O paradoxo imanente do social

George Grosz, O Eclipse do Sol, 1926.

Por LUCAS POHL & SAMO TOMSIC*

As tendências antissociais do capital, onde o mais-valor se define pela inutilidade

Neste início, pode valer a pena recordar a ocasional “definição” de gozo de Lacan, que condensa as várias complicações em jogo ao nível da pulsão e de sua satisfação: “gozo é o que não serve para nada”, ne sert a rien. Em outras palavras, o gozo não contribui em nada para a satisfação das necessidades e não tem utilidade ou propósito, exceto ele mesmo.

Entendida desta forma, gozo significa “prazer pelo prazer” – e o termo “mais-gozar”, que Lacan cunhou tendo por referência o mais-valor de Marx, pretende elevar ao nível de conceito o afastamento do gozo em relação à utilidade. Da mesma forma, segundo Marx, o mais-valor aponta para uma característica essencial do capitalismo, a organização da produção em torno do imperativo do crescimento perpétuo e do aumento do valor, ou seja, em torno da “produção pela produção”. Voltaremos a essa caracterização crucial mais adiante.

O mais-gozar, portanto, representa o gozo caracterizado por sua inutilidade. “Gozo é desperdício”, como afirma Alenka Zupancic. Essa característica diz respeito especificamente ao modo de gozo capitalista.[i] Mas então, o que isso diz sobre o vínculo social capitalista? Freud já chamava atenção para o caráter libidinal das relações sociais, ou seja, em outras palavras, afirmava que essas relações devem ser consideradas como vínculos libidinais.[ii] Visto pelas lentes da teoria das pulsões, o social imediatamente se mostra dividido internamente entre a consistência e a dissolução. O par Eros e pulsão da morte contém uma tensão.

Sob a forma de Eros, a pulsão forma, supostamente, elos entre os homens e, nesse sentido, contribui ativamente para a constituição e reprodução dos laços sociais. Essa “socialização” da pulsão permite a Freud afirmar que Eros é “o preservador da vida” já que “mantém tudo junto no mundo” ao impor a externalização da libido narcísica, voltada para si mesma. Mas seria errado ver em Eros uma agência de equilíbrio, uma vez que Freud introduziu a pulsão de morte precisamente como a força libidinal que tende à reposição do equilíbrio último, que é o estado inanimado. Eros surge assim como uma força que luta pela preservação do desequilíbrio que é modo de ser da vida. Pode unir “tudo no mundo”, mas ao preço de sustentar o desequilíbrio. Do ponto de vista da pulsão de morte, esse vínculo libidinal instável tende à sua própria dissolução.

Freud acreditava que, devido a essa contradição interna do social/libidinal, fazia sentido manter a duplicidade das pulsões. O retorno de Lacan a Freud deslocou notoriamente o acento na cisão imanente da pulsão, segundo a qual Eros e a pulsão de morte são duas faces de uma mesma força. Sugere, assim, que o vínculo social também deve ser pensado em sua tendência imanente à dissolução. A pulsão de morte consiste numa dimensão específica de Eros, a sua negação determinada, o tiro pela culatra da preservação da vida. Ou melhor, o contrário da preservação da vida inerente à pulsão erótica, independentemente das barreiras individuais. Além disso, a pulsão de morte nomeia a força antissocial contida nos vínculos sociais, um paradoxo imanente do social.

A homologia do mais-gozar de Lacan e do mais-valor de Marx sugere que o mais-valor – entendido como uma fruição do sistema capitalista[iii] – também é inútil. E, assim como o mais-gozar, o mais-valor é também um produto não social da produção social. A discussão de Marx sobre a mudança no status do modo de acumulação da pré-modernidade (a figura do avarento) para a modernidade (a figura do capitalista) aborda essa complicação. A principal conquista do capitalismo consistiu na externalização da pulsão de acumulação.

