O espaço social em Henri Lefebvre

Imagem: Mohamed Jamil Latrach
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Por ROBERTO GARCIA SIMÕES*

A produção do espaço urbano, ao subordinar a natureza, transforma a Terra em fronteira crítica do próprio projeto moderno

1.

Uma análise de obras de Henri Lefebvre, em especial La producción del espacio, está voltada para identificar como o renomado pensador francês trata “ecologia”, “natureza” e “problemas ambientais”. O “socionatural” é extraído da antropóloga Marisol de La Cadena (2024, p. 46), quando define assim um “território socionatural”: é aquele “composto por relações entre as pessoas e os seres-terra e demarcado por um governo estatal regional moderno”.

A seguir, é feito um resumo das principais interpretações feitas a partir desta análise, cujo conteúdo integral pode ser lido aqui.

Na teoria da produção do espaço lefebvriana, a natureza é subordinada como “recurso” e como “força produtiva”, sob a égide do comando socialhumano e da produção do e no espaço urbano.

Ao mesmo tempo, a dominância antropocêntrica da natureza convive com registros fugazes de “ameaças”, de “riscos”, e até da “autodestruição”. Esses registros, na maioria das vezes, são incluídos como componentes da trajetória inevitável do processo histórico capitalista para se atingir outro “modo de produção”.

A convivência desigual entre “desenvolver” e “destruir” no capitalismo, em particular na produção do espaço, desdobra-se em sete interpretações específicas, ainda que interligadas: (a) a pretensão do caráter “unitário” e “totalizador” da teoria da “produção (social) do espaço (social)”. É inegável a fragmentação crescente em “disciplinas”, sem fim. Porém, a saída desse impasse é a unificação delas mediante o “espaço social”, “apropriado”?

(b) As relações de produção se cingem ao Homem compondo o socialhumano, negando o “socialnatural”; (c) a cisão entre natureza e sociedade é ditada pelo social em relação ao natural. Dominam subjugações de toda espécie, além de o socialhumano estar revestido de um poder de “agência” na produção capitalista do espaço aniquilador dos demais seres; (d) a natureza é constrangida a servir passivamente como estoque ilimitado de valores de uso para a produção de valores de troca, em especial do “espaço social”, levando à escassez.

(e) A primeira natureza está condenada a ser destruída sob a aplicação de diferentes técnicas de produção, sendo substituída, na escassez, por produtos “mais elaborados”, “menos naturais”, produzidos na segunda natureza sob os desígnios da ciência, tecnologia; (f) o processo expansivo de acumulação de capital exclui o que não é visto como moderno – urbano, elimina vidas não humanas, o que leva a extinção ou dificulta a existência de outros modos de vida; e, (g) em “outro modo de produção”, a base dele estaria na “regulação” da produção social e no “desenvolvimento integral” do “novo homem”.

2.

Diante de as discordâncias com a interpretação básica e com as conclusões específicas, elaboradas a partir de uma leitura de obras de Lefebvre, outras perspectivas, resumidas em cinco desafios, poderiam contribuir no repensar do espaço da e na Terra.

Um primeiro desafio é combinar, entrelaçar, emaranhar natureza e sociedade. O antropólogo francês Philipe Descola (2016, p. 22) constata que ele já integra a vida de alguns povos: “tudo é natural e cultural ao mesmo tempo”.

Em decorrência de enlaces entre natureza e sociedade, dilacerando o reinado do homem, há que se fazer uma escolha: “os não humanos também são pessoas que participam da vida social, pessoas com quem podemos estabelecer relações de aliança ou, ao contrário, relações de hostilidade e de competição” (Descola, 2016, p. 14). Ao primeiro desafio se alia um segundo: como promover relações entre humanos e não humanos? Elas poderiam ser não hostis, cooperativas e (ou não) competitivas?

A busca para ultrapassar contraposições, todavia, é carregada de outros desdobramentos conceituais. Assim, “a superação de dicotomias modernas (sujeito e objeto, organismo e ambiente, cultura e natureza etc.) implica a reconceituação de organismo, vida, lócus de agência e da senciência, atmosfera e morte” (Taddei, 2022, p. 219). Outro léxico analítico é necessário na práxis.

O terceiro desafio transforma o homem. Ele não é apenas aquele ser biológico construído em Marx. Na rota da produção capitalista, exploradora e arruinadora, impulsionada pelo homem como senhor supremo da natureza, os limites na Terra foram, e vem, sendo ultrapassados incessantemente. Nesse processo recente, a história natural e a história humana se aproximaram no clima: “Los científicos postulan que el ser humano ya no es el simple agente biológico que siempre ha sido, pues ha adquirido una mayor dimensión. Los seres humanos ejercen ahora una fuerza geológica” (Chakrabarty, 2021, p. 20). Geologia e sociedade se entrelaçam em geohistórias.

Essa outra “força geológica” altera substancialmente o “espaço social” entronizado para além da natureza. Antes dessa “força geológica”, Henri Lefebvre (2020, pos. 8085) entendia a cidade como uma das “forças produtivas”, pós-primeira natureza destroçada: “figura entre las fuerzas productivas, asumiendo el rol que antes desempeñaba la naturaleza original, la que desplaza e suplanta”.

