Para onde vai a escrita?

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Por FLÁVIO R. KOTHE*
O texto vai reproduzir erros existentes e não vai pensar além do que já foi pensado até dois anos antes

Publicar é se expor, desnudar a própria interioridade em público, deixando que o leitor faça o que lhe aprouver com o texto. Tanto pode ser um encontro repleno de compreensão e carinho quanto pode haver violência e maledicência. O texto precisa saber se defender sozinho, pois assim que pulou para as ruas deixou de ficar sob a proteção paterna ou materna. Por isso, é preciso que os pais criem seus filhos com cuidado, fazendo com que fiquem fortes e possam cuidar de si.

Para revisar o próprio texto, o autor precisa sair dele por uns dias para voltar feito um leitor espantado com o que encontra diante de si. Enquanto está escrevendo, o autor tem os olhos fixados no horizonte para onde se dirige e às vezes não cuido de detalhes do que está próximo; ao voltar como leitor de si, passa a ver quantas derrapadas deu ao longo da redação, quantos pontos deixou de reparar e desenvolver. O texto passa a olhar para o autor como se fosse um sujeito autônomo, que fica ditando para onde quer ir, o que dele deve ser feito. Isso já estava nele quando ia se gestando no inconsciente do autor.

Quando se vai a um consultório clínico e se fica esperando ser chamado, não se vê mais ninguém ler um livro. Até das revistas cheias de fotos se desistiu. Cada um tem um celular na mão, como se fosse um novo membro surgido nos humanos com a evolução ou involução da espécie. Escritores tentam reagir, escrevendo textos curtos – minicontos, poemas-piadas, haicais, breves comentários – para serem lidos pelo público diplomado na pressa; nada, no entanto, que demande tempo de leitura e/ou concentração. Há um movimento contrário, em que o modelo de saber não é a informação breve da Wikipédia: romances longos, densos poemas herméticos, gêneros em que se misturam narrativa e reflexão.

Há poucos meses apareceu o ChatGPT, que deverá ser seguido por outras plataformas com novas versões a cada poucos meses. Pode-se já pedir a ele um texto sobre qualquer tema e, em menos de um minuto, aparece um discurso bem escrito, com pé e cabeça, boa argumentação, que o programa extraiu das informações existentes em muitos arquivos e combinou de um modo próprio e peculiar. Pode-se pedir que ele mude o estilo, faça um texto mais denso ou mais amplo. Talvez no futuro, o editor de uma revista possa pedir ao programa um texto de acordo com o perfil de cada um dos colaboradores e, assim, em poucos minutos, terá o arquivo do próximo número. O texto vai reproduzir erros existentes e não vai pensar além do que já foi pensado até dois anos antes.

Não se sabe bem o que irá acontecer nesse âmbito. Onde se precisa hoje de atendimento via celular, já se está a conversar com máquinas e, se não se obedecer ao que elas mandam, não se vai adiante. Será possível substituir o redator médio por um programa ou uma plataforma? No xadrez, há programas que já estão jogando melhor que os melhores enxadristas. A tarefa do escritor do futuro já começa onde acaba a capacidade da máquina.

Aí não vão mais importar nacionalidade e língua. Os programas de tradução já melhoraram tanto nos últimos anos que se tem de modo quase simultâneo o texto equivalente em outra língua. Antes, as traduções do e para o inglês eram melhores. Agora, o sujeito pode escrever em polonês e pedir uma versão em português e alemão que logo terá algo bem compreensível e correspondente.

É sabido que a escola brasileira não prepara bem os alunos. Qualquer um pode encher páginas e páginas com o título de grandes obras que não teve de ler nem provavelmente sequer ouviu na escola. A visão internacional não se supera com a ênfase absoluta ao local.

É difícil escrever fácil. Um best-seller tem as qualidades necessárias para, num determinado momento e lugar, se tornar um dos livros mais lidos. Isso significa fazer grandes concessões ao nível do público comprador, o que impede, em geral, a transcendência para outros tempos e lugares. Se é difícil escrever fácil, fácil é ficar enrolando, para parecer sábio e sapiente o que pode não ser mais que bobagens e inconsistências rimadas.

Ninguém se torna escritor só porque quer. Precisa ter o dom, a formação, o esforço e a oportunidade. Há textos que prendem de tal maneira a atenção que o leitor não consegue mais largá-los da mão. Há truques para isso, como dizer na primeira linha que Cicrano vai ser morto em 24 horas. O leitor vai querer saber como isso acontece, mas só vai ficar percorrendo página após página se o texto tiver a competência e a vibração interior que lhe conferem a vivacidade necessária.

Não basta um publicitário acreditar que é poeta ao fazer textos engraçadinhos, com algumas surpresas dentro de si, mas que sejam, sobretudo, banais. Não basta o pretenso poeta supor que poesia é ambiguidade e contradição, para poder se dar o direito de encher páginas e páginas com absurdos lógicos, inconsistências imagéticas, megalomanias e antropocentrismos. Já dizia Aristóteles que um tratado de agricultura posto em rimas não é poesia.

Escrever literatura é, entre nós, tarefa difícil, em geral não paga nem respeitada. Cada um gostaria de escrever o melhor texto, mas só consegue fazer o que está nos limites de suas possibilidades, em geral menores do que ele mesmo gostaria. Se o texto ultrapassar, porém, os limites do horizonte do leitor, também não será validado.

Os jornais impressos têm perdido público, enquanto os digitais vão aumentando em quantidade de editores e leitores. A tela não permite, no entanto, que se leia bem um texto longo e denso. O seu modelo é a Wikipédia: texto curto, informativo, com imagens. Como se fosse um quadrinho de uma revista de quadrinhos. Há um limite estrutural aí, que vai tornando cada vez mais estreitas as mentes chipadas.

A mente treinada neste modelo vai ser incapaz de fazer associações distantes e densas, reflexões inovadoras e percucientes. Numa era em que se faz mais necessária a redação do que os ChatsGPTT podem propor, fica mais difícil ao sistema escolar midiático atender ao que é demandado. O que é banal para uns pode ser novidade para outros: nessa brecha muitos encontram espaço de convivência, mas também os programas que montam textos podem se esbaldar.

Não adianta proibir sua utilização. Eles já estão aí e vão ocupar cada vez mais espaço. Os escritores terão de ser ainda mais inventivos, terem ainda melhor formação e mais informação. Em todas as áreas de conhecimento, haverá uma tendência de substituição do profissional mediano pela máquina. Cada um vai ter de aprender a usá-la para se tornar melhor, mais competente.

O público está tendo de aprender a decifrar o que são fake news, como funcionam lawfare e mentes obsessivas. Isso significa saber ler nas entrelinhas, no branco que fica entre elas, no silêncio que é mais significativo que a fala. Por fim, acaba se tornando mais importante no texto exatamente a palavra não dita.

A liberdade inerente à criatividade vai ter de se redefinir, pois, se a máquina conseguir fazer milhões de combinações por segundo com uma base de dados mais ampla do que qualquer mente humana, o que parece novidade pode ser apenas uma combinação não usual nem prevista. A liberdade será substituída pelo imprevisto. O gênio consegue ver o que os comuns não conseguem, mas depois se pode ver que era previsível o que ele propôs e ninguém mais.

Quem tem dom consegue definir o tom certo em meio a muitos errados. O gênio encontra soluções que parecem simples para problemas complexos. Há textos que perduram em nossa mente, mesmo anos após terem sido lidos. É preciso aprender a distinguir o que é genuíno talento e o que foi apenas imposição escolar. Temos sempre de reaprender. Como dizia o velho gaudério no leito de morte, ao ver o neto trazendo, por falta de vela, uma brasa num prato: “morrendo e aprendendo”.

*Flávio R. Kothe é professor titular aposentado de estética na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Benjamin e Adorno: confrontos (Ática).

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