O caso Epstein

Imagem: Mathieu Stern
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Por EMMANOEL LIMA FERREIRA & FREDERICO JORGE FERREIRA COSTA*

O escândalo atual tende a se tornar explosivo porque tirou o véu da hipocrisia do Império, mostrando que empresários se utilizaram de meninas e adolescentes numa rede de prostituição montada por Epstein para vigiar e chantagear personalidades

1.

O presidente Donald Trump mais uma vez ganha os holofotes do mundo inteiro. Desta vez, é personagem de uma história que abala o mundo dos bilionários e de políticos norte-americanos – o caso Epstein.

Conforme reportagem, publicada no dia 24 de julho de 2025, no site G1,[1] o caso Epstein está sendo investigado por envolver abuso sexual de jovens comandado por bilionários que constariam num documento denominado “lista de Epstein”. Sobre o caso, Donald Trump teria prometido divulgar tal documento. Contudo, o episódio sofre uma reviravolta quando, o próprio presidente dos Estados Unidos é acusado de integrar a “lista de Epstein”.

O nome dado a lista é de um bilionário, amigo de Donald Trump, que tinha conexões importantes com personalidades influentes no âmbito financeiro, político e econômico. Epstein morreu numa prisão em Nova York, em 2019, acusado de ser a figura de proa da rede de prostituição de meninas menores de idade.

O articulador e principal doador da campanha de Donald Trump, Elon Musk, ao sair do governo, denuncia que o presidente também participava do esquema de exploração sexual.

Qual o impacto do escândalo do “caso Epstein” para o governo de Donald Trump? O caso Epstein tende, no mínimo, a arranhar o mandato de Donald Trump e possui ingredientes que colocam em relevo toda a podridão política e moral, não só do presidente, mas dos círculos dirigentes políticos e econômicos dos Estados Unidos – Bill Clinton, do partido democrata; membros do partido republicano; os multimilionários dos Estados Unidos; e até das elites dirigentes da União Europeia.

O que o caso Epstein revela é que, por trás de todo moralista empedernido há sempre um grande patife. Além disso, indica fraude ideológica cristã conservadora e moralista que acoberta os interesses antidemocráticos e antipopulares da extrema direita.

2.

O documentário Inside Jobs (Trabalho Interno), que recebeu diversos prêmios, mostrou como os CEOs das grandes empresas têm um consumo conspícuo e suntuoso – com diversas mansões de milhões de dólares, aviões executivos, festas com prostituição regadas a muita cocaína – competindo entre si nessa farra nababesca, enquanto a classe trabalhadora dos Estados Unidos amarga décadas de arrocho salarial, precárias condições de trabalho desde o final dos anos 1970.

Lembremos que um dos argumentos centrais para retirar impostos dos ricos e bilionários nos Estados Unidos foi a “teoria” Trickle Down, vale dizer, a ideia do gotejamento, ou seja, deixando os ricaços empresários livres de impostos, estes, em tese, investiriam mais na economia, e isto no final beneficiaria a todos porque a economia cresceria e os empregos também.

Bem, como o critério da verdade é a prática, a realidade é outra.

Na verdade, a vida dos trabalhadores e das classes médias estadunidenses só pioraram ao longo de mais de quatro décadas de políticas neoliberais. Os EUA se desindustrializaram sobremaneira e a classe média, que antes era tão decantada como uma classe pujante, não é sequer a sombra do que foi no passado.

Hoje existem diversas cracolândias nas suas principais cidades e há um exército de moradores de rua, enquanto a concentração de propriedade, riqueza e renda continua crescendo. O fluxo dos resultados do sobretrabalho social continua fluindo para os bolsos de ricos, milionários e bilionários.

O New Deal, de Franklin Delano Roosevelt, foi sendo dilapidado após sucessivos governos e o último projeto mais avançado que foi apresentado nos Estados Unidos foi no governo de Lyndon Johnson, denominado “A grande sociedade”. Este foi sepultado pelos gastos exorbitantes da guerra do Vietnã.

De lá para cá, desde o governo de Jimmy Carter com Paul Volcker à frente do FED (Federal Reserve), o neoliberalismo foi sendo implementado, e o seu resultado é o cortejo necessário dessas políticas: privatizações, concentração inédita de renda, governo cada vez mais autocrático, pauperização dos trabalhadores e das camadas médias. O auge do neoliberalismo foi nos 1990 e foi alavancado pela especulação financeira e pela montagem de um cassino financeiro internacional interconectado por uma rede mundial de computadores.

Não foi só o Partido Republicano que desmontou Bretton Woods e o New Deal, Bill Clinton soterrou a lei Glass-Steagall, que reprimia fortemente o mercado financeiro para evitar uma nova crise como a de 1929.

3.

O escândalo atual tende a se tornar explosivo porque tirou o véu da hipocrisia do Império mostrando que empresários se utilizaram de meninas e adolescentes numa rede de prostituição montada por Epstein.

O Estado profundo tenta impedir que este escândalo manche todo o establishment dos Estados Unidos. Epstein morre, supostamente cometendo suicídio, e há muitos obstáculos para a divulgação da lista de frequentadores das orgias e das festas organizadas por ele. Há também a forte suspeita de que essa rede foi montada para vigiar, chantagear personalidades políticas e econômicas do establishment em prol do Estado sionista de Israel.

Reihard Heydrich, lugar tenente de Heinrich Himmler, montou uma estrutura semelhante para vigiar e chantagear o alto escalão do exército alemão. Há algo de podre no Império e a tendência é que exale cada vez mais podridão com a crise do imperialismo norte-americano, ou seja, este tende a secretar, diante de sua crise, cada vez mais guerras, caos, podridão moral e política.

*Emmanoel Lima Ferreira é professor de economia na Universidade Regional do Cariri (URCA).

*Frederico Jorge Ferreira Costa é professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Nota

[1] O que é a lista de Epstein e qual a relação de Trump com o caso? G1, 24 jul. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/07/24/o-que-e-a-lista-de-epstein-e-qual-a-relacao-de-trump-com-o-caso.ghtml

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