3.

Agora, o “espaço social” produzido está sendo suplantado por essa “força geológica” que concorre para extremar eventos climáticos que antes eram tidos apenas como naturais.

O urbano, selecionado pela teoria do espaço como única “sede” de “outro modo de produção”, além de sofrer com eventos extremos, também contribui para gerá-los. A produção do espaço: desmata; degrada e erode solos; solapa drenos naturais; soterra corpos de água.

Esse (re)encontro forçado do natural e do social (re)coloca, com vigor, a Terra – um quarto desafio. O pensador francês Bruno Latour (2020), entendendo Gaia como a “consequência de sucessivas invenções dos viventes que acabaram transformando completamente as condições físico-químicas da terra geológica inicial” (p. 10), conclama a tomá-la “como a oportunidade pra um retorno à Terra que permite uma visão diferenciada das qualidades específicas que podem ser exigidas das ciências” (p. 19).

Sobre a Terra, Henri Lefebvre (2020, pos. 9427) tem uma posição semelhante a latouriana: “la tierra como planeta – espacio planetario – retoma su lugar primordial en el pensamiento y la actividad práctica”.

Outra observação de Henri Lefebvre (2020, pos. 1739) ajuda a atualizar a Terra diante de derivas “nacionalistas”, da posição fascista “contra imigrantes”: “Oscuras fuerzas políticas en declieve (el estado, el nacionalismo) reencuentra imágenes que tienen su fuente en la tierra o en la naturaleza, en la paternidad o en la maternidad”. Ou seja, é imprescindível atentar-se para ressignificações neofascistas da terra (Estado-nação) e da natureza (“selvagem”).

Essas duas assertivas anteriores de Henri Lefebvre poderiam ter influenciado a teoria da produção do espaço. Algo mudaria nela se o planeta Terra, logo também a primeira natureza, não estivesse dissociado da produção capitalista do e no espaço urbano.

De acordo com o filósofo indígena Ailton Krenak (2020, p. 16), essa cegueira fixa no “social” se deu, e se dá, porque “fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós outra: a Terra e a humanidade”. “Aterrar” muda o espaço quando ele é tomado como socialhumano.

Um quinto desafio é escapar do urbano como única tendência e relevar outros “mundos possíveis” e seus “espaços de existência”.  Segundo Latour (2020, p. 451), “A geo-história requer uma mudança na própria definição do que significa ter, manter ou ocupar um espaço; do que significa ser apropriado por uma terra”.

Para Ailton Krenak (2020, p. 67), “imaginar outro mundo possível, é no sentido de reordenamento das relações e dos espaços, de novos entendimentos sobre como podemos nos relacionar com aquilo que se admite ser natureza, como se a gente não fosse natureza”. Outros “mundos possíveis” rompem com a exclusividade da Terra urbana.

Terra, Natureza são vitais na superação da produção espaço social-humano-capitalista em busca de (re) criações de espaços “socionaturais”, seja nas “ruinas” seja nas “resistências”, sem falar de as criações abertas possíveis. No dizer de Danowski e Viveiros de Castro (2017, p. 132), “O futuro é cada [vez?] mais incerto, ou melhor (ou pior), o que dele se pode saber ao certo é que, como na canção, ‘nada será como antes’”.

*Roberto Garcia Simões, doutor em geografia, é professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Autor, entre outros livros, de Geoanálise: terraceno e desterritorialização e espaços (-,e) tempos. Cem escalas e plataformas mil (Dialética) [https://amzn.to/4668YTc]

Referências


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CADENA, Marisol de la. Seres-terra: cosmopolítica em mundos andinos. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2024.

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DESCOLA, Philippe. Outras naturezas, outras culturas. São Paulo: Editora 34, 2016.

FOSTER, John Bellamy. Ecologia. In: MUSTO, Marcello (org.). O Renascimento de Marx: principais conceitos e novas interpretações. São Paulo: Autonomia Literária, 2023.

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LATOUR, Bruno. Diante de Gaia. Oito conferências sobre a natureza no antropoceno. São Paulo: Ubu, 2020.

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LEFF, Enrique. Ecologia política: da desconstrução do capital à territorialização da vida. Tradução de Jorge Calvimontes. São Paulo: Editora da Unicamp, 2021.

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TADDEI, Renzo. Alter Geoengenharia. In: DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo; SALDANHA, Rafael. Os mil nomes de Gaia: do antropoceno à Idade da Terra. – vol. 1. Rio de Janeiro: Machado, 2022.

DANOWSKI, Débora; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há Mundo por Vir? Ensaio sobre medos e os fins. Desterro (Florianópolis). Cultura e Bárbarie e ISA, 2017.

ZANOTELLI, Claudio Luiz. O mito do desenvolvimento econômico na América Latina. GeoUERJ, Rio de Janeiro, n. 44, p. 1-19, 2024.

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