O antipetismo paulista

Imagem: Michelle Guimarães

Por CARLOS EDUARDO BELLINI BORENSTEIN*

Com o cenário político atual e a estratégia de Alckmin como vice o antipetismo pode refluir em SP, retornando ao padrão de 2002

Nas últimas eleições, São Paulo (SP) tem se caracterizado por ser um estado com um comportamento eleitoral marcado pelo antipetismo. Não é por acaso que em todos os primeiros turnos das disputas presidenciais realizadas desde 1994, totalizando 7 eleições, somente em 2002, o candidato do PT – Lula na época – venceu a disputa no Estado. Nas disputas de segundo turno, verificamos o mesmo padrão. Somente em 2002, o candidato petista superou seu adversário. Ou seja, nos últimos 24 anos, tivemos 14 turnos de disputas eleitorais para presidente em SP – 7 de primeiro turno e 7 de segundo turno – e apenas duas vitórias do PT.

Esse histórico adverso ao PT também pode ser verificado nas eleições ao Palácio dos Bandeirantes. Além de nunca ter conquistado o governo de SP, nem mesmo no auge do Lulismo (2003-2010), o partido disputou o segundo turno somente em 2002, quando José Genoíno (PT) foi derrotado pelo então governador Geraldo Alckmin (na época filiado ao PSDB), que acabou se reelegendo naquela disputa.

Além da questão eleitoral, vale recordar que SP foi o epicentro das manifestações de junho de 2013, que paulatinamente foi estruturando uma direita socialmente organizada no país, turbinando, a partir de 2015, os protestos que desembocaram no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Além disso, SP se constituiu, nesse mesmo período, no principal reduto, primeiro do lavajatismo, e posteriormente, do bolsonarismo.

Em que pese esse histórico eleitoral com um forte viés antipetista, a pesquisa Ipespe divulgada na última sexta-feira (18 de fevereiro) mostra que hoje o ex-presidente Lula (PT) lidera a disputa pelo Palácio do Planalto em SP. Mais do que isso, Fernando Haddad (PT) também lidera a eleição ao Palácio dos Bandeirantes. A partir dos números mostrados pelo levantamento do Ipespe podemos afirmar que está em curso um refluxo do antipetismo no estado? Ou não, novamente em SP teremos um voto majoritariamente de oposição as candidaturas petistas? Este é o debate que o presente artigo pretende discorrer nos próximos parágrafos.

Retornando a questão eleitoral, é importante lembrarmos alguns dados do primeiro turno de eleições presidenciais passadas que reforçam a força do antipetismo em SP. Nas eleições de 1994, FHC (PSDB) teve 55,74% dos votos válidos no primeiro turno. Lula (PT) ficou em segundo lugar com 28,83%. Em 1998, a vantagem de FHC sobre Lula foi ainda mais expressiva: 59,88% contra 28,83%. Em 2002, Lula ficou à frente de José Serra (PSDB): 46,11% contra 28,52%.

Em 2006, no ano seguinte a crise do mensalão, que levou o PT a perder parte importante do apoio que possuía nas classes médias dos grandes centros urbanos, Geraldo Alckmin (então filiado ao PSDB) ficou à frente de Lula em SP: 54,19% contra 36,76%.

Em 2010, mesmo com o governo Lula tendo mais de 80% de avaliação positiva no país, José Serra venceu Dilma Rousseff (PT) no estado: 40,65% a 37,31%. Apesar de em 2010 a votação de Serra ter caído na comparação com o desempenho registrado por Alckmin em 2006, a partir de 2014 o sentimento antipetista cresceu fortemente entre os paulistas. No primeiro turno da eleição presidencial de 2014, Aécio Neves (PSDB) superou Dilma Rousseff por 44,22% a 25,82%. E em 2018, Jair Bolsonaro (filiado ao PSL naquela ocasião) venceu Fernando Haddad (PT) por 44,58% a 19,70%.

Nota-se que, de 2010 a 2018, a votação do principal adversário do PT em eleições presidenciais em SP cresceu de 40,65% para 44,58% no primeiro turno. O que chama ainda mais atenção é perda de eleitores por parte dos candidatos petistas – Dilma (2010 e 2014) e Haddad (2018). Nesse período, a votação do partido no primeiro turno de eleições presidenciais caiu de 37,31% (2010) para 19,70% (2018) no estado.