E essa externalização restringiu a ganância ou mania individual, as quais são características dos modos de produção pré-capitalistas. Nesses modos de produção, a pulsão tinha o caráter de uma força finita, dependente da “personificação” do avarento e de seu tesouro. O capital, por sua vez, supera as fronteiras do tesouro e representa a liberação do potencial criativo do valor em toda a sua abstração (Marx ocasionalmente fala do Zeugungskraft do dinheiro, força procriadora, que é precisamente ilimitada).

Além disso, o sucesso do capitalismo consistiu em fundar todo um modo de produção social na relação entre destruição e crescimento, dois aspectos de uma mesma inutilidade: o mais-valor só pode ser extraído dos recursos naturais sob a condição de destruição ambiental; e só pode ser extraído dos corpos vivos sob a condição de seu consumo e exaustão, portanto, novamente, de sua destruição. Embora pareça que o capitalismo embutido no social seja algo que pareça antissocial tal como no caso do avarento, ele na verdade libertou o antissocial, totalizando uma ordem social e econômica, em que o social é uma extensão do antissocial (assim como para Freud, o princípio de realidade é uma extensão do princípio do prazer).

Sustentando o impulso de autovalorização do capital, o mais-valor está posto como objeto por meio do qual o social é convertido em antissocial. Marx mirou na tendência não-social do impulso do capital, quando descreveu a produção capitalista como “produção pela produção”[iv], uma produção autossuficiente que não se orienta por uma finalidade social externa. Repetindo, se o mais-valor é o gozo do sistema capitalista, então isso implica que o objetivo da produção capitalista é a expansão da inutilidade e a dissolução progressiva do social através do associal.

O objetivo principal da superprodução é a satisfação do impulso sistêmico de valorização do valor. Se algo como a satisfação das necessidades humanas e a preservação da vida ainda ocorre no processo de valorização, trata-se de algo meramente complementar; de nenhum modo, consiste em algo que decorre das tendências imanentes do capital. No final, a perseverança do capitalismo em manter os “negócios como de costume”, mesmo na época de colapso climático acelerado e da destruição sistêmica das condições de vida, apenas adicionalmente demonstra que o desenvolvimento lógico do capitalismo passa do social ao associal. O colapso do clima aparece então como o produto excedente final do capitalismo, o equivalente à sua busca desastrosa pela inutilidade sob o disfarce de aumento perpétuo do lucro e do crescimento econômico.

Ironicamente – e antecipando em sua obra, além disso, o liberalismo e o neoliberalismo do século XX na busca de legitimação que consiste em dar um papel social para o egoísmo –, Adam Smith intuiu a dimensão associal do capitalismo em geral e em particular do interesse privado que, segundo ele, permite aos seres humanos sustentar as suas relações sociais. Smith, por exemplo, chama a atenção para o fato de que o interesse privado de corporações como a Companhia das Índias Ocidentais está necessariamente em contradição aberta com o interesse público.

Com esta contradição em mãos, Smith não se esforça para resolver o problema; assume que não há uma tendência imanente do mercado mundial ao equilíbrio; diferentemente, introduz a notória “mão invisível”, recorrendo assim a uma força metafísica para supostamente garantir um papel social aos ricos, às corporações e ao mercado.[v] Podemos nos lembrar de passagem que a mão invisível aparece na obra de Smith apenas algumas vezes. Um conceito muito mais comum é o termo “providência” com a sua carga metafísica óbvia. Ora, assim é dada à economia política de Smith uma reviravolta teológica e teleológica. Ao mesmo tempo, a mão invisível e a providência representam as forças reguladoras, que empurram para a incorporação social das tendências antissociais dos ricos, das corporações e, em última análise, do capital.

Para traduzir isso na linguagem lacaniana, se o “mercado” é a figura moderna do Outro, a ordem simbólica, na qual estamos todos imersos como sujeitos políticos e como seres sociais, então a mão invisível e a providência representam “o Outro do Outro”, a garantia metafísica da completude, da estabilidade e do equilíbrio do Outro, ou seja, do mercado. Este, assim, passa a ter um caráter fundamentalmente social – ainda que mediatamente.

