a avenida Marquês de Sapucaí, o sambódromo do Rio de Janeiro, é um espaço comparável ao que seria uma galeria de arte da alta cultura internacional, para onde afluem todo ano centenas de milhares de pessoas do Brasil e do mundo para ver obras originais, que, como tantas na arte contemporânea, não se limitam pela durabilidade e fixidez conferidas às obras dispostas nas coleções de museus. O asfalto da avenida é passarela e tela de uma arte que mostra o “Brasil em forma de aquarela”, como diz o samba clássico de Silas de Oliveira.
A criança Ciça na Viradouro é aquela que descobre os tambores, se aproxima do leão – símbolo da Estácio –, sonha junto à lua no alto do morro formado pelos instrumentos. A Viradouro, embora nascida em 1947, disputava os carnavais em Niterói e só vem para o Rio na década de 1980, chegando no grupo especial em 1991, próximo ao momento auge da sua co-irmã Estácio.
Aquela escola niteroiense iniciante na Sapucaí viria a se tornar campeã poucos anos depois, assumindo lugar de destaque entre as principais, ao mesmo tempo em que a Estácio vai, pouco a pouco, deixando de frequentar o grupo especial. O carnaval da Viradouro de 1992 foi marcado por um incêndio que lambeu um carro alegórico inteiro, sem vítimas fatais. Este fatídico ano, no entanto, é lembrado a partir da memória do grande sucesso que foi o desfile da Estácio, cuja bateria Mestre Ciça regeu.
A alegoria do trem caipira – expoente do enredo original, sobre os setenta anos da Semana de Arte Moderna – foi trazida na avenida em 2026, guiado pela escultura de Dominguinhos do Estácio, intérprete que viria a cantar pela Viradouro anos depois de ser campeão com o seu “me dê, me dá”, tornando-se um dos elos de conexão entre as duas escolas vermelho-e-brancas. Ciça viria a ser um outro elo. Em 1992, a Viradouro era aquela criança olhando e aprendendo com o “velho Estácio”, como o encontro entre Ciça criança e Ciça Mestre, que ocorre de forma surpreendente na comissão de frente.

A criança no Salgueiro não é a Rosa, mas são aqueles que aprenderam com ela redescobrindo o mundo a partir das visões que ela proporcionou ao colocar sua arte na avenida. O samba fala: “ao visitar meus sonhos de faz de conta, me desenhei criança, voltei a ser feliz”. O encontro com a arte ocorre principalmente pela imaginação, pela possibilidade de ver outros mundos e recontar as histórias, a partir do acervo artístico e histórico trazido por Rosa Magalhães.
Do livro saltam “personagens, barrocas imagens e nobres lembranças”. Essa criança estática e extasiada diante das fantasias e alegorias não precisa sair do lugar para navegar. E nem precisa ser criança, pois a cada vez que assistimos a um desfile, restituímos o deslumbramento do primeiro carnaval que nos capturou na infância.

Assim, a escola de samba se coloca, para as duas crianças, como lugar de educação dos sentidos. Entre o olhar e o pulsar, entre o visível e o invisível, o material e a imaginação, encontramos uma dualidade que é constitutiva da arte e, por que não, da vida. Uma obra de arte pode ser apreciada, ouvida, assistida, lida, observada. Mas uma escola de samba atravessa todas as avenidas do nosso ser.
4.
Aqui uma pausa para compartilhar meu próprio olhar infantil. Apesar da vaga lembrança de carnavais anteriores a 1992, foi este carnaval que me recordo de ter sido o primeiro a acompanhar, ainda não tinha feito oito anos de idade. Ganhei a fita K7 das escolas, aprendi todos os sambas, lia o suplemento do jornal e assisti na TV os desfiles. A primeira vez que fui ao sambódromo foi para acompanhar a apuração de 1992, com meu pai, que torcia pela Estácio.
Não imaginava que seria possível tirar o tricampeonato da badalada Mocidade, mas a catarse nas arquibancadas cantando “me dê, me dá” e os gritos de “é campeã” prenunciavam a vitória improvável da Estácio. Da apuração fomos à quadra lotada comemorar. No ano seguinte, acompanhei pela TV a avenida explodir o coração com o Salgueiro. E para mim, até aquele momento, escola de samba era aquilo, arquibancadas em transe antecipando a campeã do ano. Só depois aprendi que foram dois momentos atípicos que nunca se repetiram.

Em 1994, descobri a existência do tal “desfile técnico”, que poderia ser campeão acertando todos os quesitos sem arrebatar. Com essa surpresa, Rosa Magalhães surgiu para mim no carnaval, comandando uma escola perfeitinha da Leopoldina que desfilou por último no domingo e tirou o bicampeonato do Salgueiro, sob enérgicos protestos de um bicheiro na apuração.
Dali em diante, a antipatia inicial foi sendo vencida por desfiles deslumbrantes nos cinco títulos da Imperatriz de Rosa Magalhães entre 1994 e 2001, cujas imagens inesquecíveis, como a comissão de leques de 1994, foram trazidas de volta pelo Salgueiro. No meio disso, a Viradouro ganhou seu primeiro título em 1997, mesmo ano em que a Estácio foi rebaixada – nos altos e baixos da Sapucaí, cinco anos antes a Estácio era campeã e a Viradouro sofria com o incêndio. Coincidências à parte, em 2026, Viradouro e Estácio entraram juntas para contar Ciça. E o Salgueiro levou a coroa[ii] leopoldinense que o derrotou em 1994.

O apito e o livro nos enredos de Ciça e Rosa simbolizam diferentes linguagens e fontes de saber. Ciça domina aquilo que Simas chamou de gramática dos tambores. “Quando o apito ressoa parece magia”, diz a letra. Os objetos se comunicam, perguntam e respondem, mediados pelas mãos humanas, conectados por olhares e vibrações, num fazer que pensa através do corpo. Os tambores falam outra língua, que muitas vezes complementa o que está sendo verbalizado, mas pode também falar diferente. Fico imaginando o que vê e o que ouve um mestre de bateria a partir de seu posto diante de centenas de pessoas.

O lugar da bateria é no chão, começa antes de todos e termina depois. Quando a parte visual adentra a avenida, os tambores já estão vibrando, como o som original. Assim pode ser dito também da história das escolas de samba. Bumbum praticundum prugurundum… foi a onomatopeia inventada por Ismael Silva para explicar como o samba-marcha do Estácio na avenida deveria ser diferente do samba do terreiro, da roda ou do salão. É também o enredo do primeiro título de Rosa Magalhães, o último do Império Serrano, em 1982.
O paradigma do Estácio surgia modificando o ritmo predominante do samba, o samba amaxixado, o paradigma do tresillo, como aponta Carlos Sandroni. O espaço urbano carioca estava em ebulição, se abria em praças e avenidas e derrubava cortiços e becos para lançar os negros e pobres da cidade para um pouco mais longe, espraiando “pequenas áfricas” em plena capital. O Estácio é lá “onde o samba fez berço”. E, do morro de São Carlos, um menino “orgulha Ismael, bicho novo forjado nas garras do velho Leão” – é o que diz um dos trechos da letra.

5.
Esta superposição simbólica entre Ciça, a escola de samba Estácio de Sá, o bairro do Estácio de Sá e a origem do ritmo tocado nas escolas de samba tece um dos enredos mais complexos e emocionantes que já vi passar na avenida. A genialidade está em fazer parecer da biografia de uma personalidade como Ciça aquilo que em várias camadas é a biografia do próprio samba em suas escolas.
Acopla-se à jornada do herói Ciça, uma pessoa de carne e, principalmente, osso – não à toa é apelidado de Caveira – a jornada do samba das escolas. De corpo presente, vivo, sambando e regendo, Ciça corporifica o próprio samba. A bateria sai do chão e sobe o tapete vermelho, levando para a cena principal aquilo que parecia relegado ao invisível do som. O carnavalesco Tarcísio Zanon e o enredista João Gustavo Mello assinam a proeza da Viradouro em 2026.
Rosa Magalhães abre os livros de sua biblioteca real e imaginária de onde extrai ideias que materializa em desenhos, formas, cores, texturas, volumes, movimentos. Também aqui elementos não-humanos se comunicam, interagem, dialogam, formando sentidos, saltando do papel para o barracão e logo para a avenida, para serem vistos ao vivo ou transmitidos nas telas.
No desfile do Salgueiro, essas figuras e objetos saltaram do passado ao presente, recombinados esteticamente pelo carnavalesco Jorge Silveira, a partir de uma pesquisa intensiva realizada com o enredista Leo Antan. Rosa, que foi professora na UFRJ, possui um acervo guardado e organizado na UERJ, algo raro, pois grande parte do que já se produziu no carnaval carioca não tem espaços institucionais de memória e preservação.