O mesmo padrão de comportamento eleitoral é observado nas disputas presidenciais de segundo turno em SP. Essa série histórica começa em 2002, pois em 1994 e 1998 não tivemos segundo turno porque FHC venceu os dois pleitos em primeiro turno. De 2002 a 2018, apenas uma vez (2002) o candidato do PT venceu um segundo turno no estado. Em 2002, Lula superou Serra (55,38% a 44,61%). Em 2006, Geraldo Alckmin venceu Lula (52,26% a 47,73%). Em 2010, uma nova vitória tucana: Serra venceu Dilma no segundo turno (54,03% a 45,94%). A partir de 2014, a força do antipetismo em SP também ficaria mais expressiva nos segundos turnos. Em 2014, Aécio vence Dilma por 64,31% a 35,69%. E em 2018, Bolsonaro supera Haddad por 67,97% a 32,02%.

Nota-se que o desempenho dos candidatos que representavam o campo antipetista no segundo turno saltou de 54,03% (2010) para 67,97% (2018). Nesse mesmo período, o desempenho do PT no segundo turno das eleições presidenciais em SP teve uma forte queda, baixando de 45,94% (2010) para 32,03% (2018).

Ao observarmos o padrão do voto paulista em eleições presidenciais nota-se que as sucessivas derrotas do PT têm o sentimento antipetista como pano de fundo. Embora as eleições presidenciais tenham um processo de decisão de voto diferente das eleições para governador, também é possível observar um comportamento eleitoral contrário ao PT nas disputas pelo Palácio dos Bandeirantes que ocorreram desde 1994.

Em 1994, o candidato do PT, José Dirceu, obteve 14,86% dos votos válidos no primeiro turno, tendo sequer chegado ao segundo turno. Em 1998, o desempenho da candidata petista – Marta Suplicy naquela ocasião – melhorou. Marta conquistou 22,51%, ficou em terceiro lugar e quase foi ao segundo turno. Nessa disputa, o então governador Mário Covas (PSDB) ficou em segundo lugar no primeiro turno com 22,95% e Paulo Maluf (PPB) conquistou 32,21%. No segundo turno, a aliança do PT com Mário Covas foi decisiva para os tucanos derrotarem Maluf.

Em 2002, o PT teve seu melhor resultado da história do partido numa eleição para o governo de SP. José Genoíno (PT) conquistou 32,45% dos votos válidos, foi ao segundo turno, mas perdeu para Geraldo Alckmin (então no PSDB). Foi a primeira e a única vez que o PT chegou ao segundo turno numa disputa ao Palácio dos Bandeirantes.

Em 2006, Aloizio Mercadante (PT) fez 31,68% e ficou em segundo lugar. Porém, o vitorioso é José Serra (PSDB), que se elege em primeiro turno. Em 2010, Mercadante é novamente o candidato do PT. Conquista 35,23% dos votos no primeiro turno, mas é derrotado mais uma vez em primeiro turno. Quem vence é Alckmin, novamente em primeiro turno, assim como Serra em 2006.

A partir de 2014, repetindo o que ocorreu com o desempenho dos candidatos petistas nas eleições presidenciais, o desempenho dos representantes do PT nas eleições para governador despenca. Em 2014, Alexandre Padilha (PT) obtém apenas 18,22% no primeiro turno, ficando em terceiro lugar. E em 2018, Luiz Marinho (PT) tem um resultado ainda pior, conquistando apenas 12,66%, obtendo o quarto lugar.

A votação dos candidatos petistas ao governo de SP no primeiro turno cai de 35,23% (2010) para apenas 12,66% (2018). Como essa queda na votação dos candidatos do PT a governador acompanha tendência similar a registrada com a votação dos candidatos presidenciais do partido no mesmo período, este é mais um fato que reforça um voto orientado pelo antipetismo no estado.

Recordar essa série histórica é importante para o debate central que esse artigo se propõe. Mesmo com a força do antipetismo no maior colégio eleitoral do país, a pesquisa Ipespe divulgada na última sexta-feira (18), mostrou Lula liderando a disputa ao Palácio do Planalto entre os paulistas.

O mesmo ocorre com Fernando Haddad na eleição para governador de SP. Apesar de Haddad dividir a liderança da sucessão estadual com os ex-governadores Geraldo Alckmin (Sem partido) e Márcio França (PSB), como eles devem estar aliados em SP e o candidato deve ser Haddad, surge a seguinte questão: o antipetismo refluiu em SP, retornando ao padrão de 2002, quando Lula venceu a eleição presidencial no Estado e o PT, através da candidatura de Genoíno, chegou ao segundo turno na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes?

Observando primeiramente o cenário presidencial de 2022 a luz dos números do Ipespe temos o seguinte cenário: considerando apenas os votos válidos – excluindo brancos, nulos e indecisos – Lula tem 39,53%. O presidente Jair Bolsonaro (PL) registra 30,23%. O ex-ministro Sergio Moro (Podemos) aparece com 12,79%. O também ex-ministro Ciro Gomes (PDT) soma 8,13%. E o governador de SP, João Doria (PSDB), tem 5,81%.

Embora o voto válido que Lula teria hoje (39,53%) seja inferior ao que o ex-presidente teve, por exemplo, no primeiro turno de 2002 em SP (46,11%), temos, neste momento, uma recuperação do voto no PT em eleições presidenciais no estado puxado pelo ex-presidente. Na comparação com 2018, quando Haddad teve apenas 19,70%, por exemplo, Lula tem hoje cerca de 20 pontos percentuais a mais que o obtido por Haddad há quatro anos. Principal expoente do antipetismo no país, Jair Bolsonaro, que obteve 44,58% no primeiro turno de 2018, cai agora para 30,23%.

A recuperação do eleitorado perdido por parte do PT, através de Lula, fica ainda mais claro nas simulações de segundo turno. De acordo com dados do Ipespe, Lula teria 57,50% dos votos válidos num hipotético segundo turno contra Bolsonaro, que registra 42,50% na simulação. Comparando esses números com 2018, a votação de Lula em relação a Haddad praticamente dobra (32,02% para 57,50%) em SP, enquanto a de Bolsonaro cai de 67,97% para 42,50%.

Esses números parciais do Ipespe indicam que o antipetismo perdeu força em SP? Momentaneamente sim. Embora na simulação de primeiro turno sobre as eleições presidenciais, Bolsonaro, Moro e Doria somem 48,83% dos votos válidos, mostrando que o antipetismo, mesmo sendo uma força social menos barulhenta que em 2018, ainda tem pelo eleitoral, por ora, o antibolsonarismo suplanta o antipetismo na preferência eleitoral do país e também entre os paulistas.

De acordo com o Ipespe, a avaliação negativa (ruim/péssimo) do governo Bolsonaro é de 56%. A avaliação positiva (ótimo/bom) é de 22%. E o índice regular soma 19%. Vale registrar que a avaliação negativa do governo (56%) é proporcional ao voto válido que Lula teria hoje (57%) num eventual segundo turno contra Bolsonaro.

Este refluxo do antipetismo é registrado também quando observamos a pesquisa Ipespe para o Palácio dos Bandeirantes. Mesmo tendo sido um prefeito de SP mal avaliado pela opinião pública paulistana, tendo sequer chegado ao segundo turno nas eleições de 2016, quando João Doria (PSDB) se elegeu prefeito, e registrado um desempenho ruim contra Bolsonaro no estado em 2018, Fernando Haddad lidera todas as simulações em que seu nome aparece como pré-candidato a governador com percentuais que variam de 20% a 33% das intenções de voto, dependendo do cenário.

O que mais chama atenção nessa pesquisa do Ipespe sobre a disputa ao Palácio dos Bandeirantes é que, Fernando Haddad, associado a Lula e Geraldo Alckmin, atinge 38% das intenções de voto. Tarcísio de Freitas, associado a Jair Bolsonaro, tem 25%. E Rodrigo Garcia, associado a João Doria, contabiliza 10%. E temos ainda 27% de eleitores “sem candidato” (brancos, nulos e indecisos) nessa simulação.

Embora Geraldo Alckmin não tenha aumentado as intenções de voto em Lula no país neste momento, o ex-governador cumpre um papel fundamental na aliança que está sendo construída: ser o fiador do PT junto a parcela do eleitorado, principalmente em SP, que não é definitivamente avessa ao partido, mas se afastou da legenda e dos candidatos petistas a presidente e governador desde crise do mensalão de 2005.

A simbologia da aliança Lula-Alckmin, que deve ser oficializada até março, ainda não foi corretamente interpretada por parte significativa do mundo político e dos analistas do cenário nacional. A composição Lula-Alckmin tem o poder, por exemplo, de abrir as portas para a construção de uma candidatura de unidade nacional, com repercussões importantes em muitos estados, como é o caso de SP, que funcione como uma frente ampla antibolsonarista.

Não é por acaso que em seus discursos, Lula tem defendido Alckmin e declarado que seu vice funcionará como “um contraponto ao PT”. Ou seja, ciente da força do antipetismo, sobretudo em SP, é o próprio Lula que, a partir da aliança com um histórico adversário do passado, propõem o contraponto a seu próprio partido.

A ideia por trás disso é a viabilização de uma candidatura de união nacional, que se apresentará com uma proposta de reconstrução do país. A partir desse conceito de reconstrução nacional, Lula, do ponto de vista da estratégia eleitoral e de seu posicionamento político, busca despolarizar o cenário político.

Por tudo isso, a aliança Lula-Alckmin é a grande jogada estratégica da sucessão presidencial até o presente momento, na medida em que empurra Lula para o centro, dificulta a construção de uma opção de terceira via e isola o bolsonarismo em seu nicho que varia de 25% a 30%. Através dessa despolarização, Lula impede que Bolsonaro reedite a estratégia de 2018 centrada, entre outros aspectos, no debate do petismo contra o antipetismo.

A composição com Geraldo Alckmin é eleitoralmente tão eficiente que, mesmo em SP, o ex-governador, ao lado de Lula, consegue alavancar Haddad a patamares de intenção de voto que um candidato do PT a governador não teve nem durante o auge dos governos petistas no país.

A dimensão desta estratégia eleitoral ainda não foi percebida pelos adversários do PT – tanto no país quanto em SP – que tentam construir uma narrativa antipetista ancorada numa agenda supostamente radical de esquerda para atingir um adversário inexistente no tabuleiro, já que Lula e Haddad abraçaram uma pauta de união nacional via amplitude de forças políticas.

Voltando ao tema central deste artigo: podemos então afirmar que, de fato, o antipetismo refluiu em SP e os candidatos petistas a presidente e governador terão um desempenho similar ou igual a 2002? Neste momento, temos indícios que isso pode acontecer. Há dois fatores que exercem forte peso para isso: a avaliação negativa do governo Jair Bolsonaro, principalmente a situação da economia, e o desgaste do PSDB em SP.

No entanto, dado o histórico eleitoral e a força do antipetismo em SP, esse fenômeno não deve ser subestimado. Faltando cerca de oito meses para as eleições, mudanças de cenário podem ocorrer. Conforme afirmamos anteriormente, neste momento, aspectos conjunturais como o desgaste de Bolsonaro e do PSDB no estado acabam se sobrepondo ao padrão estrutural de voto orientado pelo antipetismo em SP.

Caso este paradigma não seja alterado, Lula, a partir da repetição do desempenho de 2002 em SP, ficará mais próximo do Palácio do Planalto, principalmente se repetir a votação histórica do lulismo no Nordeste, que gira em torno dos 60% dos votos válidos.

Nesta conjuntura, há espaço para o PT vencer, ainda, através da nacionalização do debate estadual a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, principalmente se Haddad realizar uma campanha associada a Lula e Alckmin. Por outro lado, se prevalecer o antipetismo, como em 2006, 2010, 2014 e 2018, o pleito nacional ficará mais equilibrado e tanto Lula quanto Haddad terão uma eleição mais acirrada, sobretudo em SP.

*Carlos Eduardo Bellini Borenstein é graduado em ciência política ULBRA-RS.