Ora, a hipótese do Outro do Outro é inoperante. Em consequência, o mercado consiste num desequilíbrio estrutural permanente e, mais ainda, numa ordem fundamentalmente associal, cuja perseverança e reprodução implicam, em última instância, a morte do sujeito humano. Afirmar que “a sociedade não existe” ou que “a ganância é boa” significa dar o passo que ainda era inimaginável para Smith, abraçando totalmente a tendência antissocial do impulso capitalista para o crescimento econômico permanente, para o aumento do valor exclusivamente em nome de seu aumento.

A negação populista da realidade do colapso climático ou mesmo a indiferença aberta em relação ao desdobramento de suas consequências, fornece outra expressão mais contemporânea das tendências antissociais do capital.Com a transformação contínua do capitalismo neoliberal em uma ordem abertamente autoritária, os populistas contemporâneos não mostram nenhum traço da crença perdida no capitalismo como um modo de produção social. Nesse sentido, políticos populistas como Donald Trump, Jair Bolsonaro ou Viktor Orban, bem como partidos políticos inteiros, como o “Alternativa para a Alemanha” (AfD) ou os republicanos dos EUA, de fato servem como a exemplificação final das tendências antissociais do capital.

Ouve-se que o objetivo dos populistas é causar medo ou ansiedade. Mas é este realmente o caso? Já um vislumbre superficial mostra que o objetivo do populismo está causando ressentimento, um afeto associal por excelência. Ao contrário da ansiedade, que apesar de todas as aparências pode motivar o sujeito à ação social, o ressentimento visa a repressão do outro e até o aniquilamento, como mostraram os recentes desdobramentos da crise dos refugiados. Portanto, é completamente “lógico” que o populismo imponha o racismo (aniquilação do outro étnico: refugiados, migrantes, muçulmanos, judeus etc.), o sexismo (aniquilação do outro sexual: homossexuais, transgêneros, mulheres) e, finalmente, o classismo (aniquilação do outro econômico: proletários, autônomos, sem–teto, idosos, etc.).[vi]

No mesmo movimento, a negação populista do colapso do clima aponta que um outro ideal, que fundamentou a modernidade, atingiu seu limite, o ideal de “domínio da natureza” compartilhado pela ciência moderna e pela economia capitalista. A ideia de domínio – portanto de exploração – sugere que a alteração das condições ambientais de vida e a dissolução progressiva do social são faces reversas uma da outra: se a ruptura climática nos confrontar com a verdade oculta da epistemologia moderna como um ideal econômico, também expõe a realização da dimensão antissocial do capitalismo. A este respeito, o colapso do clima é o produto excedente final do capitalismo.[vii]

Os defensores do crescimento econômico em nossa época de colapso climático irreversível e acelerado, em última análise, admitem que o capitalismo não permite a existência de uma economia social–mas apenas de uma economia associal, que continuamente dissolve as relações sociais e as condições ambientais de vida.Com relação a essa tendência capitalista, a abreviatura de Marx M–M’ (ou seja, o dinheiro que gera dinheiro) significa muito mais do que a autovalorização do capital. Se no capitalismo a troca econômica é considerada a realização paradigmática do vínculo social – o que Marx abrevia como M – D – M (mercadoria – dinheiro–mercadoria) – então a subversão da dimensão social da troca já está indicada em sua inversão capitalista, ou seja, D –M – D’ (dinheiro – mercadoria – aumento de dinheiro).

O que é verdadeiramente fictício em M–M’ é a realização social do “crescimento automático”, de uma suposta dimensão social do mais-valor. Repetindo mais uma vez, a homologia de Lacan implica que o mais-valor se define pela inutilidade e, a esse respeito, comporta-se como gozo segundo Freud. Em ambos os contextos, o objeto da pulsão é um excedente do associal sobre o social, o parasitismo do associal sobre o social. Ambos os excedentes, em última análise, equivalem ao desperdício sistêmico, outro tipo de objeto excedente, que já no nível de sua fenomenologia demonstra nada além de inutilidade.