As escolas de samba são formadas pelo encontro de inúmeros artistas e pessoas comuns, foliões, componentes, comunidades. Mas imaginemos o que pode surgir do encontro da criação desses dois personagens, Ciça e Rosa, ritmos e imagens. Este encontro aconteceu no final dos anos 1980. Ciça, então ritmista da Estácio, se torna mestre de bateria quando Rosa Magalhães está à frente da escola como carnavalesca, em 1989.
O tititi do sapoti da Estácio de 1987 estava no samba do Salgueiro e no esquenta da Viradouro. A avenida proporciona mais um encontro entre passado, presente e futuro. Ambos os sambas apontavam ao acontecimento futuro que se materializaria no desfile: discípulos de inúmeras escolas exaltando o mestre e a mestra num carro alegórico, felizes pela oportunidade de agradecerem às pessoas com as quais aprenderam.
6.
Observando os enredos em relação uns com os outros é possível notar um pano de fundo comum, certo inconsciente coletivo, sobre o qual as escolas desdobram o quesito, dialogando com enredos do passado, mas também se interferindo mutuamente no presente, seja por identidade ou por contraste. De tudo o que passou neste ano, um fio condutor comum a vários deles foi a transmissão de conhecimentos entre gerações e o reconhecimento da aprendizagem.
Não só por conta de Ciça e Rosa, que trouxeram o potência da metanarrativa carnavalesca ao falar sobre a transmissão dos saberes nas escolas de samba, mas é o que vimos em outras imagens e letras de samba, como a de Carolina Maria de Jesus com seu avô, preto velho com quem aprendeu os mistérios, ou na mensagem de Dona Lindu a seu filho Lula, constatando que o legado dele era o espelho de suas lições, ou nos conhecimentos que o doutor da floresta apreendeu macerando e defumando folhas, cascas e ervas para engarrafar a cura.
Mestre, mestra, professor, doutor, aluno, lição, legado, Freire, ensinar e aprender, palavras que apareceram nos sambas de 2026 nos lembram por que a isto chamam de “escola” e falam algo sobre a transmissão dos saberes nos dias de hoje.

No bairro do Estácio havia a Escola Normal, dali saiam os professores para as diversas escolas do Rio. Ismael capturou o sentido ao dizer que eles, os sambistas do Estácio, eram os “professores”, que levariam o samba aos demais lugares da cidade. E de fato foi o que ocorreu, de forma muito rápida. No início do século XX, a maior parte da população negra carioca não tivera acesso à escola formal.
Mas foram eles que criaram as escolas de samba no Rio de Janeiro. Ao criarem um lugar próprio, as escolas de samba inventaram uma forma original de passar adiante diferentes saberes através da festa, modos de olhar o mundo e contar histórias. Fizeram escola, num sentido mais amplo.
A escola, que excluía uma grande parte da população e de seus saberes, estava no horizonte do desejo dessas pessoas, mas a invenção e a conquista desta outra escola, a de samba, produz um espaço coletivo de reconstrução de memórias e transmissão de conhecimentos, sem alunos e professores formais, mas onde se ensina e se aprende a todo momento, onde os mestres e mestras são reconhecidos e lembrados por provas e títulos muito diferentes dos convencionais.
A escola formal e as escolas de samba, como tantas outras escolas da rua, dos morros e dos espaços outros de produção e transmissão de conhecimento, seguiram em permanente tensão. O encontro de Mestre Ciça e Rosa Magalhães demonstram a possibilidade da existência de espaços onde a academia e as ruas podem encontrar outros modos de se relacionar.
7.
Em 2025, a Mocidade se perguntava “Será que há de ter carnaval sem minha cadência? / Com alas em tom digital, no fim da existência”, versos que me remeteram à Máquina de ritmo, de Gilberto Gil: “Será por exemplo
/ Que o meu surdo ficará mudo afinal? / Pendurado como um dinossauro / No museu do Carnaval (…) Máquina de Ritmo / Programação de sons sequenciais / Mais de 100 milhões de bambas / De escolas de samba virtuais (…) Máquina de Ritmo / Processo de algoritmos padrões / Múltiplos binários e ternários / quaternários sem paixões”.
No samba-enredo da Mocidade e no samba de Gilberto Gil, o fim da existência não é a morte do sambista. Desde Nelson Cavaquinho sabemos que o pranto de poeta é diferente. Os sambistas vivem na lembrança, como Laíla e Rosa, como as folhas secas do samba de Mangueira. O surdo que emudece no samba de Gil é a máquina de algoritmos padrões que substitui o tempo e as relações humanas constitutivas dos saberes e artes que passam de pessoa para pessoa, gente para gente, de carne e osso, como Rosa Magalhães e Mestre Ciça.

