Não, tapa na cara não pode (nunca)

Imagem: Martins Krastins

Por JULIAN RODRIGUES*

Pior do que a agressão perpetrada por Will Smith é certa onda de normalização da violência

Noite de domingo, 28 de março – dividindo a atenção entre a cerimônia do Oscar e o BBB. De repente, meu marido veio me chamar a atenção. O Will Smith acabara de subir ao palco do Oscar e meter um tapão na cara do Chris Rock, que ancorava a apresentação naquele momento.

Teria sido uma reação indignada contra piada ofensiva de Chris Rock relacionada à calvície de Jada Smith, esposa do astro Will – que todos aprendemos a amar desde Um maluco no pedaço (The Fresh Prince of Bel Air).

Jada, com um belíssimo vestido verde, brilhava na plateia. Como sofre de alopecia, a atriz optou pelo visual cabeça totalmente raspada: digna, empoderada, radiante.

Em certo momento, Chris Rock apresentava a premiação e brincou dizendo que Jada estava careca para poder estrelar G. I. Jane 2, em uma referência ao que seria uma sequência do filme Até o limite da honra, que em inglês tem o título de G. I. Jane. Na obra, Demi Moore, sem cabelos, interpreta a protagonista.

Uma piada fraca, com certeza. De mau gosto, mesmo. Até aí, faz parte. O que tem de piada ruim e constrangedora circulando… O que não faz parte é a reação de Smith. Não, gente, não pode. Não é bacana. Não é cavalheirismo. Não é legítimo.

Em primeiro lugar: nenhuma agressão física pode ser tolerada nesse tipo de situação. Não estamos falando de autodefesa, de batalha contra fascistas, nada do tipo. Vi muita gente boa delirar por esse caminho.

Em segundo lugar: piadas de bom, e sobretudo de mau gosto são recorrentes, sobretudo no tipo de humor hegemônico nos EUA – que, aliás, tem influenciado sobremaneira os estandapeiros e novos humoristas aqui no Brasil.

Se relativizarmos a violência física, abrimos um flanco terrível. De novo: não estamos falando nem de autodefesa nem de processos revolucionários. O direito de dar porrada em quem eu não gosto não é um direito. É coisa da direita, dos bolsonaristas, reaças, dos neofascistas, machistas e racistas mundo afora.

Mais grave ainda é o aspecto sexista. Quer dizer que Jada é uma indefesa mocinha que precisa de ser protegida pelo macho alfa? Não pode falar ou reagir por si mesma?

Parece aquela argumentação arcaica para livrar a cara de homens assassinos, que teriam agido “em legítima defesa da honra”. Da honra deles, quando matavam as esposas, ou da honra delas, quando matavam os supostos “amantes”. Tentar “passar pano” pra Will Smith é reforçar a hegemonia da masculinidade tóxica. É quase uma celebração da figura do ogro, do macho primitivo, reprodutor e provedor, demarcador de território, protetor das fêmeas e de suas crias. Um troço tosco – totalmente incompatível com os avanços feministas, igualitários, progressistas.

Não normalizem a violência. Não normalizem as agressões físicas.

Resumindo: Chris Rock fez só uma piada ruim (como tantas outras, ele é bem fraco mesmo); Jade Smith não é vítima e não precisa de heróis para salvá-la do dragão; Will Smith foi um babaca escroto e machista; agressão física nunca é legal, coleguinhas, nunca!

*Julian Rodrigues, professor e jornalista, é ativista LGBTI e de Direitos Humanos.