*Lucas Pohl é professor na Universidade Humboldt, em Berlim.

*Samo Tomsic é pesquisador do laboratório interdisciplinar Bild Wissen Gestaltung, na Universidade de Humboldt, em Berlin. Autor, entre outros livros, de The capitalism unconscius: Marx and Lacan (Verso).

Tradução: Eleutério Prado

Trecho do livro Imagining apocalyptic politics in the anthropocene (Routledge).

Para ler a primeira parte clique em https://aterraeredonda.com.br/a-pulsao-catastrofica/

 

Notas


[i] Pode-se citar aqui a crítica usual ao consumismo, embora a restrição do gozo excedente ao consumo corresse o risco de psicologizar de novo o gozo e a pulsão, removendo assim a dimensão sistêmica ou a inutilidade do quadro. A tese implícita de Lacan é que a organização do gozo em torno do excedente inútil é o que caracteriza a época ou capitalismo.

[ii] O relato mais sistemático de Freud sobre essa questão é texto Psicologia de Grupo e a Análise do Ego.

[iii] A formulação “gozo do sistema” aborda o continuum entre o modo subjetivo de gozo e o modo social de produção, ou seja, gozo sistêmico (gozo pertencente ao sistema) e gozo individual no e do capitalismo.

[iv] No mesmo contexto, Marx fala ou “acumulação em prol da acumulação”, o que apenas adicionalmente identifica o caráter social do capitalismo.

[v] Eis como Smith expõe a mão invisível: “Portanto, já que cada indivíduo procura, na medida do possível, empregar seu capital em fomentar a atividade nacional e dirigir de tal maneira essa atividade que seu produto tenha o máximo valor possível, cada indivíduo necessariamente se esforça por aumentar ao máximo possível a renda anual da sociedade. Geralmente, na realidade, ele não tenciona promover o interesse público nem sabe até que ponto o está promovendo. Ao preferir fomentar a atividade do país e não de outros países ele tem em vista apenas sua própria segurança; e orientando sua atividade de tal maneira que sua produção possa ser de maior valor, visa apenas a seu próprio ganho e, neste, como em muitos outros casos, é levado como que por mão invisível a promover um objetivo que não fazia parte de suas intenções. Aliás, nem sempre é pior para a sociedade que esse objetivo não faça parte das intenções do indivíduo. Ao perseguir seus próprios interesses, o indivíduo muitas vezes promove o interesse da sociedade muito mais eficazmente do que quando tenciona realmente promovê-lo. Nunca ouvi dizer que tenham realizado grandes coisas para o país aqueles que simulam exercer o comércio visando ao bem público. Efetivamente, é um artifício não muito comum entre os comerciantes, e não são necessárias muitas palavras para dissuadi-los disso.” É bastante peculiar ver Smith formular aqui seu próprio “eles fazem isso sem saber” (eles não sabem, mas o fazem, segundo Marx). Para Smith, o social é uma compulsão na vida dos ricos, que os obriga a restringir, se não superar, seu egoísmo. Marx inverte essa perspectiva otimista: a compulsão provém das tendências antissociais do próprio capital e sabota toda tentativa de ação social interna.

[vi] A essas três características pode-se acrescentar uma quarta, a anticiência, a rejeição do conhecimento crítico sobre a natureza, a sociedade e a subjetividade.

[vii] Durante a pandemia da corona, o verdadeiro dever de cada cidadão foi formulado com toda a clareza: morrer pela economia. O fato de que essa mensagem saiu da boca de líderes populistas não deve nos levar a acreditar que os defensores liberais do status quo não a subscreveram. O capitalismo é basicamente baseado no sacrifício imposto. Lacan intuiu isso quando insistiu que o capitalismo impõe a renúncia ao gozo como condição para a produção do gozo excedente. A primeira figura do gozo a que é preciso renunciar para que o capitalismo viva (ou seja, acumule mais e mais) é a própria vida.