Numa entrevista, Ciça disse que ao ser escolhido como enredo pensou que iria morrer. Ao ouvir pela primeira vez o samba da Viradouro, na voz do Wander Pires, também fiquei com essa sensação de que ele fosse morrer. O samba brinca com a vida e a morte, na figura do Caveira, na referência ao Estácio Holliday de Luiz Melodia na letra ao dizer “se eu for morrer de amor, que seja no samba”, e depois “não esperamos a saudade pra cantar”.
De certa forma, a Viradouro mandou “fazer de puro aço luminoso” uma bateria inteira para matar de amor o seu mestre e matou, na avenida, recordando e agradecendo em vida ao Ciça – o que a Beija Flor não pôde fazer a Laíla – que na sua experiência de delírio pôde rever sua vida sem o inconveniente desnecessário de ter que morrer fisicamente para tal. Ciça pode dizer “eu vi!” – a frase que inicia os sambas da Viradouro de 2026 e da Estácio de 1992, um requinte isso de colocarem a Estácio no início tanto no samba quanto na avenida.
O coração pulsando no último carro da Viradouro, preenchido unicamente de gente batucando seus instrumentos, ritmistas que subiram o tapete vermelho para reverenciar Ciça, nos lembra a humanidade que ainda pulsa no que podemos aprender uns com os outros. Responde à Mocidade e a Gil: não haverá carnaval sem sua cadência, o surdo não ficará mudo afinal. “Num furacão que nunca vai ter fim / Nossa história não encontra despedida”.
Muito além de artificialidades que bloqueiam os caminhos mentais da aprendizagem, os livros abertos de Rosa Magalhães, com seus croquis mágicos que ganhavam vida, na comissão de frente do Salgueiro, exaltavam a inventividade humana. Assim também as outras escolas fizeram com a escrita de Carolina, os pinceis de Heitor, as batidas de Chico, as ervas de Sacaca, os gestos de Rita, os olhares de Ney, as engrenagens de Lula, as adivinhações do Ifá, os terreiros de Santo Amaro, o batuque de Custódio.

Ao lado dos mestres que formaram Mestre Ciça e Rosa Magalhães, os seus discípulos felizes e emocionados ao final dos desfiles da Viradouro e do Salgueiro têm a oportunidade de expressar sua gratidão, mostrar o que aprenderam, seja na condução musical, seja na construção narrativa e visual dos enredos. São cenas que revitalizam nossa crença em que há algo demasiadamente humano na aprendizagem que só o tempo e o convívio podem trazer.
A cada geração temos que descobrir ou inventar como passar adiante saberes e valores, com a multiplicidade de meios à nossa disposição. A gente não tão secreta das escolas de samba inventou uma forma extremamente sofisticada de o fazer. E entre tantos homenageados, neste ano da pirraça, o destino-professor concedeu a vitória ao mestre batuqueiro do Estácio de Sá regendo a Viradouro.
*Licio Caetano do Rego Monteiro é professor do Departamento de Geografia da UFRJ.
Notas


[i] O Estácio de Sá, no masculino, é o bairro onde surge a primeira escola de samba, chamada de Deixa Falar, que tem vida curta. Posteriormente, surge em 1955, no morro de São Carlos, próximo ao bairro do Estácio, a Unidos de São Carlos, que assume o nome de Estácio de Sá em 1983, assumindo a descendência da primeira escola. A Estácio de Sá, no feminino, se refere então à escola.
[ii] A coroa no desfile não representava somente a Imperatriz Leopoldinense, mas também o Império Serrano e a Unidos da Vila Isabel, que também têm a coroa como símbolo, homenageando as três escolas em que Rosa Magalhães foi campeã.






















