As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

O jantar

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por Lincoln Secco*

Em 20 de fevereiro de 1933, numa tarde de segunda feira, 24 magnatas da Indústria alemã foram recebidos no palácio do Presidente do Reichstag. Foram cumprimentados um a um por Hermann Göring enquanto aguardavam a chegada do Führer. De repente Hitler adentrou o recinto e começou a falar. Alguns o viam pela primeira vez. Ele se fazia afável, afinal as eleições de março se aproximavam. Discursou por meia hora e se retirou. Então, Hjalmar Schacht, o animador da recepção, bradou: “Ao Caixa!”. A cena é narrada por Éric Vuillard em seu belo livro A Ordem do Dia, (editora Planeta) cujo estilo faz lembrar o quanto a ciência histórica pode tangenciar a arte.

Schacht havia conhecido Hitler em um jantar na casa de Goering três anos antes. Em março de 1933, após a vitória eleitoral nazista, Schacht assumiu a presidência do Reichsbank. No entanto, não pertencia à elite nouveau riche que ascendia diretamente das milícias e do partido. Já havia ocupado o mesmo cargo durante a República de Weimar.

Farsa

A nossa história parece menos trágica, suas personagens menos relevantes e a pantomima foi substituída por lives. Numa economia desindustrializada as classes são indefinidas, salvo a oligarquia agrária. Assim era na República Velha, como o historiador Edgard Carone demonstrou. Assim é na pós Nova República, como a participação da indústria de transformação no PIB nos revela e nosso vibrante agronegócio, com sua baixa capacidade de agregar valor, nos informam.

Sob a hegemonia do latifúndio e o domínio dos milicianos, a Constituição de 1988 pode se tornar tão fictícia como a de 1891 ou tão insignificante quanto a de Weimar sob o nazismo.

Se assim é, podemos então tomar o palhaço pelo mímico; Skaf por Krupp; a Riachuelo pela Siemens; Hans von Loewenstein zu Loewenstein pelo “Véio da Havan”; o genial oportunista Schacht por um Ministro ressentido com os colegas da PUC; a tragédia pela farsa.

Arroz com Pato

Em 11 de junho de 2019, numa terça-feira, o presidente Bolsonaro falou a 50 empresários na casa de Paulo Skaf. Enquanto jantavam arroz com pato e um carré de cordeiro, o animador da festa, Paulo Guedes, tranquilizava os que ainda duvidavam da conversão liberal do “Mito” e exibia o seu empenho em acabar com a aposentadoria da classe trabalhadora como uma prova.

É verdade que alguns nomes importantes não apareceram. Mas os Feffer, Ometto, Diniz e Brandão estiveram lá. Assim como no passado frequentaram a mesa de outros presidentes. E também já se converteram à Democracia, tantas vezes quanto foi necessário. O que importa é que serviram lealmente à sua pátria e aos seus lucros.

Não sabemos o que acharam dos efeitos da política econômica sobre o PIB. Nem se concordaram depois com The Wall Street Journal que saúda o governo por expor “as indústrias locais há muito acostumadas ao protecionismo aos desafios do livre comércio”.

Ao contrário de seu par alemão, o ministro brasileiro não criará títulos para financiar o investimento industrial e nem vai construir uma Autobahn ou qualquer outra coisa. Na teologia liberal o dinheiro nasce de artimanhas financeiras e não da produção. E no ideal fascio-evangélico da lumpem burguesia a prosperidade dos outros não pertence ao reino deste mundo.

Depois de Tudo

Éric Vuillard mostra como os Siemens, Krupp, Opel e todos os grandes capitalistas alemães financiaram Hitler; como os conservadores austríacos toleraram o nazismo até serem surpreendidos por ele; como a política de apaziguamento ocidental pavimentou o caminho para a Segunda Guerra Mundial. Mas fundamentalmente, ele nos revela que depois os mesmos empresários que doaram quantias astronômicas aos nazis, negociaram até o último centavo as indenizações aos judeus sobreviventes que trabalharam como escravos em suas empresas.

Quanto tempo durará essa experiência é impossível prever. Por ora já se mostram arrependidos os que foram mordidos pelas feras que eles próprios tiraram do zoológico. Já é um número considerável. Todavia, ainda existem outros tantos que esperam a arma secreta que o Führer tem, mas nunca usou.

*Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Luiz Roberto Alves João Adolfo Hansen Kátia Gerab Baggio Osvaldo Coggiola Paulo Martins Lucas Fiaschetti Estevez Henri Acselrad Manuel Domingos Neto Carla Teixeira Berenice Bento Luiz Carlos Bresser-Pereira Alexandre de Freitas Barbosa Fernando Nogueira da Costa Henry Burnett Rodrigo de Faria Tarso Genro Thomas Piketty Gilberto Maringoni Milton Pinheiro Antonino Infranca João Paulo Ayub Fonseca Claudio Katz Marcelo Módolo Carlos Tautz Daniel Costa André Singer Luiz Eduardo Soares Sergio Amadeu da Silveira Maria Rita Kehl Leonardo Boff Anderson Alves Esteves Airton Paschoa Fábio Konder Comparato Roberto Bueno José Micaelson Lacerda Morais Eliziário Andrade Heraldo Campos José Machado Moita Neto Bruno Machado Vinício Carrilho Martinez Otaviano Helene Luiz Renato Martins Chico Alencar Dênis de Moraes Lincoln Secco Gerson Almeida Michael Roberts Paulo Capel Narvai Ricardo Fabbrini Annateresa Fabris Eleutério F. S. Prado Armando Boito Alexandre Aragão de Albuquerque José Dirceu Marcos Silva Salem Nasser Afrânio Catani Leonardo Sacramento João Feres Júnior Marcus Ianoni Paulo Fernandes Silveira Walnice Nogueira Galvão Fernão Pessoa Ramos Ronald Rocha João Lanari Bo Slavoj Žižek Ronald León Núñez Roberto Noritomi Antonio Martins Antônio Sales Rios Neto Flávio Aguiar Marilena Chauí André Márcio Neves Soares Julian Rodrigues Elias Jabbour Ricardo Antunes José Geraldo Couto Tales Ab'Sáber Samuel Kilsztajn Luiz Marques Chico Whitaker Luciano Nascimento Eduardo Borges Ari Marcelo Solon Mário Maestri Boaventura de Sousa Santos Francisco Pereira de Farias Jorge Branco Leonardo Avritzer Benicio Viero Schmidt Gilberto Lopes Daniel Afonso da Silva Luis Felipe Miguel Alysson Leandro Mascaro Anselm Jappe Igor Felippe Santos Renato Dagnino Rubens Pinto Lyra Manchetômetro Luiz Werneck Vianna Bento Prado Jr. Francisco Fernandes Ladeira Marilia Pacheco Fiorillo Priscila Figueiredo Vanderlei Tenório Luís Fernando Vitagliano Remy José Fontana Tadeu Valadares Jean Marc Von Der Weid Celso Frederico Michael Löwy Francisco de Oliveira Barros Júnior Dennis Oliveira Paulo Sérgio Pinheiro Plínio de Arruda Sampaio Jr. João Carlos Salles Vladimir Safatle Bernardo Ricupero Eugênio Trivinho Ronaldo Tadeu de Souza Ricardo Musse Valério Arcary Marjorie C. Marona José Raimundo Trindade Liszt Vieira Sandra Bitencourt Mariarosaria Fabris José Luís Fiori Alexandre de Lima Castro Tranjan Valerio Arcary Flávio R. Kothe Paulo Nogueira Batista Jr Lorenzo Vitral Yuri Martins-Fontes Ladislau Dowbor Eleonora Albano Érico Andrade Gabriel Cohn Denilson Cordeiro Jean Pierre Chauvin João Carlos Loebens José Costa Júnior Leda Maria Paulani Bruno Fabricio Alcebino da Silva Ricardo Abramovay Celso Favaretto Luiz Bernardo Pericás Atilio A. Boron Rafael R. Ioris Caio Bugiato Jorge Luiz Souto Maior Marcos Aurélio da Silva João Sette Whitaker Ferreira Everaldo de Oliveira Andrade Eugênio Bucci Juarez Guimarães Daniel Brazil Luiz Costa Lima Marcelo Guimarães Lima Andrew Korybko

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada